Cinema

Nicolas Cage deixou os “filmes miseráveis” para trás — e está mais forte do que nunca

Com a dívida paga, o ator tem sido mais criterioso nos trabalhos. Esta quinta-feira chega aos cinemas em "Encontro Infernal" com Joel Kinnaman.
Tem tido uma carreira atribulada.

Seis milhões de euros. Era aproximadamente este o valor da dívida de Nicolas Cage, imediatamente após a crise económica e o crash do mercado imobiliário em 2008. Era preciso pagar cada cêntimo — e foi isso que fez. Encostado à parede pela dívida, teve que aceitar toda e qualquer proposta de trabalho que lhe chegava, o que resultou na participação em diversos filmes que foram completamente arrasados pela crítica e colocaram a sua reputação em cheque.

“Atirei-me de cabeça ao mercado do imobiliário e depois o mercado rebentou. Não consegui sair a tempo”, confessou ao “60 Minutes”. Apesar das dificuldades, Cage congratula-se pelo facto de ter conseguido saldar a dívida por inteiro. “Paguei tudo, cerca de seis milhões. Nunca declarei insolvência”, conta. “Foi um período negro. O trabalho sempre foi o meu anjo da guarda. Pode não ter sido trabalho de topo, mas era igualmente trabalho.”

Certo é que após a recuperação financeira, voltaram os grandes papéis. Foi o caso da prestação em “O Homem dos Teus Sonhos” de 2023, que lhe valeu enormes elogios no papel de um professor e pai de família banal que, subitamente, surge nos sonhos de milhões de pessoas e se torna famoso do dia para a noite. Os problemas surgem quando esses sonhos se tornam em pesadelos — e passa de celebridade a proscrito. 

Esta quinta-feira, 18 de abril, o ator de 60 anos regressa com mais um filme neste caminho de recuperação. Em “Encontro Infernal” contracena com Joel Kinnaman, que interpreta um homem comum que está a conduzir para o hospital de Las Vegas onde a sua mulher está a ter o segundo filho do casal.

Quando entra no parque de estacionamento e pára o carro, vê um homem misterioso (Cage) forçar a entrada no banco de trás. O criminoso tira uma arma do bolso e obriga-o a arrancar com o automóvel. “A partir deste instante, ambos veem-se envolvidos numa viagem infernal onde nem tudo é o que parece”, revela a descrição.

Em contraste com um passado recente, este trabalho não foi uma obrigação. O realizador Yuval Adler, que já fez “Belém” e “Os Segredos Que Ocultamos” sugeriu que o ator ficasse com o papel. Nicolas ficou imediatamente cativado quando soube o título do filme, que em inglês é “Sympathy For The Devil”.

“É uma canção muito famosa que o Mick Jagger escreveu com o Keith Richards depois de ter lido ‘The Master and Margarita’, um livro de Mikhail Bulgakov”, contou numa entrevista de 2023 ao “USA Today”. Também ficou entusiasmado por poder interpretar um “homem misterioso e muito bizarro”.

Durante as gravações, o próprio protagonista fez algumas sugestões. Na produção vemos O Passageiro, assim se chama a sua personagem, com um vistoso cabelo vermelho — algo que não fazia parte do guião original escrito por Luke Paradise. “Por causa do título, fui ver o filme ‘Performance’ do Jagger. Ele interpretava uma estrela de rock e o James Fox um gangster em fuga. Numa cena, o James pôs a mão num balde de tinta e usou-a para pintar o cabelo de vermelho e criar um disfarce. Durante um rápido segundo, pensei que ele tinha criado o movimento punk”, diz à mesma publicação.

Para se preparar, Cage também estudou personagens da demonologia. Num livro, encontrou a fotografia de um demónio chamado Asmodeus, cujo corpo tinha aquele mesmo tom encarnado. Mandou uma fotografia para o realizador e chegaram à conclusão de que era aquele o figurino para O Passageiro. “Mudou tudo de repente.” “Encontro Infernal” não foi um sucesso entre a crítica e o público. No agregador de críticas Rotten Tomatoes, conta com avaliações de 58 e 53 por cento, respetivamente.

Seja como for, o norte-americano é hoje livre para escolher os papéis que bem entende. Uma reviravolta naquele que foi o cenário da última década, ainda que o próprio nem sempre considere que se tratavam de maus projetos. Já tinha falado sobre o tema do ocaso na sua carreira em 2022, quando admitiu, em entrevista à revista “GQ”, que muitos dos seus filmes mais recentes “simplesmente não funcionavam”. “Quando andava a fazer quatro filmes por ano, durante anos seguidos, sempre lutei para encontrar algo neles que me permitisse dar o meu máximo”, contou. “Não funcionavam. Alguns deles eram bons, como o ‘Mandy’, mas a maioria não funcionou.”

Ainda em 2019, Cage confessara que a maioria das suas escolhas recentes tinham por base um grande fator: o dinheiro. “Não posso falar sobre casos específicos, percentagens, mas sim, o dinheiro é um fator. Posso ser perfeitamente honesto quanto a isso, aliás, não há razão para não o ser”, explicou ao jornal “The New York Times”.

“Continuo a procurar filmes que eu perceba que fazem sentido, que posso participar nele e ajudar a criar algo que seja divertido se ver, mas sim, não é segredo nenhum que cometi erros no passado que estou a tentar corrigir (…) Ocorreram erros financeiros com a implosão do mercado imobiliário que eliminaram uma grande parte do dinheiro que ganhei. Mas havia uma coisa que eu não iria fazer: assumir a insolvência.”

Cage, que nasceu numa família de artistas — e é sobrinho da lenda Francis Ford Coppola —, conquistou um Óscar em 1995 pelo seu papel em “Leaving Las Vegas”. Fez sucesso com os seus filmes de ação no final dos anos 90, entre “The Rock”, “Con Air” e “Face/Off”, mas viu a sua carreira tornar-se motivo de chacota na última década.

“Será que Nicolas Cage só faz mesmo maus filmes?”, questionava a “Screen Rant” em 2021, numa análise à avalanche imparavel de filmes de baixo orçamento em que o ator participou nos últimos anos. “Hoje, os seus filmes são diretamente lançados em DVD ou nas plataformas de streaming; e são lançados a um ritmo tão rápido que muitas vezes passam despercebidos, até mesmo aos seus seguidores mais fiéis”, escrevia a revista.

Antes da miséria financeira, chegou a ser um dos atores mais bem pagos de Hollywood. Apesar de se justificar com os erros no investimento imobiliário, postos a nu pela crise financeira, a verdade é que era também conhecido pelo seu estilo de vida luxuoso.

Segundo a CNBC, Cage chegou, a certa altura, a ter 15 imóveis por todo o mundo, de casas no deserto a castelos na Europa. Mas foram as compras de objetos bizarros que mais deram nas vistas. O ator terá comprado um pouco de tudo em leilões, de cabeças de pigmeus a bandas-desenhadas raras, até ao crânio fossilizado de um dinossauro — que mais tarde foi obrigado a devolver ao governo da Mongólia.

No que toca à escolha das propriedades, Cage assumiu que eram mais baseadas na então filosofia de vida que promovia do que propriamente em escolhas inteligentes decorrentes da análise de mercado. “Comecei a meditar três vezes ao dia, a ler livros de filosofia (…) Comecei a seguir a mitologia e procurava propriedades que estivessem alinhadas com isso.” Entre as compras estavam dois castelos avaliados em cerca de 12 milhões de euros.

O ator chamava-lhe a sua “busca pelo cálice sagrado” que, neste caso, eram propriedades. “Lês um livro e dentro dele está uma referência a outro livro, e depois compras esse livro e vais acumulando as referências. Para mim, isso era tudo, a busca pelo cálice sagrado. Onde está? Será que o cálice é a própria Terra?”, perguntou ao “The New York Times”.

Carregue na galeria e conheça outras novidades de abril.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT