Cinema

Moby: “Estou farto de figuras públicas e pessoas em geral a tentar parecer bem”

A NiT entrevistou o músico sobre um documentário brutalmente honesto — realizado pelo próprio — que relata a sua vida e carreira.
Moby é o nome artístico de Richard Hall.

Chama-se “Moby Doc” e é um documentário que relata a história de vida (e carreira) de Moby. Um ano após ter estreado nos EUA, chega agora a Portugal. Vai poder assistir ao filme narrado pelo próprio músico no feriado do 10 de junho, a partir das 22 horas, no canal TVCine Edition.

O documentário retrata o seu percurso turbulento — desde as bandas de punk à música eletrónica, passando pela toxicodependência, os abusos de que sofreu e a sua faceta enquanto ativista vegan. Há depoimentos — inclusive de personalidades como David Bowie e David Lynch —, imagens de arquivo e recriações.

“Esta viagem introspetiva pretende responder a questões existenciais de propósito e significado, examinando uma vida de altos e baixos extremos, alegria, tragédia, sucesso e fracasso”, pode ler-se na sinopse oficial divulgada. A NiT falou com Moby sobre o projeto. Leia a entrevista.

Porque é que quis fazer este documentário? Era uma vontade que tinha há muito tempo?
Bem, a ideia original, que começou há cerca de oito anos, foi quando estava a trabalhar num álbum acústico e orquestral. Um amigo meu que era cineasta disse que poderia ser interessante fazer um filme, mas acabei por adiar o trabalho, ele continuou a trabalhar nele… Começou por ser algo completamente diferente e o atual editor e eu apercebemo-nos de que tínhamos todas estas imagens e pensámos: isto pode ser um projeto criativo interessante, tentar fazer um documentário que não fosse como os outros. Mas isso não significa que seja melhor, só significa que é muito mais surreal e experimental do que a maioria dos documentários.

Foi uma abordagem que o atraiu imediatamente?
Sim, eu costumava ser jurado de documentários, no Tribeca Film Festival e para a Associação Internacional de Documentários. Por isso vi tantos documentários sobre música e, para ser honesto, muitos deles são muito semelhantes. E pensámos: vamos tentar fazer um documentário que seja honesto, interessante, surreal, que não se conforme com qualquer estrutura que já tenhamos visto. 

Qual foi o maior desafio?
Quando decides fazer algo que não seja convencional, por vezes o maior desafio é confiares em ti próprio durante esse processo. Diria que, muitas das vezes quando as pessoas fazem coisas convencionais, parcialmente é porque há um público grande que quer um conteúdo convencional. Querem filmes, programas de televisão e livros convencionais. Não critico a convenção, mas sinto que muitas vezes as pessoas fazem uma estrutura convencional quase por precaução ou medo que, se fizerem alguma coisa pouco convencional, vão alienar os espectadores ou expor a pessoa a mais críticas. 

O objetivo foi logo ter este retrato surreal da sua carreira e vida?
No início, fizemos algo muito mais convencional. Porque, como sabes, muitos documentários de música estão cheios de inúmeras entrevistas, tendem a ser bastante tradicionais, e estávamos a ver uma versão inicial e ficámos aborrecidos. Estava a tornar-se mais um documentário genérico sobre música. E pensámos: temos a oportunidade de fazer algo diferente. Quando estive na universidade licenciei-me em filosofia, mas também estudei cinema experimental e fotografia. E tenho uma apreciação grande por cinema experimental, desde o Dalí, Buñuel, ou, claro, o David Lynch e a Maya Deren. A história do cinema experimental é muito interessante e achámos que poderíamos tentar fazer algo que fosse assim também.

Apesar de mencionar assuntos delicados e sensíveis da sua vida pessoal no documentário, há algo que tenha preferido não abordar?
Não, demos a nós próprios liberdade total para abordar tudo. Há algumas coisas lá que a maioria das pessoas inteligentes e boas da cabeça não incluiriam num documentário. Há algumas coisas desconfortáveis e honestas. Porque se vais pôr algo no mundo, porque não tentares ser honesto? Sinto que, pessoalmente, estou um pouco exausto de um mundo em que figuras públicas — e não só, pessoas comuns também — se representam da forma como não são. É cansativo.

E há vários documentários recentes sobre figuras públicas, produzidos por elas próprias, em que o resultado não é assim tão honesto nem profundo, como estava a dizer.
Sim, e não me quero meter em problemas por criticar as pessoas, mas vi alguns desses documentários e normalmente fico tão aborrecido. Passados 15 minutos já estou a desligar. Honestamente, alguns desses documentários são, basicamente, publicidade para a marca da figura pública. Em vez de ser uma tentativa de fazer um filme especial. E não estou a ser presunçoso e a dizer que isto é especial, mas ao menos tentámos. Acho que as boas intenções por trás de um projeto criativo são importantes. Mesmo que falhes, pelo menos tentaste. Espero que não tenhamos falhado, mas sinto que os artistas podem realmente beneficiar se tentarem fazer algo com integridade, algo diferente. E se o público não gosta, é o problema do público, não do artista.

Como foi olhar para si próprio com a distância necessária para um exercício destes?
É uma pergunta interessante, porque quando a pandemia começou — que parece que já foi há 300 anos — desafiei-me a voltar atrás e ler e reler muitos dos livros filosóficos da faculdade. Claro que, nalguns casos, após duas páginas percebi porque é que nunca os tinha lido. Mas uma das coisas que redescobri foi a autobiografia do Carl Jung, e não me chamaria a mim mesmo um Junguiano, mas há aquela questão do “shadow self”. Tradicionalmente, a forma como muitas pessoas interpretam este conceito é quase como se fosse o lado duro, enfurecido e violento de uma pessoa. E o que aprendi a fazer neste filme é que, para a maioria de nós, o nosso “shadow self” não é obscuro nem perigoso. É constrangedor. É a parte desconfortável de nós mesmos, a parte que não queremos reconhecer. Não por ser violenta ou agressiva, mas porque normalmente é embaraçosa. E o que aprendi é que para seres uma pessoa honesta tens de fazer as pazes com isso. Ou pelo menos tens de estar disposto a olhar para essa parte desconfortável de ti mesmo. Então havia muitas partes no filme, quando estava a ver imagens, e a pensar: ah, isto é embaraçoso. Mas é honesto. Por isso, vamos deixar. Se quisesse parecer bem, não teria incluído metade daquelas coisas.

E essa perspetiva foi algo que desenvolveu quando começou a reler os livros de filosofia na pandemia? Ou já tinha essa visão sobre a forma como as pessoas se veem a si próprias?
Parte é histórica. Aprecio bom cinema, apreciava o David Bowie quando ele se vestia e era alguém diferente de quem ele era, mas também adoro quando as pessoas, por si próprias ou através da arte, estão dispostas a tentar ser honestas. É muito aconchegante. Li um livro de memórias há uns anos, os diários do John Cheever, e ele é um dos meus autores favoritos. Os diários deles são tão honestos, do género dolorosamente honestos, e apreciei muito mais isso do que alguém a tentar parecer bem. Estou farto de figuras públicas e pessoas em geral a tentar parecer bem.

Qual diria que é o maior mito que existe sobre o Moby?
Não sei se há mitos… Há muitos mal-entendidos e perceções, mas isso faz parte de ser um ser humano que faz coisas em público. Em termos de mitos, não sei. Acho que o que existe é o mito de Los Angeles. Uma das coisas maravilhosas sobre Los Angeles é que vês as maiores estrelas de cinema do mundo, e as maiores estrelas de rock do mundo, no supermercado. Vês o Brad Pitt a passear com o cão e apercebes-te: Ah, todas as pessoas são normais. Ninguém não é normal. E sinto que as pessoas ainda assumem que uma figura pública de alguma forma leva uma vida que não é normal. Desde o Elon Musk ao Kanye West, passando pelo Brad Pitt, toda a gente é normal. Podem fingir que não são, mas basicamente toda a gente, independentemente de quem são, vive uma vida relativamente normal. Preocupam-se com coisas, vão à casa de banho, acham que têm demasiado peso, sofrem de ansiedade. Acho que o oposto do mito é reconhecer que a condição humana meio que afeta toda a gente. Não estou a falar da questão socioeconómica porque, obviamente, as circunstâncias das pessoas são diferentes. Mas ninguém que tenha nascido descobriu uma forma de escapar à condição humana.

Tendo em conta tudo aquilo que já fez na sua carreira, o que é que sente que ainda tem por concretizar?
Adoro trabalhar. Em termos de concretizar, aquilo que adoraria é descobrir como posso ajudar os humanos a parar de se destruírem uns aos outros, à única casa que temos e aos animais que existem no planeta. Não sei o que posso fazer para tentar que as pessoas sejam tão más e destrutivas. Se calhar, nada. Talvez seja presunçoso da minha parte querer sequer tentar. Mas é a única coisa para a qual quero trabalhar. Aparte disso, gosto de fazer coisas, do processo de fazer coisas e de fazer coisas que eventualmente alguém possa achar interessante.

Então irá certamente continuar a fazer coisas.
Espero que sim. Mas com a noção de que, à medida que o tempo passa e fico mais velho, o tamanho do público fica mais pequeno. O número de pessoas atentas é menor. Ninguém alguma vez descobriu uma forma de escapar a isso e quanto mais lutares contra isso, pior fica.

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