Cinema

“Marriage Story” é um dos melhores filmes do ano — e merece ser visto por todos

A produção da Netflix está nomeada para seis Globos de Ouro e tem Adam Driver e Scarlett Johansson nos papéis principais.
Adam Driver e Scarlett Johansson estão ótimos.
85

Além de “O Irlandês” e “Os Dois Papas”, o maior trunfo da Netflix para dominar a época de prémios deste ano chama-se “Marriage Story”. A fórmula já começou a dar frutos — a produção escrita e realizada por Noah Baumbach é o filme mais nomeado nesta edição dos Globos de Ouro, com seis nomeações.

Não é uma grande epopeia nem tem a história mais ambiciosa do mundo. É um filme sobre relações humanas, sobre emoções, sobre pessoas — que continua a ser o tema mais profundo de todos, aquele com que nos identificamos mais, que é adorado pelos críticos e por quem atribui prémios.

“Marriage Story” começa com o fim de um casamento. Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) Barber já decidiram divorciar-se no início da história. Nicole é uma atriz que foi parte essencial das peças que tornaram Charlie um encenador de teatro conceituado em Nova Iorque.

No entanto, considera que nunca fez aquilo que queria, que nunca teve direito à própria vida, e decide voltar para Los Angeles — a sua cidade, onde vive a família — para seguir uma carreira na televisão. Estão desalinhados e Charlie quer ficar em Nova Iorque, onde tem toda a sua vida.

Ambos têm um filho de oito anos chamado Henry (Azhy Robertson). Inicialmente, Charlie e Nicole decidem que não querem consultar advogados — não estão preocupados com a partilha dos bens, ainda sentem carinho um pelo outro e só querem fazer as coisas de forma a magoar o menos possível o filho.

Depois, já em LA, Nicole decide contratar uma advogada para defender os seus interesses, a implacável Nora (Laura Dern). Charlie, que não quer perder a custódia total do filho, também arranja um advogado, Bert (Alan Alda) — mais tarde, irá trabalhar também com o feroz Jay Marotta (Ray Liotta), quando as coisas já estiverem mais atribuladas.

Nicole acaba por se fixar em Los Angeles com o filho e Charlie passa a morar praticamente entre as duas distantes costas dos EUA. À medida que o divórcio progride, vemos os ressentimentos e os problemas que minaram o casamento a tornarem-se mais evidentes, a virem ao de cima — muito por culpa dos advogados. Os Barbers queriam uma separação amigável mas o processo transforma-se numa autêntica guerra aberta.

Ainda assim, este não é um filme trágico. “Marriage Story” intercala momentos tensos e dramáticos com partes bem cómicas — muitas vezes nas mesmas cenas — e também há pequenos apontamentos de cumplicidade ou amor no meio da tragédia do divórcio. Seja a forma como Nicole se oferece para cortar o cabelo a Charlie ou como lhe aperta o atacador. A cena em que a avaliadora visita a casa de Charlie em Los Angeles é das mais hilariantes de toda a história.

No início do filme, ambos descrevem aquilo que gostam um no outro — até que percebemos que se trata de um exercício desafiante para apresentar a uma espécie de conselheiro matrimonial, um mediador. É criativo, divertido e também cáustico. 

Apesar de ter sido escrito por Noah Baumbach, que certamente se inspirou muito no seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, em 2013, para criar o guião, esta história não apresenta uma perspetiva parcial. Não escolhe lados, não diz o que é certo ou errado — simplesmente mostra como um divórcio pode ser o momento em que o amor e o ódio colidem tão facilmente, e que terminar um casamento não é um processo fácil — tanto pelo lado burocrático como pelo emocional.

O filme preocupa-se em mostrar como e porque é que estas duas pessoas acabaram por se distanciar — apresenta o ponto de vista dos dois, que obviamente é muito diferente — e como é que não conseguem contornar certas questões, que se tornaram tão complicadas.

Não há vilões nem heróis, são seres humanos com falhas e qualidades. E por isso é que “Marriage Story” é um filme tão bom e, como se diz, relatable — ou, se preferir, relacionável. Há cenas melhores e outras piores, claro, mas no fundo trata-se de uma grande sequência de momentos prazerosos — muitos deles até parecem ter sido escritos para serem representados em palco, em teatro. O texto é ótimo e até fecha com um momento musical.

Apesar de tudo ser tão realista, parecem existir algumas incongruências no enredo. O dinheiro é um grande problema neste divórcio, mas Charlie acaba por conseguir pagar, de alguma forma, os 950 dólares à hora que Jay leva para trabalhar no seu caso. O mesmo com a nova casa que arranja em Los Angeles. Era difícil que aquela bolsa artística que sustenta toda aquela equipa chegasse para tudo.

Uma das melhores partes de “Marriage Story” é, sem dúvida, a representação dos dois protagonistas. Scarlett Johansson faz provavelmente um dos seus melhores papéis de sempre — com uma personagem bem madura — e Adam Driver usa todas as complexidades emocionais de Charlie para explorar ao máximo o papel. São interpretações dignas de Óscares, sobretudo para Driver.

Laura Dern também está ótima como Nora, tal como a engraçada família de Nicole, a mãe Sandra (Julie Hagerty) e a irmã Cassie (Merritt Wever). No entanto, os advogados são apresentados de forma bastante estereotipada — muito longe mesmo da profundidade dos protagonistas. O pequeno Azhy Robertson mostra bem como uma criança nestas circunstâncias se pode sentir — até meio aluado da situação, porque é protegido pelos pais — mas com desejos e manias próprias. Embora tenhamos ficado com a sensação de que podia ter dado uma maior vitalidade à história (não que fosse necessário).

Com toda a sua simplicidade e naturalidade, “Marriage Story” é o filme com que todos nós nos podemos identificar — tenhamos ou não passado por situações de divórcio, relações a terminar ou problemas com pessoas que nos são (ou foram) queridas. É um filme que consegue representar o que é ser humano, o que somos nós, e é por isso que vai ter o sucesso merecido que se espera.

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