Cinema

John Boyega, de renegado de Hollywood a ativista

O desconhecido ator britânico chegou ao cinema com estrondo em “Star Wars”. Hoje, é um dos rostos mais famosos do movimento Black Lives Matter.

Ao fim de uma década, a saga “Star Wars” estava finalmente de volta. No primeiro ansiado trailer, um pequeno pormenor captou a atenção de uma franja de fãs — algo que passou impercetível a muitos outros. Um dos stormtroopers retirava a máscara e, por detrás dela, estava um homem negro. Não interessava quem era: para eles, nada disso, fazia sentido. O filme era para boicotar. “Propaganda anti-brancos”, dizia-se pelo Twitter.

Ser escolhido para fazer parte daquela que é discutivelmente a maior saga da história do cinema era, à época, um sonho tornado realidade para o rapaz de 23 anos nascido no sul de Londres. Uma entrada triunfal que ficava marcada pelo odor pestilento do racismo. John Boyega baixou a cabeça e seguiu em frente. Uma década depois, exorcizou tudo em raiva, lágrimas e gritos, de megafone em punho.

O discurso apaixonado do ator de 28 anos marcou os protestos londrinos do movimento Black Lives Matter , em resposta à morte do norte-americano George Floyd às mãos da polícia. Esse foi o ponto de viragem, o momento em baixou as defesas em público, para depois erguer o punho: contra Hollywood, contra a polícia, contra tudo que ainda viva sob a sombra do preconceito.

“É algo de muito poderoso quando os homens negros deixam crescer o cabelo. Culturalmente, isso quer dizer alguma coisa”, confessou numa entrevista à “GQ”, meses depois da sua transformação, agora com cabelo comprido, cuidadosamente alinhado em tranças.

Boyega é um homem de ideias fixas e com o dom da palavra. Assumido teetotaler (expressão nascida no Reino Unido que caracteriza quem não bebe álcool), é filho de um pastor de uma igreja pentecostal. Apesar de ser também um dos mais talentosos atores da sua geração — J.J. Abrams desfaz-se em elogios, o mesmo acontece com Steve McQueen, seu realizador na aguardada minissérie “Small Axe” —, mostrou-se receoso do que o seu discurso apaixonado podia trazer: “Não sei se vou ter uma carreira depois disto”

Na primeira pessoa

Filho de descendentes de imigrantes nigerianos, Boyega cresceu em Peckham. Da infância, recorda diversos episódios de racismo.

Era ainda pequeno e incapaz de compreender a magnitude do que acontecia à sua volta, quando numa visita a casa de uns familiares, a sua família foi agredida com garrafas. À sua volta, apelidavam-nos de macacos e gorilas.

Entre outras memórias, recorda o dia em que o seu pai foi mandado parar pela polícia simplesmente porque era negro. Toda a família teve que sair do veículo para uma inspeção.

Ou a ocasião em que um vizinho usou uma espada para furar a porta de sua casa, tudo por causa de um motivo fútil. “Foi uma pequena zanga por causa de um bocado de um biscoito que caiu ao chão”, recordou em entrevista à “GQ”.

“Todos os negros se recordam da primeira vez que lhes é relembrado que eles são negros. Tu lembras-te disso. Qualquer um de nós se lembra do dia em que outra pessoa nos obrigou a prceber que éramos negros”, gritou à multidão em Hyde Park, no discurso feito em junho.

Ele é um dos protagonistas da nova minissérie de Steve McQueen

Um pesadelo chamado “Star Wars”

“Sou o único membro do elenco cuja experiência única da saga foi feita pelo prisma do racismo”, recorda daquela que foi, indiscutivelmente, a sua entrada grandiosa em Hollywood e que, para o bem e para o mal, mudou a sua vida. A experiência não foi, contudo, aquela que ele esperava.

Os apelos ao boicote do filme por causa da aparição de um homem negro no papel de um stormtrooper não tiveram qualquer sucesso, mas o pequeno protesto virtual deixou marcas. “Mais ninguém foi recebido com esse alvoroço, com ameaças de morte enviadas por mensagem privada para o Instagram e redes sociais. Ninguém teve essa experiência, mas depois as pessoas ficam surpreendidas porque sou como sou. É essa a minha frustração.”

Era nas pequenas coisas que Boyega ia encontrando alguma resistência de pendor preconceituoso. O racismo escondia-se nos mais ínfimos pormenores, revela. Boyega percebia que o seu estilista “se encolhia com vergonha” quando via as escolhas de outfit que o ator fazia.

A cabeleireira que não sabia pentear o seu tipo de cabelo, mas que “tinha a coragem de fazer de conta que sabia”. “Durante a promoção dos filmes alinhava na coisa. Obviamente que nessa altura eu estava genuinamente feliz por fazer parte daquilo. Mas o meu pai dizia-me sempre uma coisa: ‘Não exageres no respeito. Podes respeitar, mas por vezes exageras e acabas por te menosprezar.”

No papel de Finn, na mais recente trilogia “Star Wars”

Terminada a trilogia, Boyega decidiu acabar de vez com os paninhos quentes. Apesar de admitir que a experiência foi uma tremenda oportunidade e absolutamente decisiva para a sua carreira, também deixou recados à Disney.

“Não faz sentido criar uma personagem negra, promovê-la a um nível de relevo na saga, para depois a colocar de lado”, atirou sobre a sua personagem que foi perdendo tempo de ecrã ao longo dos três filmes da terceira trilogia de “Star Wars”. No mesmo patamar, Boyega coloca Oscar Isaac, Naomi Ackie e Kelly Marie Tran.

O ator de 28 anos disparou em todas as direções e não poupou ninguém. Acusou os argumentistas e produtores de saberem perfeitamente o que fazer com os protagonistas Daisy Ridley e Adam Driver, mas “quando chegavam à Kelly Marie Tran ou ao John Boyega, já não sabiam uma merda”.

“O que eles querem que tu digas é ‘Eu gostei de fazer parte disto, foi uma grande experiência. Não, não, não. Aceito essa proposta quando a experiência for realmente gratificante”, explicou, antes de acrescentar que “toda a gente sabe o que aconteceu”. “Não estou a desvendar nenhum segredo.”

Ativista a tempo inteiro

Até ao famoso discurso do Hyde Park, Boyega era apenas mais um jovem ator. Hoje, o britânico é um dos rostos mais famosos do movimento Black Lives Matter, que ganhou força durante os protestos após a morte de George Floyd.

Contrariamente ao que faz todos os dias, fruto da sua profissão, nada nesse episódio foi fingido. Não havia sequer qualquer plano desenhado para saltar para a frente de uma multidão de megafone na mão.

Quando saiu de casa ao lado da irmã Grace, pretendia apenas ser apenas mais um elemento na rua. O protesto silencioso e discreto acabou por não ser possível.

Ao encontrar-se com alguns dos organizadores, com quem havia comunicado semanas antes pelas redes sociais, foi-lhe pedido que deixasse umas palavras de apreço aos manifestantes. Nem Boyega, nem a multidão estava à espera de uma explosão de sentimentos.7

A certa altura, a voz cede, o olhar cai e volta a erguer-se diretamente para as centenas de pessoas que estavam à sua frente e que ainda conseguiam ouvir o que saía do megafone. “Preciso que entendam o quão dolorosa é esta merda, ser relembrado todos os dias de que a tua raça não vale nada”, protesta com a voz a falhar e as lágrimas a escorrerem.

Boyega explicaria mais tarde que essa emoção foi motivada pelo medo que encontrou nos olhos dos outros homens negros como ele. “Isso fez-me chorar, porque isso não é uma coisa que vejas todos os dias”. “Por vezes tens que te enfurecer. Tens que dizer tudo o que te vai na cabeça. Por vezes não há tempo suficiente para jogar o jogo”, acrescentou.

De desconhecido a ator eleito por alguns dos realizadores mais prestigiados da indústria, Boyega parece seguir à risca o conselho do pai. Da experiência na saga história do cinema, leva o estatuto que hoje lhe permite fazer carreira e, acima de tudo, ajudar-se a si próprio e aos outros que com ele partilham a raça, os medos, os receios e as esperanças. “Passar por esse processo deixa-te zangado”, protesta ainda acerca da marginalização que sentiu em “Star Wars”. “Mas isso torna-te muito mais militante; muda-te. Porque tu finalmente percebes que tiveste uma enorme oportunidade numa indústria que nem sequer estava preparada para ti.”

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