Cinema

“Mank”: David Fincher está de volta com um filme da Netflix escrito pelo falecido pai

O que faz um génio? O debate faz-se a preto e branco no novo filme de David Fincher.
Novo filme de David Fincher chegou à Netflix.

É com um genérico de outros tempos, a preto e branco, que David Fincher nos introduz em “Mank”. Estamos em 1940 quando somos apresentados a um acamado (e com ar de acabado) Herman J. Mankiewicz. Pouco depois, passam-lhe o telefone. E do lado de lá da linha ouvimos Orson Welles.

Welles, explica-nos Fincher logo a abrir, é a figura a quem deram total margem criativa para trabalhar em Hollywood. A sua estreia em longas-metragens na Meca do cinema será um estrondo que há-de ecoar 80 anos depois. “Citizen Kane” (“O Mundo A Seus Pés”, no título em português) seria lançado em 1941 e ainda hoje é um forte candidato que entra na eterna discussão sobre qual será o melhor filme de sempre.

Coube a Gary Oldman a missão de assumir o papel do outro génio de “Citizen Kane”, o tantas vezes ignorado neste história Herman J. Mankiewicz. É ele o tal Mank do título, uma escolha interessante se pensarmos que houve desavenças entre Welles e Mank sobre quem escreveu o quê da obra-prima.

Esta sexta-feira, 4 de dezembro, temos finalmente oportunidade de voltar a ver uma longa-metragem de Fincher. A espera foi longa: já lá vão seis anos desde “Em Parte Incerta”. O regresso de Fincher faz-se na Netflix e com esta curiosidade de nos levar até à era de ouro de Hollywood através da plataforma de streaming (que à sua maneira veio abalar a Hollywood de hoje).

“Mank” é um amor antigo de Fincher, que já há muito namorava também a ideia de filmar a preto e branco. E é certamente dos projetos com algo mais de pessoal dele — o argumento é da autoria de Jack Fincher, o pai do realizador, falecido em 2003. É também o único guião que o autor e ensaísta alguma vez assinou e um que recupera um debate quase tão antigo quanto a arte: afinal, de onde vem o génio?

Gary Oldman faz de guionista de “Citizen Kane”.

Orson Welles foi creditado por praticamente tudo o que se destaca em “Citizen Kane”. Esta tese, no entanto, há muito que é debatida entre críticos e historiadores de Hollywood. O génio talvez não seja um homem só, capaz de ter o mundo a seus pés com o seu talento. Talvez seja uma combinação de fatores e talentos.

“Mank” é, por isso, uma forma de Fincher se aventurar pelo mito do génio e da própria era dourada de Hollywood. Para tal, fá-lo conseguindo ao mesmo tempo prestar tributo ao tal clássico do cinema. “Citizen Kane” começava com a morte do protagonista e seguíamos depois, em modo de investigação, a tentar perceber o que significava aquela que foi a sua última palavra, “Rosebud”.

Aqui começamos no momento em que vai começar a escrita do argumento e voltamos um pouco atrás no tempo. Há aqui um lado de detetive que também virá ao de cima. Não é acaso: o thriller é uma das marcas do realizador (“Zodiac”, “Seven: 7 Pecados Mortais”), que consegue introduzir tensão mesmo quando, à primeira vista, não o esperávamos (como, por exemplo, com “A Rede Social”).

É também fácil de ver o que Fincher viu em Mankiewicz: é errático, alcoólico, tão pouco confiável quanto surpreendente. Marcas que, verdade seja dita, encontramos noutros génios celebrados pelas artes. Os fãs de Welles, porém, poderão não gostar tanto da forma como o realizador (interpretado por Tom Burke) é aqui retratado.

Em “Mank”, Fincher parece não querer apenas trocar as voltas à tal era dourada de Hollywood. Está também interessado nas dinâmicas e no contexto daquela época. É um olhar de 2020 sobre o passado que talvez tenha mais de acidez do que de nostalgia. E, curiosamente mas certamente não por acaso, parece ser também uma das apostas mais fortes da Netflix para os Óscares do próximo ano.

Além de Gary Oldman e Tom Burke, as pouco mais de duas horas de filme contam ainda no elenco com nomes como Amanda Seyfried, Tuppence Middleton ou Lily Collins. Antes de carregar no play, veja o trailer.

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