Cinema

Lúcia Moniz: “A história do ‘Love Actually’ é real e aconteceu com uma portuguesa”

A NiT falou com a atriz e música sobre o novo filme, “Listen”, mas também acerca dos momentos mais marcantes do seu percurso.
A atriz tem 44 anos.

Faltam exatamente seis meses para a próxima edição dos Óscares quando nos encontramos com Lúcia Moniz na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. “Listen”, o mais recente filme protagonizado pela atriz — e realizado por Ana Rocha de Sousa — é o candidato nacional ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Lúcia Moniz repara como, por causa da pandemia, os Óscares foram adiados para 25 de abril do próximo ano — e garante que, se “Listen” conseguir ser o primeiro filme português nomeado para um Óscar, que leva um cravo vermelho ao peito.

A produção que se foca numa família portuguesa emigrante em dificuldades no sistema de imigração do Reino Unido tem sido um sucesso — é o filme português mais visto do ano e já venceu uma série de prémios internacionais, incluindo no prestigiado Festival de Cinema de Veneza.

“Listen” é o filme do momento para Lúcia Moniz, mas a atriz e música portuguesa de 44 anos participou noutras importantes produções que iam estrear este ano — mas que acabaram adiadas por causa das circunstâncias.

É o caso de “Amadeo”, o filme biográfico sobre o pintor Amadeo de Souza-Cardoso; e “Sombra”, o filme que se centra numa mãe portuguesa cujo filho desaparece, sendo que a narrativa é inspirada no caso real de Rui Pedro e noutras histórias semelhantes. Além disso, participou em “Fátima”, produção internacional gravada em Portugal, com um elenco sobretudo português, que conta a história dos três pastorinhos.

Mas há muito mais motivos para falarmos com Lúcia Moniz. A artista tem tido um percurso singular em Portugal, entre a representação e a música, passando ainda pelo design e pela fotografia — é quase uma renascentista dos tempos modernos.

Atualmente, conta, tem passado muito mais tempo na ilha Terceira, nos Açores, de onde são naturais os pais, os também músicos Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo. Apesar de ter crescido sobretudo em Lisboa, é nos Açores que se sente em casa. Leia a entrevista da NiT com Lúcia Moniz — desde a Eurovisão a “Love Actually”, passando por outros temas.

Inicialmente, o que é que a levou a fazer este papel em “Listen”?
A Ana mandou-me uma mensagem via Instagram porque não tinha o meu número, e por poucas palavras disse que gostava muito de falar comigo e se eu podia dar-lhe o meu número, e deixou o dela.

Ou seja, já se conheciam?
Já nos conhecíamos há 20 anos. Mas neste espaço deixámos de nos ver, eu fui sabendo de coisas da vida da Ana, temos amigos em comum, a Ana também foi acompanhando o meu percurso, mais profissional até. 20 anos depois, ela entra em contacto comigo, acabei por ser eu a ligar-lhe, e falou-me da primeira longa que estava a preparar, que tinha terminado o curso. Não me contou muito da história, disse que tinha sido um processo duro, longo e que tinha esta personagem. “A tua personagem é a Bela. Lê e diz-me alguma coisa.” E até esta altura eu estava sem saber o que me vinha parar às mãos, porque gostei imenso de saber da Ana e estava muito feliz pelo percurso que ela estava a fazer, ela tinha ido para Belas Artes e depois tinha ido para a London Film School, estava muito contente por ela, mas não tinha conhecimento da escrita dela. Entretanto começo a ler o guião e muito rapidamente percebi a qualidade da escrita, a força da história, desta personagem e a mensagem e o assunto que ela estava a abordar. E a coragem que ela estava a imprimir na escrita daquela história. E ganhei ainda mais admiração por ela e muita vontade de fazer parte disto. Eu estava na página 12 — porque já fui atrás nas mensagens ver qual era a página [risos] — da primeira versão, e houve qualquer coisa nessa página, porque eu já queria ligar à Ana e dizer-lhe: eu quero fazer isto. Mas pensei para mim: vou ler até ao fim e já lhe digo. Mas não conseguia. Olhava para o telemóvel, olhava para o guião, entretanto mandei-lhe uma mensagem a dizer: só estou na página 12, mas eu quero fazer isto. Não fosse ela mudar de ideias [risos]. E depois li até ao fim, e só veio confirmar a minha vontade. E a partir daí nunca mais larguei o guião, nem a Ana, nem esta história.

O que é que a atraiu especificamente para este papel da Bela?
A descrição da personagem está muito bem definida na escrita do guião. Portanto, a nível de construção foi tentar corresponder àquilo, através dos comportamentos e da forma como verbalizava o que sentia. Isso fascinou-me muito. Porque era uma personagem com muitas nuances, com camadas emocionais muito fortes. Senti que era um grande, grande desafio. E também foi sentir a responsabilidade de representar esta mãe que acaba por estar a representar muitas mães que passam ou passaram por isto. Como dizer que não? Não há hipótese. É um trabalho a que me tinha de agarrar, independentemente das condições. E acho que estava certa. Porque tem havido uma resposta tão boa do público. E a forma como as pessoas se expressam… não é só “gostei muito do filme”. É com mais alguma coisa, com um sentimento que trouxeram do filme. Isso quer dizer que chegou às pessoas.

Ainda nas gravações, qual é que foi em concreto o maior desafio? Sei que teve de aprender língua gestual para o papel.
Foram muitas coisas [risos]. Eu tive muita sorte, mas não devia ser sorte, devia ser uma coisa normal para um ator, que é ter tempo de preparação. Neste filme eu tive tempo para me preparar, uns sete ou oito meses. O que permitiu com que eu fosse à procura de coisas, que tivesse tempo para me enganar nessas escolhas, procurar outras e desbravar muito terreno. Investiguei o tema, a nível de factos reais; a língua gestual foi um grande desafio; outro grande foi que eu falo inglês fluente, mas aprendi inglês nos Estados Unidos, estudei lá, portanto o meu inglês é mais americano, e trabalhei o guião para limpar o sotaque americano e falar com sotaque britânico, o que também foi um desafio. E foi pôr em carne e osso esta personagem, com comportamentos coerentes. Este trabalho eu fiz com a minha psicóloga, trabalhámos o guião e analisámos todos os comportamentos, ela passou-me muita informação sobre trauma e estado de choque, tudo o que esta personagem passa durante o filme. Foi tudo muito difícil, mas com prazer ao mesmo tempo.

Tornou-se uma personagem completa, com muitas camadas.
Acho que sim, que é muito completa, e acho que há uma magia muito grande entre a minha personagem e a do Ruben Garcia. E percebi isso no set, claro, com ele. Perceber que estamos os dois juntos, um para o outro, e às vezes é ele que se exalta e eu o tento acalmar, outras vezes sou eu que me exalto… Há sempre um jogo. Eu posso ser uma pessoa calma, mas se me exaltar, acho que qualquer um de nós pode ter estes picos. A Ana se estiver a ler isto vai-se rir à gargalhada [risos]. Uma vez num ensaio ela queria explicar este jogo e compromisso entre mim e o Ruben. Contou a história do elevador: “eu tenho medo de andar de elevador, se o elevador parar eu entro em pânico, começo aos berros. Mas se eu tiver uma pessoa ao meu lado que está em maior pânico e grita mais do que eu, eu vou tentar acalmá-la”. E é um bocadinho isso. Não poderia acontecer só eu. É com o jogo que tive com o Ruben, a interação, o diálogo, isso foi tão importante.

Como estava a dizer, o filme tem tido um bom impacto junto do público, mesmo neste ano tão difícil e diferente. Estava à espera que alcançasse estes resultados, neste espaço de tempo e nestas circunstâncias?
Expetativas são sempre as mais altas… uma das coisas que eu dizia à Ana, no decorrer das gravações, era: eu só espero que o mundo saiba que este filme existe. É o meu maior desejo. Eu não sabia o que ia acontecer e agora está a acontecer. E isso é tão gratificante. Eu desejava que isto acontecesse, não esperava, não dava como garantido, como previsível, mas acreditava muito que este pudesse ser o caminho, e ainda bem que está a ser, porque é justo. 

Recentemente o filme também foi selecionado pela Academia Portuguesa de Cinema para representar Portugal na candidatura aos Óscares. Essa potencial nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro é um sonho? Ou não estão a pensar muito nisso?
Por acaso nunca foi uma coisa que eu sonhasse um dia… Mas claro que é um ponto alto na carreira de qualquer realizador, ator, de qualquer pessoa envolvida no cinema. E de facto marca ali uma diferença muito grande, o antes e depois dos Óscares, na carreira. Agora, era uma utopia, não é? Uma coisa que está lá longe. Agora já está a ficar mais perto e a possibilidade já é mais possível [risos]. Eu acredito que sim, agora acredito em tudo.

Participou noutros filmes que iam estrear nestes meses de outono mas que acabaram por ser adiados, como o “Sombra”, o “Fátima”, que até já tinha sido gravado há mais tempo, e o “Amadeo”. Também está ansiosa para que estes filmes cheguem aos cinemas?
Sim, claro, o objetivo é esse, que o filme deixe de ser nosso e seja de toda a gente. Se não fazemos uns filmezinhos para nós vermos em casa em família [risos]. 

Os papéis que tem nestas histórias são todos bastante diferentes, não são?
São todos muito diferentes, sim. O “Fátima” é um filme que, quando li o guião, achei muito curiosa a abordagem. Tem a componente religiosa, católica, mas não se afunila numa só visão. O que achei interessante nesta personagem que represento, que é a mãe da Lúcia, que nunca acreditou que a virgem Maria apareceu à filha… Mas ao não acreditar, acabou por não acreditar na filha, chamando-a mentirosa, expondo a filha aos olhos de toda a gente, e a insultos e críticas e a julgamentos. E o que me fascinou foi a viragem desta personagem enquanto mãe. Se a minha filha diz que viu, é porque viu. Eu não vejo, não acredito que ela tenha aparecido, mas tenho que acreditar na minha filha, tenho que estar do lado dela, tenho que a proteger. Este é o papel da mãe. Acho muito curioso, porque me lembro da minha filha, quando era pequenina, a dizer que tinha um amigo imaginário. Eu nunca vi o amigo, mas ela disse que tinha e eu acreditei [risos]. Não tem mal nenhum.

A escala é que é diferente.
A escala é diferente, a época é diferente, e obviamente que, naquela altura, com a Primeira Guerra Mundial, imensa gente na guerra, mães a perderem filhos, todo o contexto político e religioso… três miúdos dizem que viram a virgem Maria e toda a gente acredita e é onde se agarram. E tomou esta proporção mundial. Pronto, essa é uma visão. Mas também há outra coisa que este filme aborda de que gostei muito e defendo bastante. Acho que é a primeira vez que tenho conhecimento de um filme sobre esta história do ponto de vista terreno, que fala do que aconteceu às pessoas reais. Não é de uma perspetiva espiritual, é de uma perspetiva real. Aborda o que aconteceu às famílias, à terra, o que é também curioso. E o realizador quis sempre dar dois, ou três ou quatro, diferentes pontos de vista. Porque é isso que temos de fazer: respeitarmo-nos uns aos outros, tendo diferentes pontos de vista. 

Tem alguma relação pessoal com a história de Fátima? É católica?
Não, de todo. Não sou católica, fui batizada mas não pratico. Tenho um ponto de vista muito afastado da religião católica, mas foi um desafio muito interessante. Exatamente por não estar ligada [risos].

E sobre o “Sombra”, que papel é que faz?
A minha personagem é a psicóloga da mulher que é a protagonista, a mãe que perde o filho, que desaparece. São duas cenas, que marcam épocas diferentes, é logo quando acontece e dez anos depois. Gostei muito também de perceber este lado de uma pessoa que é entendida no assunto, que está ali para ouvir. Nem é o compreender, é o ouvir e não julgar, e para orientar este caminho da mãe que é viver com esta perda. Independentemente do que possa acontecer no futuro.

No caso do “Listen”, há também uma perda materna, apesar de ser diferente, mas ambos são casos representativos, de fenómenos que acontecem com várias pessoas.
Sim, claro que sim. Neste caso específico [do “Listen”] fala do que acontece no Reino Unido, porque é onde isso é mais recorrente. Mas, sim, a retirada de um filho… e, aliás, nem é só isso, é a retirada dos pais aos filhos. Porque, curiosamente, muita gente fala do ponto de vista dos pais. E já assisti a conversas em que pessoas disseram assim: “tu não és mãe, ou não és pai, não percebes este filme”. Como não? É filho. Se lhes tirassem os pais, era horrível na mesma. É tão contra natura tirarem os filhos aos pais como é tirar os pais aos filhos naquela idade. Eu não sei o que seria se me tirassem os pais naquela altura.

E no caso do “Sombra”, o que acontece é que, como os filhos são os desaparecidos ou os raptados, muitas vezes não temos acesso ao ponto de vista deles.
Exatamente. Só mesmo se os encontrarem e os ouvirem.

Em relação ao “Amadeo”, faz um papel menos dramático?
O “Amadeo” é um filme dramático, mas a minha personagem é menos dramática, sim. Tenho uma amizade muito forte com o Vicente [Alves do Ó] e esta personagem acaba por representar um lado mais maternal, embora a mãe do Amadeo seja representada pela Manuela Couto. Mas o papel dela ali é outro. Eu faço de irmã mais velha do Amadeo e acabo por ser eu a agir como mãe, a ter um amparo mais maternal para com o Amadeo. E alguns alívios cómicos [risos]. Eu gostei muito, adorei fazer parte do projeto.

Havia relatos reais sobre a irmã do Amadeo de Souza-Cardoso, elementos a que se pudesse agarrar?
Há muito pouca coisa. Onde me agarrei foi às cartas que o Amadeo escrevia, ele escrevia muito à Lúcia, a mulher dele, e em muitas cartas ele falava da Laura, esta irmã que eu representei. “A Laura hoje pôs-me dinheiro no bolso e disse para eu não dizer nada ao pai e à mãe”, “A Laura aconselhou-me não sei o quê”. Eu fui buscar esse lado, e na forma como ele descrevia a Laura, há ali uma malandragem, que pode ser uma coisa mais leve. Porque o filme é dramático.

Indo um pouco atrás no seu percurso, veio morar para Lisboa com seis anos e foi com a mesma idade que começou a estudar música. Foi uma vontade sua ou foi algo que os seus pais quiseram, até porque também eram músicos?
Eu não pedi, mas se o meu pai ou a minha mãe me disseram: olha, vais para uma escola onde vais aprender piano. “Uau!” Quer dizer, eu tinha um piano em casa, não o sabia tocar, claro que queria [risos]. Mas obviamente nesta idade é mais uma opção dos pais. Mas mesmo assim tive imensa liberdade em escolher os instrumentos, estive no piano, depois fui para o violino, depois para a percussão, andei a experimentar várias coisas. E os meus pais permitiram isso. E depois houve uma altura em que achei que não queria nada da música. Fui para design gráfico, fiz dois anos de faculdade.

Em Lisboa?
Sim, na Lusófona. E depois desisti, e olha [risos], vim parar aqui.

Tirando o design e a música, quando era miúda havia outra coisa que imaginava que gostasse de fazer quando crescesse?
Eu queria ser bailarina clássica. Eu tinha, e tenho, um fascínio — adoro ver ballet clássico. E lembro-me que havia uma cassete de vídeo beta que tinha um ballet que eu adorava e via e via e via, vezes sem conta. E depois o meu sonho era ser a bailarina que estava ali. Andei no ballet mas depois comecei com a música e fiquei por aí. Tinha três ou quatro anos, era mesmo pequenina [risos].

E nessa primeira escola de música que frequentou, foram muitos anos?
Estive lá nove anos, até aos 14. E estou muito agradecida aos meus pais. Até acho que devia fazer parte de todas as escolas, o ensino da música, porque está mais que provado, e há imensa coisa que se pode ler, sobre o potencial da música no desenvolvimento do raciocínio e das sensações. Tudo isso estimula muito as pessoas. Não só crianças. Em vez da matemática, a música também pode ser uma ferramenta para isso. E isso eu tive.

E foi quando saiu dessa escola que decidiu que já não queria fazer música?
Sim, mas eu tinha 13 ou 14 anos, rebelde a querer contrariar… Não era contrariar, mas era “vou ser diferente”. Eu adoro desenho, achei que ia para artes plásticas, comecei a ir por aí, escolhi design e estava convicta de que era mesmo o meu futuro e depois…

O que é que aconteceu?
O Festival da Canção. O compositor Pedro Osório, grande amigo do meu pai e da minha mãe, que me conhece — conhecia — desde que nasci, ele liga para casa do meu pai, onde eu ainda vivia, e diz-me: “olha, já esperei 19 anos para cantares uma canção minha, quero que venhas cantar esta ao Festival da Canção”. Eu achei aquilo o máximo, ainda para mais sendo o Pedro, que para mim era um segundo pai. Então, sim, bora [risos]. E acho que foi a sensação que tive no palco de que gostei mesmo.

Foi a primeira vez?
A dar a cara como solista foi. Eu já tinha feito umas coisas de coros, mas assim de estar à frente e ser responsável por aquilo, foi a primeira vez. E foi muito bom, soube-me mesmo bem. Então quis repetir [risos].

E suponho que não imaginasse que iria depois à Eurovisão, onde correu muito bem, durante muito tempo foi a portuguesa com a melhor classificação de sempre.
Sim, até ao Salvador [Sobral]. Tenho ótimas memórias, eu era mesmo miúda e era muito ingénua. E ainda continuo a ser uma pessoa completamente distraída, por isso houve imensa coisa que me passou ao lado. E foram as que não valiam a pena: as invejas, as competições, as mesquinhices, aquilo tudo passou-me ao lado. Estava só a curtir. Diverti-me imenso, só tenho boas memórias.

Lúcia Moniz é a protagonista de “Listen”.

E foi aí que percebeu: “o que quero mesmo fazer na vida é música”?
Foi aí que comecei a perceber que se calhar era mesmo o que queria fazer. Depois, a parte da representação surgiu através da música, porque escrevi música para uma peça de teatro, depois nessa peça comecei a ter um papel pequenino, depois soube-me bem e soube a pouco, quis mais e olha.

E fez também dobragens a cantar, na altura. Foi importante para si? Ainda há muitas pessoas que associam a sua voz a esses filmes de animação.
É curioso, há uma atriz que é a Mariana Pacheco, nós somos muito amigas, temos uma diferença enorme de idades. Ela era muito pequenina quando viu o “Anastácia” e nós estávamos a gravar uma novela ou qualquer coisa juntas e às tantas ela fala-me do filme e eu digo: olha, fui eu que cantei. E ela: não acredito. Isso tem muita graça. Na altura eu adorava fazer aquilo, porque também tinha as memórias da minha infância de ver os filmes da Disney e ouvir as canções. E depois, poder também fazer isso, achei engraçado.

E também cruzava um pouco a música e a representação.
Sim, mas onde junto mais é nas experiências de teatro musical. Aí é que tenho mesmo as duas coisas, que têm que estar equilibradas. 

O “Love Actually” também foi, obviamente, um grande marco. Como é que foi parar a esse filme? Ainda não tinha muita experiência como atriz.
Não, foi o primeiro filme da minha vida. Não tinha muita experiência, sim. Eu fui chamada pela [diretora de castings] Patrícia Vasconcelos, ela foi contactada por uma agência espanhola de atores que estava em contacto direto com o realizador e a produtora do filme. E pediram-lhe dez atrizes portuguesas com as tais características da personagem, naquela faixa etária. O que achei fantástico foi que o realizador só tinha pedido dez, mas a Patrícia mandou 20. Eu achei maravilhoso, porque a Patrícia disse: “bolas, se é para mostrar as atrizes portuguesas, não te vou mostrar só dez”. E eu fui uma das 20. Estarei para sempre grata à Patrícia por se ter lembrado de mim. Fiz um primeiro casting cá, a chamada self-tape, que na altura nem se fazia muito mas era a forma mais rápida, e depois fiz um segundo casting, em Inglaterra. Estava entre mim e uma grega e depois ficou a portuguesa [risos].

Mas eles estavam à procura de uma qualquer atriz estrangeira?
Eles estavam à procura de uma portuguesa. Estou a contar coisas que soube depois porque foi o realizador que me contou. Ele queria uma portuguesa porque esta história tem uma grande percentagem de veracidade. Esta história é real, isto aconteceu, a única coisa que é fictícia é o romance entre eles os dois. E foi com uma portuguesa, por isso ele queria uma portuguesa. Entretanto disseram-lhe: “não procures em Portugal, não vais encontrar ninguém. É melhor começares a procurar noutros países”. E ele foi a Itália, Grécia, Espanha… E às tantas ele diz: não, eu quero uma portuguesa. E por isso é que ele pediu só dez [atrizes]. Porque ele já estava no fim do casting, tinha que decidir rapidamente. E depois gostaram do meu casting e fiquei. 

E foi um filme que ficou, que conquistou um estatuto de culto.
Sim, agora vai voltar aí a vaga do Natal [risos].

É um bocado sazonal. Na altura, quando estavam a gravar o filme, tinham a perceção de que podia ser um filme que ficasse? Com todos aqueles atores britânicos de renome.
Não, de todo. Eu tinha noção do peso. Mas não sabia, e acho que ninguém sabia, que se ia tornar um clássico de Natal. Sabia que ia sair na época do Natal, que falava de um tema que toda a gente procura, que é o amor, entre irmãos, amantes… Há esse lado sensível e no Natal a coisa cresce sempre mais. Mas não fazia ideia que, 17 anos depois, em vez do “Sozinho em Casa” ou do “Música no Coração”, é o “Love Actually” [risos]. Mas é giro, eu gosto.

No Natal há muita gente que lhe envia mensagens por causa do filme?
Sim, e gosto muito, fico feliz por haver esse carinho. Claro que há sempre gente que não gosta do filme, tudo bem, não temos que agradar a todos. Mas eu gosto muito do filme, adorei fazer parte, adorei todo o processo e obviamente que sentir o carinho do público é maravilhoso. 

Também costuma revê-lo como filme de Natal? Tem esse hábito?
Não, não tenho mesmo. Eu vi duas ou três vezes na altura do lançamento, e depois não vi mais. Aconteceu-me uma vez, numa casa onde eu vivia em que se ouvia tudo, nos andares de cima, de baixo, dos lados, e era a altura do Natal. Eu estava a adormecer e às tantas começo a ouvir uma música… Ai que engraçado, esta música está na banda sonora do filme. Às tantas oiço a música a seguir: não, eles estão mesmo a ver o filme [risos]. Porque comecei a reconhecer toda a sequência das músicas. 

Foi um filme que teve um forte impacto internacional. Quando vai a Inglaterra, ou mesmo a outros países, reconhecem-na na rua?
Já aconteceu em Inglaterra e no Canadá. Em Inglaterra foi muito engraçado, no metro os assentos são frente a frente, naquelas filas, e eu estava lá e havia uma senhora à minha frente que começa assim, meio a perceber como é que havia de falar comigo, e às tantas diz-me: “Você é tão parecida com a atriz do ‘Love Actually’, mas é que é igual”. E eu [encolhi os ombros]. E ela: “não me diga”. Não comunicámos muito, eu acho que nem verbalizei nada. E ela: “it’s you, it’s you!” Foi muito engraçado [risos]. 

Manteve a relação com os outros atores e a equipa do filme?
Não com toda a gente, claro, mas mantenho o contacto com o Colin Firth, com o Bill Nighy. Com o Colin Firth é muito difícil encontrar-me agora, quando vou a Londres… Agora não sei quando volto lá, mas havia sempre aquela coisa de ligar a algumas pessoas a dizer: estou cá, vamos tomar um café ou uma cup of tea, que é mais próprio. O Colin Firth já não o vejo há quatro ou cinco anos porque está sempre a rodar filmes não sei onde. O Bill Nighy tenho conseguido vê-lo e é sempre muito bom reencontrá-lo, o Richard Curtis também, a Emma Thompson… São assim as pessoas com quem mantive mais contacto e sinto-me uma enorme privilegiada em tê-los como amigos.

Olhando para trás, é um filme que mudou a sua vida?
Sim, sem dúvida. E até mesmo no meu percurso como atriz. Foi o primeiro baque que tive e o tal sentido de responsabilidade, porque até lá o que eu fazia era ser mais a cantora que também fazia uns papéis. Aqui já não era a mesma coisa. Pensei que tinha de levar isto a sério. Foi, sem dúvida nenhuma, um marco na minha vida. 

Neste momento sente-se mais atriz ou cantora? Ou na verdade isso não importa?
É sempre difícil responder a isso. Neste momento, e nos últimos dois ou três anos, tenho estado muito mais ativa como atriz do que na música. Não é uma escolha, não é uma decisão de não querer mais música e só querer isto, não, tem sido o desenrolar das coisas, as oportunidades que têm surgido com papéis que são irrecusáveis, desafios que eu quero agarrar. Eu agora sinto-me mais atriz, mas tenho a música presente, sempre. Componho em casa. Não há preferência. Agora, neste momento assumo muito mais o meu papel como atriz. Acho que, sem querer, se me perguntarem a profissão digo primeiro que sou atriz.

Nos últimos anos tem tido uma das fases mais ativas enquanto atriz, como estava a dizer.
Sim, no cinema, que é a minha paixão. E o teatro também.

E é bom conseguir fazer cinema, teatro, novelas, séries, que são coisas muito diferentes? Esta diversidade e equilíbrio são importantes para si?
Eu gosto muito de fazer coisas diferentes e a televisão dá-nos uma escola muito importante e ferramentas, principalmente a nível de rapidez, de chegar a uma emoção certa. Isso é uma grande escola. A única coisa que eu talvez não prefira na televisão é o pouco tempo que se tem para nos prepararmos, das prioridades que não são muitas vezes as artísticas, e tudo isso desanima-me e desmotiva-me de alguma forma. Se calhar estou a ser um bocadinho bruta, porque gosto de fazer televisão, mas há televisão e televisão [risos]. Depois, o cinema é toda uma forma como se constrói uma cena, toda a plasticidade que se escolhe, as paletes de cores… Lá está, o meu gosto pelo sentido estético, o enquadramento, como é que se vai contar a história, o tipo de planos, tudo isso fascina-me e estimula-me muito, eu adoro tudo isso. Também o processo de construção da personagem. Depois, o teatro é o “sem rede”, mas também adoro fazer o processo de criação de nos apropriarmos do texto, até ao dia da estreia. 

Há alguma expressão artística que nunca tenha explorado muito mas que gostava de o fazer, um dia?
Olha, curioso… eu tenho a certeza de que sim. Por acaso gostava muito de aprender a fazer escultura. Nunca procurei nada sequer próximo a isso para aprender, mas gostava. Gosto muito de ver.

Lúcia Moniz participou em “Love Actually” em 2003.

E no design já fez algumas coisas. Era algo de que gostava de fazer mais?
Fiz a direção artística de um livro de culinária. Lancei também um livro de fotografias minhas, acabei por ser eu a fazer o design e a paginação do livro, acabei por me responsabilizar na totalidade. Até costumava brincar: Se gostaram do livro, fui eu que fiz; se não gostaram, a culpa é minha. E na altura em que lançava os meus álbuns acabava sempre por propor coisas a nível estético de fotografias, letterings, designs… 

E continua a compor bastante em casa?
Não bastante, mas alguma coisa, muito pouco. É uma fase. Na pandemia não consegui compor nada. Nada mesmo. Bloqueei.

E tem estado a preparar outros projetos enquanto atriz?
Agora não, estou a preparar um projeto educativo na ilha Terceira para jovens dos 12 aos 18 anos. Ainda não está bem estipulada esta baliza das idades. Quero fazer um trabalho através do teatro — não só do teatro, mas vai começar pelo teatro — em que estes jovens consigam explorar as emoções, estimular o espírito crítico, a liberdade de expressão, liberdade de pensamento. É ser um espaço que tenha liberdade para errar, para procurar, para explorar, para enganar, repetir. Acho que é fundamental esta geração ter essas possibilidades de experimentar, porque há a pressão de “o que é que queres ser quando fores grande”, “tens de escolher a área”, “escolhe aquela que tem mais saída”, e às vezes a que tem mais saída não é a que dá mais prazer. E todos nós temos um talento, todos nós temos alguma coisa em que somos muito bons. Às vezes não o encontramos porque não temos sequer tempo para o descobrir. E eu gostava de contribuir para isso ser possível.

E vê-se a investir mais nesse tipo de projetos locais, nos Açores, onde também passa grande parte do tempo?
Acabo de alguma forma por proporcionar uma descentralização, que é uma coisa que me preocupa também. Tudo é Lisboa, Lisboa, Lisboa. E assim faço alguma coisa na minha terra, pelas pessoas da minha terra.

Apesar de ter crescido em Lisboa, a ilha da Terceira é a sua terra.
É, eu não me sinto lisboeta, não me sinto alfacinha. Não tenho nada contra, antes pelo contrário, só não me sinto daqui. Sinto que sou de lá.

Uma última questão: li que fez um estágio como treinadora de golfinhos. Quer contar como isso aconteceu?
Era para um filme que infelizmente não chegou a ser rodado. Anos mais tarde, acabei por fazer um papel em que fazia de treinadora de golfinhos, por isso usei aquilo que aprendi nesse tal filme. Mas a minha iniciativa para fazer este estágio era porque ia ser a protagonista de um filme, tudo à volta de uma treinadora de golfinhos. Havia muitas metáforas, a história não é centrada nos golfinhos mas acabava à volta disso. E o realizador disse-me: “olha, quero fazer estes planos debaixo de água”. E eu: mas eu posso aprender a fazer? E ele: “se tu quiseres, isso era fantástico”. Então quero! Então fomos ao Zoomarine, falámos com o Hélio Vicente que agora é um grande amigo meu, e desde então eles recebem-me lá como se eu fosse da família. Fomos lá, dissemos qual era a intenção, eles perguntaram o que é que eu queria aprender, e eu disse: eu quero aprender tudo, só não aprendo aquilo que vocês me disserem que eu não consigo. Então pronto, estive lá um mês a trabalhar como uma funcionária normal. Entrava às nove, picava o ponto, estive com uma equipa de treinadores fantásticos que a nível humano são mesmo pessoas incríveis, com uma dedicação fantástica, que fazem aquilo mesmo com coração e com amor pelos animais. Arranjava o peixe, lavava as piscinas, fazia tudo o que todos faziam. E meia hora por dia ia para a água com os golfinhos. Aprendi muita coisa, foi espetacular.

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