Cinema

Jorge Mota vive Salazar no cinema: “Não tentei humanizá-lo. Tentei compreendê-lo”

O ator português protagoniza “Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar”, que estreia esta quinta-feira nas salas portuguesas.

Durante quase dois anos, após sofrer um AVC em 1968, António de Oliveira Salazar acreditou que ainda governava Portugal. O ditador foi afastado do poder, mas ninguém lhe contou a verdade. À sua volta, médicos, criadas, governantas e membros do regime mantiveram uma encenação absurda para o convencer de que continuava a ser Presidente do Conselho. É essa história pouco conhecida que serve de base a “Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar”, o novo filme de José Filipe Costa, que estreia esta quinta-feira, 28 de maio, nos cinemas portugueses.

Na pele de Salazar está Jorge Mota, ator português de 71 anos, que descreve o filme como “uma farsa política” e um retrato de “um regime da mentira”. À NiT, falou sobre o desafio de interpretar uma das figuras mais controversas da História de Portugal, o medo de cair na caricatura e a importância de continuar a discutir o Estado Novo no cinema.

O filme mostra um homem completamente isolado da realidade enquanto todos à volta fingem que ele ainda governa. Viu isto mais como uma tragédia humana ou como uma farsa política?
Eu enquadro mais isto na farsa política. É uma situação muito caricata e demonstrativa do que era o regime. O regime vivia muito da mentira, do esconder, do sombrio. Nada era claro, nada era feito às claras. A elite política do Estado Novo exonorou o Salazar e deixaram-no ficar naquele palácio simbólico do Presidente do Conselho enquanto montam toda aquela encenação. Depois até começam a ter problemas de consciência por o deixarem morrer naquela mentira, desde da famosa governanta Maria de Jesus até ao Presidente da República, Américo Tomás. É quase o corolário de um regime da mentira, que felizmente acabou.

Interpretar Salazar continua a ser quase um terreno proibido em Portugal?
Nunca pensei nisso dessa forma. Vi-o mais pelo lado do desafio. Foi uma figura muito importante neste País, embora não tenha sido uma figura agradável, porque foi um ditador. Mas isso não impede que possa ser representado.

Teve receio de humanizar demasiado uma figura tão controversa?
Não. Tive medo foi de caricaturar. Só faz sentido fazer personagens humanas. Não faria sentido fazer o elogio de Salazar, mas sim retratar factos e situações que aconteceram. E aquilo que mostramos não abona nada a favor dele nem do regime. Foram dois anos em que ele já não estava no poder e alimentaram uma farsa à volta dele.

Como se prepara uma personagem destas?
Li tudo o que pude. O realizador também me deu muita informação e fiz as minhas próprias pesquisas. O problema é que nós estamos a retratar os últimos dois anos de vida de Salazar e há muito pouca informação desse período. Quase não existem imagens gravadas dessa altura. Havia um registo do médico que o acompanhou e uma gravação da RTP em que ele agradece ao País, já depois de ter tido o AVC. Essa imagem foi muito importante para mim porque mostrava um homem completamente debilitado. Via ali alguém muito perdido.

Tentou aproximar-se do Salazar histórico ou criar uma interpretação mais emocional?
A minha abordagem teve muito a ver com o guião e com as situações propostas. Não tentei entrar em tudo o que existia para trás daquela figura. Limitei-me àquele período específico da vida dele. Um homem debilitado, assaltado por memórias, rodeado por uma corte de pessoas que o faz acreditar que ainda governa um País.

Há sempre o risco de cair na caricatura quando se interpreta uma figura tão reconhecível. Como evitou isso?
Tentei não fazer o “mau típico”, mas também não quis criar uma personagem simpática. Se calhar até criei alguma empatia em certos momentos. A vida é assim. O Salazar também era uma pessoa, com várias facetas.

Em Portugal ainda existe dificuldade em olhar para o Estado Novo no cinema e na televisão?
Acho que sim. Ainda há muitos tabus. Agora começam a surgir mais filmes sobre isso, como este ou os do João Botelho, mas já é tempo. A guerra colonial, por exemplo, foi muito trabalhada na literatura, mas muito pouco no cinema. É preciso falar das coisas e trazê-las à luz do dia. Estar a esconder não faz sentido.

Porque acha que Salazar continua a provocar tanto fascínio décadas depois da ditadura?
Há muita falta de memória. Algumas pessoas que viveram naquele regime esqueceram-se do que aquilo era realmente: uma realidade pobre, miserável e discriminatória. E há pessoas que nasceram em democracia e não têm memória disso. Vendem-lhes uma ideia de que era tudo fantástico naquela altura, mas não era. Quem investigar a História percebe que este País mudou da água para o vinho nestes 50 anos de democracia.

Passar semanas dentro desta personagem deixou algum peso psicológico?
Não deixou um grande peso psicológico, mas deixou alguma ansiedade. O filme ficou pronto há bastante tempo e eu tinha curiosidade em perceber como o público iria reagir. Acho importante irmos buscar estes fantasmas e trazê-los para a luz do dia, porque senão transformam-se em mitos.

E há muita gente a aproveitar-se desses mitos. Houve momentos em que sentiu empatia humana pela fragilidade daquele homem?
Sim. Há momentos em que ele fala da mãe e percebe-se que tinha uma enorme adoração por ela. Achei esses momentos comoventes e com ternura. Mas isso não significa gostar dele. O problema é que criou um regime totalitário, um regime de medo, com uma polícia que cometia atrocidades e onde não existia liberdade nenhuma. Havia muita miséria e o País estava nas mãos de meia dúzia de pessoas.

Depois deste papel, ficou com uma visão diferente sobre Salazar?
Quando nos debruçamos sobre pessoas e acontecimentos mudamos sempre alguma coisa na nossa visão. Eu nunca gostei de simplificar as coisas porque tudo tem várias facetas. Mas isso não desculpa os crimes. Uma pessoa pode acariciar uma criança e, ao mesmo tempo, ser responsável pela morte de outras pessoas. Isso não a absolve de nada. Fiquei a conhecer melhor aquela figura, mas isso não me faz gostar mais de alguém que foi tão prejudicial para tanta gente.

O que acha que vai surpreender mais o público neste filme?
Muita gente sabe apenas que ele caiu da cadeira e acha que a história acaba aí. Mas não sabe que ele ainda viveu dois anos convencido de que continuava no governo. Acho que esse é o grande dado novo para muitas pessoas.

O público vai sair da sala com respostas ou mais perguntas?
Espero que saia com reflexão. E a reflexão leva mais a perguntas do que a respostas. Espero que o filme não dê respostas fechadas.

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