Cinema

O bombeiro e a novata que ajudaram Ken Loach a fazer “O Pub the Old Oak”

A longa-metragem do realizador britânico chegou aos cinemas portugueses esta quinta-feira, 16 de novembro.
Dave Turner e Ebla Mari são os protagonistas

Poucas pessoas mostraram a realidade de Inglaterra no cinema como Ken Loach, de 86 anos. O filme “O Pub the Old Oak” que chegou esta quinta-feira, 16 de novembro, às salas de cinemas nacionais é o mais recente exemplo desta capacidade. No entanto, desta vez contou com a (preciosa) ajuda de um bombeiro e de uma atriz novata.

A produção reflete sobre o racismo que divide uma nação, polarização que o cineasta consegue capturar integrando atores não profissionais no elenco. Os protagonistas são Dave Turner, um bombeiro, e Ebla Mari, que entra pela primeira vez numa longa-metragem. Este foi um dos “truques” a que Loach recorreu para construir uma representação mais fiel da classe trabalhadora.

“Nas cenas em que Turner parece estar a sofrer, está mesmo a sofrer. Aquela suscetibilidade de não ter esperança é muito verdadeira. É um homem que foi efetivamente bombeiro e organizador sindical”, explicou Loach. “Conhece esta realidade. Tem muita experiência de vida. E partilhou isso, está no ecrã”, acrescentou.

“O Pub the Old Oak” poderá ser o último trabalho da carreira do britânico, muito embora já tenha feito uma ameaça semelhante no passado. Em 2014, após a vitória do Partido Conservador, chegou à conclusão que ainda tinha mais para dizer. Um ímpeto criativo que culminou em “Eu, Daniel Blake”, de 2016.

Agora, o veterano anunciou que o novo filme pode ser, “realisticamente”, o derradeiro da sua carreira. A longa-metragem retrata uma antiga vila que se dedica à exploração de carvão, mas que nunca recuperou totalmente após o encerramento das minas, em 1984. A comunidade, outrora próspera e orgulhosa, caracteriza-se agora pela crescente raiva e desânimo, onde poucos jovens querem viver.

A renovação geracional é conseguida por um fluxo de refugiados sírios, atraídos pela abundância de moradias baratas e disponíveis. No entanto, isto coloca-os em rota de colisão com os antigos residentes, existindo grandes dúvidas sobre se irão aceitá-los. No centro desta trama está The Old Oak, o último pub da região, que se encontra na iminência de ser encerrado.

O dono do espaço, TJ Ballantyne (interpretado por Dave Turner), deprimido e com grandes dificuldades em mantê-lo aberto, acaba por criar amizade com Yara (Ebla Mari), uma jovem e curiosa imigrante. Ambos vão tentar unir esta comunidade dividida.

Ao longo de quase seis décadas, Loach sempre apontou a câmara aos problemas que assolavam Inglaterra. “Poor Cow” (1967) foi um olhar sobre a pobreza e “Eu, Daniel Blake” foca a austeridade que ensombra a vida do trabalhador moderno. O racismo e a xenofobia no contexto do Brexit em “O Pub the Old Oak” é mais uma das preocupações daquele que é considerado o representante máximo do cinema britânico de esquerda.

O cineasta começou a trabalhar na década de 1960, quando criou diversos dramas inovadores para a BBC. “Up the Junction” (1965), sobre três mulheres da classe trabalhadora e uma cena gráfica de um aborto na rua, foi um deles.

Estas obras ajudaram Loach a quebrar barreiras sociais, mas também a criar um estatuto. “Tive muita sorte em poder fazer estes projetos nos anos 60. Deram-me um cartão de visita e passaram a reconhecer o meu reportório”, disse, numa entrevista à estação de televisão inglesa.

Em “O Pub the Old Oak” explora também o poder que o povo pode conquistar na união. Segundo o cineasta, esta representação não seria possível sem as origens humildes dos atores. “Normalmente, as pessoas da classe trabalhadora são retratadas como vítimas, bandidos ou personagens de comédia. Nunca vemos a força que têm se permanecerem unidos. É daí que vem a esperança.”

Carregue na galeria para conhecer algumas das novidades que pode ver em novembro na televisão.

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