Cinema

Lashana Lynch, a primeira mulher a fazer de agente 007

Tornou-se conhecida na Marvel e para este papel teve de fazer treinos de ninja. O novo filme de James Bond está quase a estrear.
É a nova 007.

Dentes perdidos, uma perna partida e a ponta de um dedo cortada. Estas são algumas das lesões que Daniel Craig sofreu ao longo dos anos enquanto gravava as exigentes sequências de ação enquanto James Bond. O próximo capítulo da saga de espionagem, “007: Sem Tempo para Morrer”, vai ser o seu último. Estreia a 30 de setembro nos cinemas, um ano e meio depois do previsto.

Curiosamente, Daniel Craig ainda é James Bond neste filme, mas aparentemente já não é o agente 007. Nesta história, James Bond deixou o serviço no MI6 e está a aproveitar uma vida tranquila na Jamaica. Só que não demora muito tempo até a sua reforma ser interrompida — é o seu antigo amigo Felix Leiter, da CIA, que lhe pede ajuda. 

Bond tem de regressar para uma missão de resgate de um cientista raptado que se torna muito mais difícil e perigosa do que parecia à primeira. O vilão será interpretado por Rami Malek, neste filme realizado por Cary Joji Fukunaga. O elenco inclui ainda Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Jeffrey Wright, Rory Kinnear e Naomie Harris, entre outros.

A figura da “Bond Girl” tem mudado ao longo dos anos, desde que a saga baseada nos livros de Ian Fleming se iniciou no cinema em 1962. Em “007: Sem Tempo Para Morrer”, há duas mulheres preponderantes para o desenrolar do enredo. Uma delas é interpretada por Ana de Armas, a outra é a primeira mulher 007: Nomi, cujo papel pertence a Lashana Lynch.

Aos 33 anos, esta atriz britânica de origens jamaicanas faz história ao tornar-se a primeira mulher com este cargo na saga de cinema. Interpreta Nomi, a agente do MI6 que ficou com o título de 007 após a saída de Bond. Nesta narrativa, deverão trabalhar juntos, apesar de poucos detalhes serem conhecidos sobre o guião. O futuro é incerto, mas “007: Sem Tempo para Morrer” pode ser um filme de transição entre as duas personagens, se a aposta se mantiver em Lynch para o futuro.

Lynch e Daniel Craig trabalham juntos neste filme.

Lashana Lynch sempre quis ser atriz desde que começou a fazer peças de teatro na escola, quando ainda era criança. “Muitas pessoas costumavam dizer: Tens de ter um plano B. E eu: isso não existe. Nunca houve um plano B”, contou ao “The Guardian” numa entrevista publicada este domingo, 12 de setembro.

Estreou-se no cinema com “Miúdas a Abrir”, em 2012. Desde então participou em produções como “Noite de Inconfidências”, “Crims”, “Still Star-Crossed” ou “Bulletproof”. Durante este período trabalhava fora do mundo da representação para conseguir pagar as contas: trabalhou numa empresa de carros e foi rececionista em instalações do sistema nacional de saúde britânico. O papel onde se tornou realmente conhecida, e que a fez vingar no meio e poder largar tudo o resto, foi o de Maria Rambeau no blockbuster “Capitão Marvel”, onde brilhou ao lado de Brie Larson.

O casting para ser a primeira agente 007 foi exigente. Teve algumas audições com Barbara Broccoli, produtora dos filmes de James Bond desde 1995. Conheceu e fez leituras do guião com Daniel Craig. E depois teve de passar num teste físico de “ninja” supervisionado pela equipa de duplos e pelo departamento de armas da saga.

“Eles entregam-te uma série de armas e ensinam-te uma coreografia e basicamente tens de a copiar. Foi do género: Pega na arma! Dispara! Ajoelha-te! Dispara! Rebola! Salta e cai de pés! Dispara! Corre, corre, corre! Ficaste sem munições! Manda isso fora! Toma esta arma! Dispara! E essa foi a primeira de cinco que me ensinaram.”

Lashana Lynch já treinava regularmente e encarou isto como um desafio a superar — o mais difícil, admite, foi decorar rapidamente todos os movimentos que tinha de fazer numa sequência de ação. “Deu-me uma noção da ferocidade e das habilidades de que eles estavam à procura.”

Ao “The Guardian”, a atriz não confirma que vai assumir a posição de James Bond — apesar de todos os rumores que circulam nesse sentido, como defende a publicação de referência. “Estamos numa altura em que a indústria não está só a dar ao público o que pensa que o público quer. Estão a dar ao público aquilo que querem dar ao público. Com Bond, pode ser um homem ou uma mulher. Pode ser branco, negro, asiático ou mestiço. Pode ser jovem ou velho. Mesmo se um miúdo de dois anos interpretasse o Bond, toda a gente iria ao cinema ver o que ele iria fazer, não?”

E acrescenta: “Acho que eles estavam à procura de alguém que pudesse fazer um par com Bond. Que pudesse afirmar-se, dizer o que pensa com determinação, e consiga manusear uma arma, que se consiga gerir a si própria e que não aceite tretas de ninguém. Depois, tornou-se uma humana com uma mente muito aberta, livre e complicada, que dá um ótimo twist ao MI6”.

Phoebe Waller-Bridge, a autora (e atriz) britânica por trás das séries “Fleabag” ou “Killing Eve” — cujo talento se tornou tão evidente em Hollywood que foi contratada para participar em “Star Wars” ou no próximo “Indiana Jones” — foi chamada para integrar a equipa de argumentistas e ajudar a escrever a personagem de Nomi.

Waller-Bridge e Lashana Lynch trabalharam juntas no desenvolvimento da personagem e refletiram sobre as suas características, ainda que tenha sido a primeira a escrever realmente as suas falas e ações. “Quando eu disse à Phoebe quem eu queria que a Nomi fosse, não houve uma conversa. Ela só disse: Foi exatamente isso que eu pensei, fabuloso, vamos fazê-lo.”

Lashana Lynch tem 33 anos.

A atriz encarava Nomi como uma “mulher real”. “Mas não queria que o seu trabalho a tornasse masculina. Ela está bem resolvida, é altamente competente e talentosa, mas é um ser humano real e às vezes é constrangedora.” Apesar de Lynch não dar grandes pormenores ao “The Guardian”, o jornal britânico diz que a sua personagem poderá ter tido problemas com o seu peso no passado, ou ter dificuldades com um namorado ou poderá estar a ter a sua menstruação nalgum momento do enredo. Problemas reais que a tornam numa personagem mais densa, realista e relacionável.

Agora que faltam apenas algumas semanas para o mundo finalmente poder ver “007: Sem Tempo para Morrer”, Lashana Lynch está expectante mas preparada para a atenção mediática que provavelmente vai passar a ter. Desde que a sua personagem foi anunciada, Lynch diz que a reação do público foi sobretudo positiva, mas também revela que recebeu mensagens e soube de comentários que foram “realmente maus, obscuros”.

“Reminiscentes de uma era que eu nem vivi, quando as mulheres e os negros nem podiam mover-se em certos espaços. Por isso também me relembrou do trabalho que ainda tenho de fazer para tentar mudar o mundo da pequena forma que consigo.”

Carregue na galeria para conhecer os principais filmes que ainda vão estrear até ao final do ano.

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