Cinema

As mortes traumáticas que fizeram John Travolta interromper a carreira

Aos 66 anos, o ator resolveu afastar-se para “sarar as feridas” recentes. Mas a sua vida está cheia de histórias tristes.
A vida de Travolta não tem sido fácil

“Perdoem-me desde já se não ouvirem falar de nós por uns tempos”, revelou em julho, numa das últimas declarações feitas no verão de 2020. De lá para cá, pouco se ouviu e viu de John Travolta, à exceção de “Die Hart”, a comédia televisiva que foi para o ar poucos dias depois da tragédia que abalou a vida do ator de 66 anos.

A ausência foi justificada pelo recente trauma provocado pela morte da mulher Kelly Preston, vítima de cancro da mama. A batalha de dois anos terminou em casa, na companhia do marido e dos dois filhos, Ella e Benjamin.

Sem previsão de regresso ao trabalho ou à vida pública, o drama foi apenas o episódio mais recente numa vida recheada de momentos traumáticos. “Vou tirar algum tempo para estar presente para os meus filhos, que perderam a mãe”, revelou na nota deixada nas redes sociais, antes de desaparecer.

Este não é o primeiro encontro próximo do ator com a morte de um familiar próximo. Travolta esteve perto da doença quando tinha apenas 23 anos e estava prestes a tornar-se num ícone como Tony Manery, em “Saturday Night Fever”, e Danny Zuko, em “Grease”.

O primeiro encontro com a morte

Diana Hyland tinha mais 18 anos do que Travolta quando contracenaram no filme de 1976 “The Boy in the Plastic Bubble”. Ela era a mãe, ele o filho. Atrás das câmaras, o ator conheceu o seu primeiro grande amor.

“Nunca estive tão apaixonado na minha vida. Pensei que já tinha estado apaixonado, mas afinal não”, revelou em 1977. “Senti-me atraído desde o momento em que a vi. Parecíamos dois loucos a falar o tempo todo durante as gravações. Ao fim de um mês, tornou-se romântico.”

Hyland revelou-lhe que tinha lutado contra um cancro. Tinha feito uma mastectomia em 1975 e, aparentemente, escapado à ameaça mortal da doença. “Quando a conheci pela primeira vez, havia a hipótese de que [a morte] nunca chegasse”, haveria de revelar um lamurioso Travolta.

Travolta acolheuTravolta acolheu o filho de quatro anos de Hyland o filho de quatro anos de Hyland

A verdade é que chegou. A doença atacou de forma brusca e acabou por vitimar Hyland aos 41 anos. “Ela só soube que iria mesmo morrer duas semanas antes de acontecer”, confessou o ator que, assim que soube do regresso do cancro, deixou as gravações de “Saturday Night Fever” para se colocar ao seu lado. Estava lá quando Hyland morreu. “Senti o último suspiro que deu”, revelou.

“Diverti-me mais com a Diana do que alguma vez o tinha feito na minha vida. Dei-lhe momentos de pura alegria nos últimos meses de vida. Sinto sempre que ela está comigo.”

Um novo choque

A alegria voltou num pé de dança. Foi quanto bastou para que Kelly Preston captasse a atenção de um já famosíssimo Travolta.

Conheceram-se em 1988, num ensaio para o filme “The Experts”. Apesar de Preston estar casada com o ator Kevin Gage, afirmou mais tarde que nesse encontro houve “uma espécie de amor à primeira vista”. “Não é que eu estivesse muito bem casada, digamos assim. Estava com a pessoa errada”, revelou em 2018.

Preston, Travolta e os loucos anos 80

Três anos depois estavam casados e seriam pais do primeiro filho de ambos, Jett, que nasceria em 1992. Nem tudo nesta história era um conto de fadas. Rapidamente perceberam que Jett tinha problemas de saúde.

Aos dois anos, depois de uma crise com sintomas severos de gripe, foi-lhe diagnosticada doença de Kawasaki, que provoca inflamações nas artérias. Sofria também de asma, eram frequentes as convulsões e suspeitava-se de autismo.

Travolta e Preston mantiveram-se em silêncio durante vários anos sobre o suposto autismo e necessidades especiais do filho. Especulou-se, à época, que essa ocultação teria origem nas diretrizes da Igreja da Cientologia, à qual pertenciam.

A condição só haveria de ser reconhecida no meio de uma tragédia. Durante umas férias de família nas Bahamas, onde Travolta estava com Preston, Jett e a filha mais nova Ella, um grito despertou o ator.

“Desci as escadas a correr com a minha mulher para ajudar o meu filho”, revelou mais tarde o ator sobre a manhã de 2 de janeiro de 2009. Quando chegou perto de Jett, um cuidador tentava reanimá-lo. Sem sucesso.

O jovem de 16 anos foi encontrado inconsciente. Suspeita-se de uma convulsão grave que o fez bater com a cabeça na banheira. Só perante este estado de coisas é que Travolta assumiu o autismo do filho que, segundo o próprio, sofria convulsões a cada cinco a dez dias.

“Estamos de coração partido por termos tido tão pouco tempo com ele. Vamos acarinhar todo o tempo que estivemos juntos para o resto das nossas vidas”, revelou o casal, que encontrou na Igreja da Cientologia a forma mais rápida para lidar com a dor.

Ella, Kelly Preston e Jett Travolta

Durante dois anos, dois representantes da organização acompanharam Travolta para todo o lado. “Estarei para sempre grato à Cientologia por me apoiar durante estes dois anos, de segunda a domingo. Não tiravam um dia de folga, trabalhavam-me de ângulos diferentes das técnicas para superar a dor e o luto — e para me fazerem sentir que, finalmente, conseguia superar cada dia”, explicou

Infelizmente, o trauma teria que ser revivido nos tribunais. De acordo com a acusação, Travolta terá sido alvo de uma tentativa de extorsão por parte do condutor da ambulância que levou Jett ao hospital e do seu advogado, Pleasant Bridgewater. Exigiam ao ator 20 milhões de euros para não o acusarem publicamente de ter negado auxílio ao filho.

Nas mãos tinham um documento assinado pelo ator, onde recusava o consentimento para que Jett fosse levado para o hospital local. Travolta justificou-se, alegando que o fez porque inicialmente queria que o filho fosse levado de avião para a Florida para tratamento.

O caso acabou por arrastar-se para tribunal e obrigar o ator a falar publicamente sobre a manhã traumática — e no qual teve que justificar as suas ações, dando a entender que terá feito tudo ao seu alcance para salvar a vida de Jett. O julgamento acabou por ser interrompido depois da polémica intervenção de um legislador local. Decretou-se a anulação e, apesar de ser possível voltar a levar o caso a tribunal, a família decidiu esquecer tudo.

“Este assunto causou uma dor e um stress inacreditável à família Travolta que quer apenas colocar tudo isto para trás das costas”, revelou um dos representantes legais. “Ao fim de muita reflexão, concluí que não voltarei voluntariamente às Bahamas para testemunhar uma segunda vez, a bem dos melhores interesses da minha família”, confessou o ator.

O cancro, outra vez

Anos antes da tragédia, Travolta e Preston casavam-se em setembro de 1991, numa cerimónia pomposa em Paris. Voltaram a fazer uma segunda festa em Daytona Beach, na Florida. Haveriam de se tornar num dos casais mais fortes e duradouros de Hollywood.

Sobreviveram à tragédia da morte do primeiro filho e reencontraram a felicidade dois anos depois, com o nascimento de Benjamin. Kelly Preston tinha já 47 anos e foi tudo um pouco inesperado.

“Trouxe à casa um espírito renovado. Deu-nos um novo começo”, confessou a atriz. E, durante anos, assim foi. A família Travolta continuou a dar o exemplo em Hollywood.

Uma das últimas fotos em família

Só que em setembro de 2019, uma mensagem enigmática deixou os fãs preocupados. “Tu dás-me esperança quando parece que a perdi (…) Confio-te todo o meu amor, porque sei que estarei sempre bem aconteça o que acontecer”, escreveu Preston no aniversário de casamento.

A batalha com o cancro foi feita em segredo durante dois longos anos e chegou a um fim trágico em julho de 2020. Kelly Preston tinha 57 anos. Era a segunda vez que Travolta perdia um amor para a doença.

Aos 66 anos, o ator evitou falar publicamente sobre o assunto e preferiu deixar uma mensagem numa nota nas redes sociais. “Ela protagonizou uma luta corajosa ao lado da sua família e do apoio de outros tantos”, explicou.

O trauma obrigou Travolta a recolher-se e a optar por fazer uma pausa na carreira durante “as semanas e meses” que afirmou ter pela frente até conseguir “sarar as feridas”.

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