Cinema

A nova (e atribulada) vida de Charlie Sheen depois do HIV

O polémico ator encarou a infeção como um momento marcante, mas pouco ou nada mudou no escandaloso dia a dia de Sheen.
Pode ser muita coisa, menos uma vida aborrecida

“Tenho sangue de tigre, o ADN de Adónis e estou cansado de fazer de conta que não sou especial”, atirou um Charlie Sheen doentiamente eufórico, na entrevista de 2011 que entraria para a história como um dos episódios mais bizarros numa vida onde cenários normais são uma absoluta raridade. Dez anos depois, muita coisa mudou na vida do ator de 56 — ou dependendo do ponto de vista, quase tudo ficou igual. É confuso: tal como Sheen.

A rajada de disparates de 2011 foi o culminar de um período turbulento marcado pelo álcool, pelas drogas, por conflitos — foi dispensado de “Two and a Half Men” por insultar o criador da série — e por um tumultuoso divórcio de Denise Richards. Separados desde 2005 e com duas filhas, protagonizaram um triste espetáculo de acusações de violência e abuso de drogas.

Richards chegou mesmo a acusar o ex-marido de gostar de pornografia gay e de “rapazes com ar muito novo”, bem como de ter uma atração por raparigas menores. Acabaria por desmentir estas acusações, mas manteve todas as outras.

A verdade é que Sheen foi sempre problemático. Esteve envolvido no escândalo de prostituição da Madame de Hollywood em 1995 — com quem terá gasto mais de 40 mil euros —, fez inúmeras reabilitações falhadas para o vício do álcool e das drogas e teve uma relação demasiado próxima com as autoridades. Em 1996 foi detido e acusado de agredir a então namorada Brittany Ashland.

Voltaria a ser detido pelo mesmo motivo em 2009 — já depois de acusado de violência doméstica por Richards poucos anos antes —, por agressões e ameaças à sua esposa, Brooke Mueller.

Já em 2013, partilhou um tweet de parabéns a Mueller: “Parabéns, porque é que não sopras esta vela?”, escreveu, a acompanhar a imagem de uma granada. A graça valeu-lhe um pedido de afastamento no tribunal por parte de Mueller. Em 2015, voltava-se novamente para Richards, a quem chamou “uma porquinha herética”.

Quem assistia à queda espalhafatosa de Sheen concordava que fosse qual fosse o rumo escolhido pelo ator, o futuro iria acabar inevitavelmente em desgraça. Felizmente para a estrela de “Platoon”, a desgraça que se abateu sobre si não foi a pior.

Em 2015 foi à televisão anunciar que tinha sido infetado com o vírus do HIV, um diagnóstico feito quatro anos antes. “Pensei que tinha um tumor cerebral”, revelou sobre os sintomas que o afetaram, entre enxaquecas e suores noturnos. “São três pequenas letras difíceis de absorver. É um ponto de viragem na vida de uma pessoa”, confessou.

Durante vários anos, Sheen conseguiu esconder o segredo a muito custo — um preço que lhe tirou perto de 10 milhões da conta bancária. Chegou a ter que pagar a uma prostituta que fotografou os medicamentos antiretrovirais e ameaçou contar tudo aos jornais. “Hoje liberto-me dessa prisão”, disse antes de confessar que teve sexo desprotegido mas que não infetou ninguém.

“O dia em que fui diagnosticado, quis imediatamente morrer”, explicou anos mais tarde. “A minha mãe estava ao meu lado e claro que não faria isso ali. Nem ali ou depois, de forma a que ela me encontrasse e tivesse que limpar essa confusão. Mais tarde percebi algo: deram-me uns comprimidos e disseram-me para ir para casa, que ia viver. Se fosse algo mais grave, um cancro, talvez não estivesse aqui”, suspirou Sheen. 

Com HIV mas sem SIDA, Sheen juntou-se ao lote de doentes que levam uma vida perfeitamente normal com o vírus. Tornou-se também numa das cobaias num ensaio clínico que procurava testar um medicamento inovador no tratamento do HIV, então conhecido por Pro140 e hoje Leronlimab, usado na luta contra o HIV e até nos piores casos de Covid-19.

Na frente de batalha contra a doença, tudo parece correr bem. Mas na vida de Sheen, pouco ou nada parece ter mudado. Para lá do que ficou conhecido como o efeito Charlie Sheen — que após a sua confissão, levou a um pico de pesquisa sobre a doença em todo o mundo —, o ator voltou às tropelias do costume.

Com Denise Richards e as duas filhas

Foi no sofá do programa de Dr. Oz que em 2016 confessou ter deixado de tomar a valiosa medicação que o ajudava a controlar o temível vírus. “Já não os tomo há cerca de uma semana”, revelou durante as gravações. “Se estou a colocar a minha vida em risco? Certamente que sim. E então? Eu nasci morto. Isso não me assusta minimamente.”

O tratamento pouco convencional não impediu o médico mexicano Sam Cachoua de falar com Dr. Oz. Estava tão confiante na sua vacina contra o HIV que fez o impensável. “Tirei sangue a Sheen e injetei-o em mim próprio. E disse-lhe: ‘Charlie, se eu não sei o que estou a fazer, então estamos os dois metidos num grande sarilho, não estamos?'”

Sheen revelaria mais tarde que a interrupção foi curta. Assim que o vírus voltou a despontar, o ator regressou à medicação habitual.

Nesse mesmo ano, acabou por estar novamente na mira da polícia, por alegadamente ter perseguido e ameaçado matar a sua ex-noiva, Scottine Ross, ela que após as revelações da doença o processou por ter omitido estar infetado quando ainda mantinham relações. Foi alvo de outro processo semelhante em 2017, interposto por uma mulher anónima que teve sexo desprotegido com Sheen, que só mais tarde revelou estar infetado.

No plano profissional, a carreira já em declínio nunca recuperou e apesar de ter levado a sua história a vários países com “An Evening With Charlie Sheen” e feito alguns anúncios, nunca conseguiu regressar em grande à televisão e ao cinema.

Fez parte do elenco de “9/11”, um filme sobre o 11 de setembro que foi arrasado pela crítica, e de uma comédia chamada “Mad Families”. Entre aparições fugazes em videoclipes e séries, a maior nota de registo no currículo recente vai para “Grizzly II: Revenge”, um filme de terror gravado nos anos 80 e que ficou na gaveta até 2020, ano em que foi finalmente lançado — talvez a única hipótese de atualmente Sheen figurar ao lado de atores como Laura Dern e George Clooney.

Segundo o próprio, a vida corre bem, mesmo depois de ter sido envolvido em novo escândalo, acusado por Corey Feldman de violação. Uma acusação que apelidou de “doentia e estapafúrdia”.

Hoje, Sheen olha para trás com humor e boa-disposição. Da célebre entrevista de 2011, recorda apenas que estava a usar “demasiado creme de testosterona” para “manter a libido lá em cima”. Um impulso de testosterona que revela ter despertado uma espécie de episódio de raiva “tipo os que são provocados pelos esteroides”.

Da vida que leva atualmente, relativiza. “Como todos nós, tenho dias melhores do que outros, mas a maioria deles são muito cool. Saio à rua e é só abraços apertados e elogios. Não há nada para além de amor neste momento.”

E daqui a dez anos? “Esta é a única coisa que sei: ainda vou estar por cá e isso vai irritar uma data de gente.”

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