Cinema

Mais de 30 anos depois, Eddie Murphy volta a ser um príncipe em Nova Iorque

“2 Príncipes em Nova Iorque” é a sequela de um filme que se tornou uma curiosa obra de culto.
O regresso a Queens.

Estávamos em 1988, o humor de Eddie Murphy vivia já anos dourados, quando chegou aos cinemas “Um Príncipe em Nova Iorque”. A comédia romântica podia ter passado ao lado mas aquela estreia em finais de junho daquele ano provou ser um marco. Aquilo que agora vai estrear, “2 Príncipes em Nova Iorque”, é mais do que uma simples sequela.

O filme original acabaria por faturar mais de 300 milhões de euros à volta do mundo. Nos EUA, foi mesmo o segundo filme mais visto naquele ano, num pódio bem competitivo, onde ficou à frente de um clássico, “Bom Dia, Vietname”, e por pouco não apanhava outro filme que ficou para a história, “Quem Tramou Roger Rabbit?”.

“Um Príncipe em Nova Iorque” (“Coming to America”, no título original) contava a história do príncipe herdeiro de Zamunda, um reino africano inventado. Na sua procura pelo amor, aventurou-se na Big Apple como um desconhecido, na companhia do amigo e fiel funcionário Semmi (Arsenio Hall).

Ao chegar à maioridade, a personagem de Eddie Murphy procurava uma mulher que o amasse por quem é. Semmi vai propondo luxos mas Akeem (Eddie Murphy) diz que não. Lisa (Shari Headley) é a mulher que lhe vai chamar a atenção. Ao estilo de qualquer comédia romântica bem construída, há avanços e recuos, mentiras e perdões. E o humor intensifica-se quando a família (e realeza) de Zamunda chega a Nova Iorque.

O filme foi um inesperado êxito de bilheteira. Marcou também a primeira vez que Eddie Murphy assumia diferentes papéis no mesmo filme (algo que se tornaria uma marca da sua carreira nos anos seguintes). Num tempo em que os negros raramente tinham papéis de relevo no cinema, aqui estava um elenco praticamente só de afro-americanos, que mostravam que havia em Hollywood mais fórmulas para ser um sucesso de bilheteira. Samuel L. Jackson e James Earl Jones fizeram parte do elenco. E até Cuba Gooding Jr. teve ali o seu primeiro filme.

Numa entrevista recente ao “LA Times”, Eddie Murphy recordava que teve outros filmes que faturaram ainda mais nas bilheteiras. Mas nenhum outro filme seu conseguiu o que “Um Príncipe Em Nova Iorque” alcançou. Nos 30 anos seguintes à estreia, foi ganhando um estatuto de culto, com citações do filme a proliferarem e até curiosos tributos, como um restaurante que imitava o fictício McDowell’s, onde as duas personagens principais encontraram trabalho. Ou um ano em que Jay-Z e Beyoncé se mascararam inspirados no filme.

“Fiz mais de 40 filmes ao longo dos últimos 40 anos mas acho que nenhum se tornou um filme de culto como este”, destacava o ator. Nos últimos anos, em que o debate sobre a representatividade no cinema tem começado a destacar-se, o filme tem recebido renovada atenção, celebrando o que teve de pioneiro.

Já lá vão 33 anos.

A sequela foi uma hipótese levantada ao longo dos anos. Mas havia sempre algo que não funcionava. Por surpreendente que possa parecer, um certo Exterminador Implacável serviu de inspiração para voltar a Zamunda, décadas depois.

Em 2015, Eddie Murphy foi uma versão rejuvenescida de Arnold Schwarzenegger em “Terminator Genisys”. Percebeu que aquela tecnologia poderia ser o que faltava. “Foi quando ligámos os pontos. Com aquele tecnologia podíamos tornar o Arsenio e eu mais jovens numa cena e a partir dessa cena a história começou-se a escrever por ela própria”.

Na sexta-feira, 5 de março, estreia na Amazon Prime Video “2 Príncipes em Nova Iorque”. A história agora deixa o monarca Akeem na necessidade de encontrar um herdeiro. Ele é o pai de três filhas mas descobre que tem um filho perdido na América. É tempo de voltar a Nova Iorque, mais concretamente ao bairro de Queens.

A premissa é porta aberta para o regresso de uma série de personagens do filme original e até novidades. Wesley Snipes, por exemplo, é um dos novos nomes no elenco. Eddie Murphy e Arsenio Hall vão novamente assumir diferentes personagens.

O filme original tinha sido realizado por John Landis, ele que até se começou a destacar no cinema de terror, com “Um Lobisomem Americano em Londres”, mas que ao longo dos anos mostrou a sua versatilidade no cinema, televisão e música. É dele o single tornado curta-metragem “Thriller”, de Michael Jackson.

Para a sequela, que foi escrita pela mesma equipa de argumentistas do primeiro filme, havia uma escolha óbvia para Eddie Murphy: Craig Brewer, o realizador de “Chamem-me Dolemite”, filme que marcou o regresso de Eddie Murphy ao ecrã e num papel que lhe valeu uma nomeação aos Globos de Ouro.

“Houve uma noite”, recorda o realizador ao mesmo “LA Times”, “tivemos um visionamento do Dolemite na Netflix. Estava lá eu, o Eddie, o Arsenio e mais amigos e familiares nossos. O Eddie estava a voltar para o carro e perguntou-me: «então, um ‘Coming to America 2’, estás interessado?». O Arsenio estava a passar ali ao lado e disse logo: ‘wow, espera aí, isso é a sério’? Vamos mesmo fazer isso’.

Sim, era a sério, e sim, fizeram-no mesmo. O desafio agora é o mesmo de todas as sequelas, especialmente as que estiveram tantos anos à espera para acontecer: como dar seguimento à história original sem estragar o legado do primeiro filme?

Para Eddie Murphy, há coisas que nunca mudaram, mesmo quando foram pioneiras. O ator salienta que sempre soube que os seus filmes poderiam ter impacto em termos de representatividade. “Desde o início. E sempre fiz filmes que, se resultavam aqui [nos EUA], resultavam no resto do mundo. Os meus filmes sempre foram escapismo, não são coisa pesada.”

Esta característica, longe de ser um problema, é mesmo o trunfo do ator. Um que o pioneiro Sidney Poitier, durante demasiado tempo o único ator negro de relevo em Hollywood, lhe lembrou que era importante.

Eddie Murphy recorda que, quando soube que a história de Malcolm X seria contada no grande ecrã, surgiu a possibilidade de fazer uma das personagens. Na altura, esteve num jantar com Sidney Poitier em que este lhe explicou: “Tu não és o Morgan [Freeman], tu não és o Denzel [Washington]. És uma lufada de ar fresco. Don’t fuck with that”. Eddie Murphy ouviu o conselho. E o resto é história que agora vamos revisitar.

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