Cinema

Lady Gaga usou os traumas da vida pessoal para construir a personagem de “Casa Gucci”

O filme estreia esta quinta-feira nos cinemas. Gaga interpreta Patrizia Gucci, que mandou matar o marido nos anos 90.
Adam Driver e Lady Gaga interpretam um casal.

Esta quinta-feira, 25 de novembro, estreia nos cinemas portugueses “Casa Gucci”. Era um filme que Ridley Scott estava a tentar concretizar há 20 anos, quando a sua mulher, Giannina Facio, comprou os direitos para adaptar o livro “The House of Gucci: A Sensational Story of Murder, Madness, Glamour, and Greed”, de Sara Gay Forden.

Por falta de foco, falhas de guião ou por receio da reação da Gucci — que hoje em dia já não é gerida pela família —, os grandes estúdios de Hollywood nunca quiseram investir nesta ideia. Mas Scott não desistiu. Quando recebeu um argumento de que gostava, coincidiu com a estreia nos cinemas de “Assim Nasce Uma Estrela”, com Bradley Cooper e Lady Gaga.

Depois de ver o filme, o cineasta britânico percebeu que tinha encontrado a sua Patrizia Reggiani, uma das personagens principais da história. Marcou um encontro e deu-se bem com Lady Gaga, que aceitou fazer o papel. ​​”Houve sempre apenas uma pessoa na minha visão que pudesse carregar esta mulher que é tão direta”, disse Ridley Scott, em declarações à “The Hollywood Reporter”.

O próximo passo era convencer a Gucci a alinhar no projeto, para que se pudesse usar o seu arquivo de roupas e o nome real da marca. Felizmente, Giannina Facio é amiga da atriz Salma Hayek, que por sua vez é casada com o empresário francês François-Henri Pinault. Ele é o CEO da Kering, a empresa que atualmente detém a Gucci. Rapidamente foi feito um acordo para que este filme avançasse.

“Casa Gucci” relata a história desta família poderosa que criou a famosa marca de luxo. Mas centra-se sobretudo nos acontecimentos que marcaram a terceira geração. Patrizia Reggiani, oriunda de uma família humilde, conheceu Maurizio Gucci — o herdeiro do império, neto do fundador — numa festa. Os dois juntaram-se e casaram em 1972. Patrizia passou a ser uma Gucci.

Ao longo dos anos, Patrizia foi subindo na longa escada da empresa familiar para se aproximar do topo. Até que, em 1995, na sequência do seu divórcio com Maurizio, contratou dois assassinos profissionais para o matarem. Conseguiu, mas passou 18 anos na prisão. O filme relata esta história, mas é empático com Patrizia — uma mulher que sempre foi vista como “gold digger”, alguém que tinha casado por interesse, num mundo dominado por homens.

Segundo a “BBC”, numa entrevista dada este ano, Patrizia Reggiani aprovou o nome de Lady Gaga para a interpretar. Contudo, mostrou-se “irritada” que a atriz não a tivesse contactado para se conhecerem. Mais tarde, os produtores de “Casa Gucci” disseram que não queriam que as duas se conhecessem, porque estavam “conscientes de que não queriam apoiar aquele crime horrível”.

À estação pública britânica, Lady Gaga disse que acreditava que Reggiani tinha cometido aquele crime porque estava “demasiado magoada e foi empurrada para fora dos limites”. “Simplesmente não há outra razão pela qual ela fizesse com que o seu marido fosse morto.”

E acrescentou: “O que achei fascinante foi que toda a gente dizia que era uma gold digger, a viúva negra gold digger. Senti que ela estava a tentar subir na vida, a tentar importar, a tentar ser alguém. Por isso, ao interpretá-la, jorrei humanidade de todas as células do meu corpo. Como é acordar todos os dias e sentires-te menos do que todas as pessoas à tua volta? Ela nunca foi tão brilhante como os Gucci, nunca se enquadrou realmente, foi sempre um pouco embaraçosa.”

Para construir a personagem, Lady Gaga recorreu aos próprios traumas, da sua vida pessoal, para chegar ao estado de espírito necessário. “Usei todas estas memórias, todos os traumas, todos estes momentos da minha vida.”

Em maio deste ano, a cantora tornada atriz revelou que sofreu um colapso emocional depois de ter sido violada por um produtor musical quando tinha 19 anos. Lady Gaga engravidou depois deste incidente e desenvolveu um “surto psicótico total”.

A “BBC” questionou Gaga sobre como é que usou os seus traumas para construir o papel. “O veneno de experienciar um mundo de homens a toda a hora ao estar na indústria musical, diria eu”, respondeu a artista. “E pelo facto de ter sido atacada quando tinha 19 anos, sentir-me controlada por homens enquanto continuava a minha carreira e a tentar encontrar a minha voz.”

Lady Gaga, que sofreu de stress pós-traumático, tentou evocar todos esses sentimentos para os usar nas cenas que ensaiou e gravou durante nove meses. “Peguei em todos os aspetos desencadeadores e deixei-me experienciar — consigo chorar só de falar sobre isto — o modo de sobrevivência de forma constante. Foi muito doloroso no set de gravações porque estava constantemente a utilizar a memória sensorial.”

O casal na vida real e no filme.

O seu realizador “incrível” acompanhou-a e confirmou regularmente que ela estava bem. “O Ridley disse: ‘Não quero que te traumatizes’. E eu disse: ‘Já o fiz. Já passei por isto, de qualquer forma. Por isso mais vale dar-te a ti’. E ele disse: ‘Bem, pelo menos deixa isto aqui e não faças mais isto a ti mesma’”, contou, desta vez, à “The Hollywood Reporter”.

“Reviveres o teu trauma para uma personagem talvez não seja a coisa mais saudável”, admite à “BBC”. “Mas sou uma romântica. Estou num romance com o guião, com a minha personagem, com o elenco. De certa forma, penso que tenha sido terapêutico, como se tivesse sido um exorcismo.” 

Houve momentos em que a atriz estava num estado mental em que experienciava mesmo o trauma enquanto gravava cenas. “Foi uma cena em que derrubo uma vela, e lembro-me de que quase dei à Salma um ataque de coração naquele dia. Estava a colapsar enquanto a Patrizia colapsava. Quando digo que não quebrei a personagem, parte disso não foi por escolha”, contou à “The Hollywood Reporter”.

O processo foi muito exigente. Lady Gaga acordava todos os dias às três da manhã para começar a sua transformação física para a personagem. Muitas vezes, depois de acordar, vomitava, graças a uma mistura de “ansiedade, fadiga, trauma, exaustão, compromisso e amor”, descreve. “Tu acordas, vomitas, vais para o set, vomitas outra vez.”

Para se aproximar da personagem, Lady Gaga também ganhou algum peso. E começou a treinar o seu sotaque do norte de Itália, evocando algumas das suas raízes. Afinal, Stefani Germanotta — o nome real de Gaga — é descendente de imigrantes italianos, embora vindos da Sicília.

No filme, Patrizia junta-se com Maurizio (Adam Driver) quando ele tenta tomar o controlo da empresa e retirá-lo ao pai (Jeremy Irons) e ao tio (Al Pacino). Também lá está o seu primo tresloucado (um irreconhecível Jared Leto). Salma Hayek interpreta a psicóloga de Patrizia, que acaba por se tornar sua amiga. 

Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano.

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