Cinema

Já vimos o novo filme de Borat — é ainda mais nojento do que está a imaginar

Porém, “Borat Subsequent Moviefilm” é uma obra necessária nos dias de hoje e que vale a pena ver com atenção.
Borat não mudou muito, o mundo sim.
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A coisa é bem capaz de ser diferente para os miúdos hoje em dia, mas quem já cá anda há mais tempo ainda se lembra de certos xaropes que atormentavam a infância. E é bem provável que já tenha ouvido as histórias de horror de quem tinha que tomar óleo de fígado de bacalhau. A coisa processava-se deste modo: uma colher, tapar o nariz, fechar os olhos e engolir. Um nojo, portanto, mas lá tinha de ser.

Há filmes assim: não são necessariamente uma coisa boa de se ver mas que têm um tempo para ser vistos. No caso deste “Borat Subsequent Moviefilm”, esse tempo é agora. Coronavírus, eleições nos Estados Unidos e teorias da conspiração são cenário de um filme feito à pressa e em segredo. Suspeitamos que o filme não vai envelhecer bem. Por isso, o ideal é apanhá-lo já e aceitar que por cada cena que o fizer rir há-de haver outra em que não consegue evitar um certo esgar.

Foi há 14 anos que Sacha Baron Cohen encheu salas de cinema, tudo para ver o tal jornalista do Cazaquistão. Havia ali um limite quase ideológico do humor: até onde estamos dispostos a ir por uma piada? Mais caótico, mas também mais fluído, era o tipo de humor que não era para todos (como todo o humor, a bem da verdade). Mas tinha dois factores constantes: o choque e a surpresa.

“Borat Subsequent Moviefilm” é a sequela possível, onde há menos choque e menos surpresa. O resultado é imediato: há menos gargalhadas e boa parte delas, quando chegam, são de piadas que demoram mais tempo a chegar. A culpa é das circunstâncias, que tanto martelam piadas (não há mankini mas há um maskini) como são também a razão de ser de todo o filme.

O novo filme abre cedo mostrando as suas novas limitações: Borat anda na rua e é reconhecido por todo o lado. Há mais disfarces e menos Borat. E deste lado do ecrã estamos ainda mais vezes a tentar perceber o que parece preparado neste falso documentário.

Para compensar os momentos em que há menos Borat e a ausência do produtor Azamat (Ken Davitian), como acompanhante temos a atriz búlgara Maria Bakalova. No papel de filha de Borat, é uma revelação no à-vontade com que rouba algumas cenas e conduz outras sozinha. É ela quem faz de jornalista ingénua quando se senta à conversa com Rudolph Giuliani, antigo mayor de Nova Iorque e advogado de Donald Trump. Faz-se de sonsinha, vai colocando a mão no joelho do entrevistado, deixando-o com um daqueles sorrisos que nos deixa desconfortáveis.

Segue-se a cena de que todos falaram  na última semana, quando os dois vão para um quarto de hotel. Giuliani já está com as mãos nas calças quando Borat irrompe pelo quarto. A cena por si só já levantava questões sobre Giuliani mas Sacha Baron Cohen acrescentou mais detalhes entretanto, em entrevistas. Como o facto de o segurança de o famoso advogado ter passado uma vistoria ao quarto de hotel antes de ele e a suposta jornalista entrarem.

O resto do enredo do filme também segue aos solavancos, inevitavelmente. Há uma ideia de fio condutor mas na prática andamos a saltar entre diferentes cenários e figuras para termos o espírito Borat à solta. O mecanismo é sempre igual: Borat diz ou faz algo horrível capaz de gerar passividade ou um preconceito que vem ao de cima.

É assim que descobrimos uma influencer a ensinar como ser sugar baby, uma pasteleira a escrever mensagens antissemitas em bolos, um tipo a vender jaulas para mulheres ou somos confrontados com uma multidão a cantarolar uma música country onde se nomeiam uma série de figuras (jornalistas, democratas, o que for) que deviam acabar “esquartejados ao estilo saudita”.

Há, no entanto, também pequenos heróis. Como Judith, a sobrevivente do Holocausto que só mostra compaixão quando Borat entra numa sinagoga armado com tudo o que é preconceito contra judeus. Ou uma jovem num daqueles bizarros bailes de debutantes, em que pais conservadores apresentam as suas filhas adolescentes como troféus à nata da sociedade.

A dada altura deste baile, Borat pergunta a um velho que lá está quanto é que dava pela filha dele. 500 dólares, diz ele, com um riso meio depravado. Uma miúda ali ao lado revira os olhos e lança ao tipo um “that’s fucking gross”. É nojento, diz ela, e fala por todos nós. Estás a ouvir, Giuliani?

O filme que estreou na sexta-feira, 23 de outubro, na Amazon Prime tem um título gigante: “Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan”. O serviço de streaming Amazon Prime está disponível em Portugal e custa 5,99€ por mês, mas pode sempre experimentar um teste grátis.

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