Cinema

“Honeyland”: um dos melhores documentários do ano estreia quinta-feira em Portugal

É a história de uma vida simples e em comunhão com a natureza na Macedónia do Norte, que esconde uma série de temas universais.
O filme tem quase uma hora e meia de duração.

Entre filmes como “Parasitas”, “1917”, “Marriage Story” ou “Joker”, foi fácil não nos apercebermos do discreto “Honeyland — A Terra do Mel” na última edição dos Óscares, mesmo que esta produção tenha feito história. Foi a primeira vez que um nomeado na categoria de Melhor Documentário esteve também nomeado para Melhor Filme Estrangeiro.

“Honeyland — A Terra do Mel” acabou por não vencer nenhuma estatueta dourada, mas tem sido aclamada pela crítica e venceu prémios em vários festivais de cinema, incluindo o de Sundance, onde estreou. Esta quinta-feira, 20 de agosto, chega aos cinemas portugueses.

Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska estavam na Macedónia do Norte a explorar as redondezas de uma região montanhosa com o objetivo de fazerem um pequeno documentário relacionado com o ambiente. Por mero acaso, descobriram uma série de colmeias, o que os levou a encontrar Hatidze Muratova, que se tornou a protagonista deste filme que nunca planearam nem imaginaram fazer (e que foi evoluindo com a vida real).

Hatidze vivia com a mãe acamada numa antiga aldeia abandonada, numa pequena casa de pedra sem eletricidade nem água corrente. Tinha aprendido com o avô a arte de ser uma apicultora tradicional, com abelhas selvagens — e é descrita como uma das últimas pessoas na Europa a fazer as coisas à moda antiga, de forma totalmente artesanal.

A dupla de cineastas quis retratar o modo de vida simples e em comunhão com a natureza desta mulher de meia idade. Hatidze mora sozinha com a mãe doente nesta terra remota e isolada. Vive do mel de qualidade que vende nos mercados de Skopje, a capital do país, que fica a cerca de 20 quilómetros da sua casa.

Hatidze trata as abelhas como se fossem a sua família, as suas filhas. “Metade para vocês, metade para mim” é o seu lema em relação à recolha do mel, e é uma mensagem que pode estar perdida no mundo moderno. Raramente usa proteções e nota-se que a sua presença é familiar às abelhas — que quase nunca a devem picar (pelo menos não há sinais disso no filme), apesar da sua pele calejada e desgastada.

A narrativa transforma-se quando os barulhentos Sam — uma família nómada com sete filhos e dezenas de vacas e galinhas — se mudam para o lado de Hatidze. Ela recebe os novos vizinhos de braços abertos, até porque, como ela, falam um dialeto turco (os turcos são uma minoria étnica nesta zona da Macedónia do Norte). Hatidze é alegre e simpática por natureza, os Sam têm mau feitio e passam a vida a discutir entre si.

Hatidze ensina o pai da família, Hussein, a produzir mel com abelhas, usando as suas regras de comunhão com a natureza e sustentabilidade ambiental, mesmo que o faça de uma forma muito natural. Os vizinhos tornam-se amigos, convivem no dia a dia e até vão a uma festa tradicional juntos.

Hussein pretende fazer mel e usar o gado para alimentar a família (e o seu ego). É um pai que vive num ambiente caótico que precisa de sobreviver, e a sua ganância em pequena escala acaba por o levar a um conflito com a vizinha Hatidze. Pressionado por um comprador impaciente, Hussein vende todo o seu mel e não deixa nenhum para as abelhas, o que faz com que as suas abelhas vão atacar as de Hatidze, levando à destruição das suas colmeias. Mais tarde, vai mesmo acabar por roubar mel de Hatidze.

O filme tem uma forte vertente ecológica e tem este lado universal de mostrar como a humanidade pode praticar o mal ao explorar de forma exagerada e errada os recursos naturais — mesmo que aqui seja numa escala muito pequena.

A família de Hussein pode representar a tendência da humanidade para destruir o mundo, enquanto Hatidze é a sábia e paciente que vive bem com muito pouco. Em declarações à BBC, Kotevska disse que a família nómada funciona “como um espelho para todos nós que tomamos más decisões” e que eles não são propriamente vilões.

Através daquilo que se passa, os cineastas conseguiram retratar momentos de pura comédia, e também drama, nas relações entre os vários protagonistas.

Há ainda um paralelismo entre as abelhas e os humanos neste documentário. Hatidze é como se fosse uma abelha trabalhadora que faz o que for preciso para alimentar a mãe — que nunca sai de casa mas que oferece conselhos sábios —, a abelha rainha. Além disso, a atitude da família Sam parece ser representada na perfeição pelas suas abelhas quando estas atacam as abelhas de Hatidze, levando à sua destruição.

A dupla de realizadores gravou o filme durante três anos, ao longo de verões quentes e invernos sofridos — com filmagens que duravam apenas alguns dias de cada vez. Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska dormiam em tendas naquela antiga aldeia e gravam o documentário como se a sua presença nunca fosse notada, mesmo que estejam tão próximos dos seus protagonistas e tenham conseguido captar tudo.

Hatidze e a família Sam.

Curiosamente, nem Stefanov nem Kotevska falam aquele dialeto turco. Ou seja, só na parte da edição, quando traduziram as conversas das mais de 400 horas de gravações, é que perceberam o que realmente estavam a dizer os seus protagonistas entre si. A montagem do filme (que tem quase uma hora e meia) durou um ano.

É um retrato profundamente íntimo e sem filtros desta protagonista e da família de vizinhos, que depois acabou por abandonar aquele local e se mudar para outro sítio. As paisagens naturais e o ecossistema das abelhas — além das roupas coloridas de Hatidze e das suas conversas com a mãe — tornam “Honeyland — A Terra do Mel” um filme com um lado visual muito apelativo.

A nomeação dupla para Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro contribui para a teoria de que não deveria haver separações entre filmes documentais e de ficção. “A nossa visão do cinema é que não deveria haver fronteiras”, disse Kotevska noutra entrevista, desta vez ao “The New York Times”. “Boas narrativas são boas narrativas.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm
Novos talentos

AGENDA NiT