Jeremy Allen White cresceu a ouvir os discos e singles de Bruce Springsteen. Agora com 34 anos e 20 prémios no currículo, o ator transforma-se no ídolo de juventude em “Deliver Me From Nowhere”, que chega aos cinemas esta quinta-feira, 23 de outubro.
O biopic musical centra-se na criação de “Nebraska”, o álbum mais cru e introspectivo de Springsteen, lançado em 1982. O filme explora não só o processo artístico por detrás do disco, como também a fase conturbada da vida pessoal do cantor, que enfrentava problemas de saúde mental longe dos palcos.
Para Jeremy Allen White, a transformação não foi imediata. “Foi difícil encarnar o músico vencedor de 20 Grammys. No entanto, quando começou a olhar para o cantor ‘como um homem e não como um deus’, encontrou o ‘ponto de equilíbrio’”, revela.
O filme é realizado por Scott Cooper, responsável por “Crazy Heart”, o drama que valeu a Jeff Bridges o Óscar de Melhor Ator. A obra baseia-se no livro de Warren Zanes. No elenco, Jeremy Strong (“Succession”) interpreta Jon Landau, empresário e confidente de Springsteen.
A relação entre ambos é, segundo os atores, um dos pontos mais fortes da história. “Percebi que, nos primeiros tempos, eles tinham uma ligação muito próxima, com abraços e sorrisos. Não tivemos de falar sobre isso ou ensaiar. Simplesmente estava lá”, explica Strong.
“Deliver Me From Nowhere” soma neste momento uma pontuação de 68 por cento no agregador Rotten Tomatoes, com reações divididas. “As apresentações ao vivo são emocionantes, mesmo que fugazes, e o forte compromisso em desmistificar Springsteen para revelar a sua alma oculta encobre as falhas narrativas do filme”, escreveu o jornal “USA Today”.
Leia a entrevista aos atores Jeremy Allen White e Jeremy Strong, bem como ao realizador Scott Cooper.
Jeremy, como foi transformar-se no Bruce Springsteen?
Isto foi, acima de tudo, uma questão de me aproximar de um homem que procurava paz em casa e no seu processo criativo. Alguém que procurava e encontrava inspiração. Quando comecei a encarar o Bruce Springsteen como um homem e não como um deus, foi aí que encontrei o meu ponto de equilíbrio. Um dos grandes desafios, além de representar uma figura tão conhecida, foi aprender a cantar e a tocar guitarra o melhor que conseguia.
E como é que foi filmar em Nashville e New Jersey, lugares importantes para a vida do Bruce?
Quando estive em Nashville, na [editora] RCA, senti uma verdadeira ligação com o Bruce. Tive sorte com algumas personagens que interpretei, porque exigiram que eu aprendesse algo novo. Estar num estúdio a cantar palavras que não são minhas, mas que precisei de aprender e tornar minhas, foi uma experiência transformadora. Tive uma verdadeira revelação em Nashville, uma espécie de irmandade espiritual. Tudo me pareceu muito sagrado. Conheço a história daqueles espaços, daquela cidade — e o que significou para o Bruce tê-los vivido. Senti uma enorme responsabilidade em contar esta história. Não se tratava apenas de representar uma pessoa real, mas de reviver momentos reais. O ar que foi respirado. Havia algo muito frágil e delicado em recriar certas cenas, especialmente em Colts Neck e durante o processo de gravação. E os momentos de solidão do Bruce também. Havia fragilidade nele, e em mim. Uma suavidade muito genuína ao tentar recapturar esses instantes.
E no caso de Scott, como foi colaborar com Bruce Springsteen, o seu grande herói, neste filme?
Foi intimidante. O Bruce foi incrivelmente generoso, aberto e manteve-se envolvido em todo o processo. Nunca quis fazer um filme apenas sobre Bruce Springsteen. Quis fazer um filme sobre um homem que, por acaso, é o Bruce Springsteen.
E o que é que os fãs do Bruce vão poder aprender com este filme?
O filme aborda o seu trauma não resolvido e o Bruce foi extraordinariamente sincero. Contou-me coisas que nunca tinha dito a ninguém. Senti isso como um grande ato de confiança e amor da parte dele. Além do filme, mostrou-me uma generosidade que vai muito além da amizade. Estou profundamente grato pela liberdade de criar algo tão honesto. Esta colaboração — com o Bruce, com estes atores, com toda a equipa — foi um dos grandes momentos da minha vida.
Como foi, para o Jeremy Allen White e Jeremy Strong, construir uma relação ao estilo pai e filho, nos papéis de Jon Landau e Bruce Springsteen?
Jeremy Strong: Percebi que, nos primeiros tempos, eles tinham uma ligação muito próxima, com abraços e sorrisos. Consegui sentir esse amor e essa ligação. Quando se trata de representar algo assim, não se pensa na câmara — entra-se no momento, e o resto acontece naturalmente. Não tivemos de falar sobre isso ou ensaiar. Simplesmente estava lá.
Jeremy Allen White: Sim, era evidente e não precisámos de discutir antes. Estava tudo no livro, no guião, e também na nossa compreensão ao longo do tempo. Havia confiança: cada um sabia o que tinha de compreender e, quando nos encontrámos, o amor, a lealdade e o sentido de responsabilidade um pelo outro surgiram naturalmente.
Jeremy Strong: O Jon era como um jardim e o Bruce uma flor exótica. Ele tinha uma sensibilidade muito própria quanto ao ambiente que precisava para florescer. Senti essa necessidade de proteger a história. Não se trata de ‘atuar’ — é apenas fazer. Vejo no Jeremy um ator que enfrenta algo imenso, e tudo o que preciso é permitir-me sentir um verdadeiro cuidado por ele. Isso ajuda-me a compreender o Jon — da forma como o Jeremy me permitiu fazê-lo. É assim que se cria essa dinâmica.
Que mensagem é que o Scott quer que os espectadores tirem deste filme?
Sempre procurei explorar temas mais difíceis: dependência, racismo, saúde mental, reconciliação familiar. São questões com que todos lidamos. Gosto de refletir intelectualmente sobre elas, mas o que mais me importa é a emoção — como o público se vai sentir e identificar-se com a história. Quero fazer um filme que eu próprio gostaria de ver numa sexta-feira à noite e, ao mesmo tempo, um filme em que o público possa ver-se a si próprio. O mais comovente é o poder do cinema, quando alguém se aproxima de ti na rua e diz: ‘Obrigado, Scott. Obrigado por mostrar que dois homens afastados podem reencontrar-se. O meu pai nunca me disse que me amava, nunca me disse que se orgulhava de mim, o meu filho sofre de doença mental e espero que ele veja este filme.’
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