Cinema

“Nomadland” é um filme bonito, mas não chega para ser o melhor do ano

Estreou nos cinemas esta segunda-feira e está nomeado para seis Óscares. Chloé Zhao realiza e Frances McDormand é a protagonista.
Frances McDormand é a protagonista.
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Ao lado de “Mank”, “O Pai”, “Minari”, “Uma Miúda com Potencial”, “Sound of Metal”, “Os 7 de Chicago” ou “Judas and the Black Messiah”, “Nomadland — Sobreviver na América” é um dos filmes deste ano que estão cobertos pela aura dourada dos Óscares, dê-se mais ou menos valor à mais mediática cerimónia de prémios de cinema do planeta. Com a pandemia, o drama realizado por Chloé Zhao só chegou aos cinemas portugueses a 19 de abril, precisamente no dia da reabertura das salas.

A talentosa e madura — e sem nada a provar — Frances McDormand é a protagonista desta história. Mais do que numa personagem, este filme foca-se em fazer um retrato genuíno de uma certa América profunda, aquela distante das grandes cidades e dos holofotes do mediatismo.

McDormand interpreta Fern, uma mulher viúva, relativamente atormentada por uma vida sofrida, que arranca com uma vida de nómada pelo Midwest americano. Pelo meio encontra muitos como ela, pessoas que por circunstâncias da vida ou por opção, se dedicaram a viver em caravanas, de parque de campismo em parque de campismo, de biscate em biscate.

É uma história passada nas margens do capitalismo, na ressaca da crise económica, que, de certa forma, parece ser um filme de dentro para dentro — ou seja, da América para a América. Parece quase uma tentativa de wake-up call: afinal, o sonho americano não é assim tão real. Atenção, existem inúmeras vítimas da sociedade em que vivemos — que não recebem assim tanto destaque. O que para nós, europeus distantes, pode parecer mais óbvio, talvez não seja na América. Ou então é um exercício de pedagogia mais ou menos condescendente.

A grande maioria das personagens deambulantes com quem Fern se depara na sua jornada são nómadas da vida real. Vão contando as próprias histórias, explicando aquilo que os levou a uma vida simples e pouco convencional para os parâmetros da sociedade moderna — mesmo que eles estejam profundamente interseccionados com ela, seja a trabalhar num armazém da Amazon ou tenham a hipótese de ir ver o novo “Vingadores” ao cinema local.

É um filme bonito, que retrata a beleza natural das remotas paisagens americanas — que obviamente já foram imensamente retratadas no cinema —, quase num registo documental, seja na forma como filma as rotinas da personagem de McDormand quer, lá está, nas histórias e vidas reais de muitas das pessoas que aparecem. É um retrato difuso desta realidade, não é uma história com um princípio, meio e fim muito concretos.

Porém, isso não chega para existir em “Nomadland” um grande filme. Não tem um guião propriamente entusiasmante — ainda que possa ser esse o objetivo —, e Frances McDormand e a sua tremenda capacidade para transmitir emoções não conseguem salvar o filme, que nalgumas ocasiões chega mesmo a ser aborrecido. Assim, é difícil compreender o entusiasmo em torno desta produção, que cumpre bem aquilo a que se propõe — é competente — mas que não chega para nos conquistar.

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