Cinema

Novo “Missão Impossível”: uma avalanche de ação que é um assalto aos sentidos

O sétimo capítulo da saga de Tom Cruise é — literalmente — um comboio desgovernado, recheado de ação, sem encontrar um rumo.
Cruise está de volta
60

Quando nos sentamos na sala de cinema para ver “Missão: Impossível – Ajuste de Contas Parte Um”, entramos com a sensação de cansaço. Passámos três extenuantes anos a ouvir falar sobre Tom Cruise: batalhou entre confinamentos, gritou com os membros das equipas de gravações, recusou duplos, fez (mais) uma proeza incrível, arriscou a sua própria vida — e assinou o filme mais caro de sempre.

O sétimo filme da saga chega em duas doses. A primeira agora. A segunda só poderemos ver depois. E certamente que a máquina hollywoodesca que suporta este circo de ação terá mais capítulos guardados na gaveta.

Repetições atrás de repetições. E o mais recente filme de Tom Cruise não é menos extenuante na sua execução onde, ao longo de mais de duas horas e meia, somos bombardeados com sequências atrás de sequências. O bom? O filme parece ter metade da duração real. O mau? A inevitável dor de cabeça neste comboio desgovernado que dá poucas pausas para respirar.

O novo capítulo da saga arranca debaixo do mar, onde um submarino russo testa com sucesso a sua nova e inovadora tecnologia de camuflagem. A missão é interrompida por algo que, percebem os tripulantes tarde demais, era um perigo virtual, criado apenas e só por uma anomalia nos instrumentos digitais. Um torpedo lançado regressa para trás e aniquila todos a bordo.

Percebemos mais tarde que tudo não passou da ação do novo vilão, a Entidade, que não é mais do que um programa de inteligência artificial que se tornou senciente e virou-se contra os seus criadores. Com acesso a tudo o que é segredo digital, aperfeiçoou-se e é agora o inimigo público número um. Naturalmente, todos os governos pretendem não só defender-se, mas sobretudo controlar a Entidade e poder usá-la contra os rivais.

É aqui que entra Ethan Hunt, também ele bastante habituado incumprir ordens superiores. O agente do IMF esbarra em mais uma missão que acaba por correr mal. A luta faz-se mais uma vez pela salvação da humanidade, contra a Entidade mas também contra a ganância dos governos de todo o mundo. Pontos extra para a mira certeira do vilão, que espelha alguns dos atuais medos com a ascensão da inteligência artificial — embora seja pouco plausível que o argumento, finalizado antes da pandemia, tivesse a clarividência para o antever a três anos de distância. Terá sido uma feliz coincidência.

O elenco conta com vários regressos e algumas estreias. Adições de pouca monta, ao que acresce o desperdício do talento de Rebecca Ferguson e Vanessa Kirby, com a primeira a fazer quase figura de corpo presente. De qualquer forma, ninguém se sentou na sala de cinema à espera de ver mais do que o star power em ação e, sejamos honestos, cenas com emoção pura e dura.

E é nesse campo que, naturalmente, “Missão Impossível” brilha — e não nos traços pateticamente românticos, onde as irresistíveis feromonas de Hunt parecem fazer tremer as pernas de todas as mulheres que saltitam pelo elenco. São sequências atrás de sequências, atrás de sequências. Algumas preciosas, sobretudo pelo realismo emprestado pelo trabalho extra que Cruise faz questão de deixar nos sets — a sequência final é estonteante —, outras são meros exercícios autocongratulatórios.

Percebe-se que o ritmo tenha que ser sempre furioso. Quando as colunas sussurram e a câmara se imobiliza, tudo o que resta são os pobres diálogos perdidos em tramas mirabolantes. O que tem a mais em manobras acrobáticas, tem a menos em carga emotiva.

“Missão: Impossível – Ajuste de Contas Parte Um” é uma espécie de montanha-russa. É excitante, passa num instante e na memória deixa apenas um rasto insignificante. Mas nunca é entediante — e esse é um elogio que não se pode deixar à maioria dos blockbusters.

Carregue na galeria para conhecer as novas séries que chegam à televisão em julho.

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