Cinema

O conflito em Gaza provocou uma guerra civil em Hollywood — e impôs a lei da rolha

Nos corredores da indústria anotam-se nomes, denunciam-se colegas e impõem-se palavras proibidas. E nem os grandes escapam.
Sarandon participou num protesto pró-Palestina

A notícia caiu como uma bomba em Hollywood. Jenna Ortega não irá regressar ao seu papel no sétimo capítulo da saga “Scream”. O anúncio falava em incompatibilidade de agenda com “Wednesday”, deixando de fora outros motivos.

O afastamento surge um dia após o despedimento de Melissa Barrera, devido às publicações da colega de elenco nas redes sociais sobre o conflito entre Israel e Palestina. A decisão foi confirmada esta terça-feira, 21 de novembro, por um porta-voz da produtora Spyglass, que confirmou que as declarações foram consideradas antissemitas.

“A Spyglass mantém uma postura intransigente: não toleramos o antissemitismo nem qualquer forma de incitamento ao ódio, incluindo falsas referências a genocídio, limpeza étnica, distorção do Holocausto ou qualquer coisa que ultrapasse claramente os limites do discurso de ódio”, disse a produtora à “Variety”.

Numa publicação no Instagram, Barrera disse que Gaza era “tratada como um campo de concentração”. “Os media ocidentais só mostram o lado [israelita]. Porque será? Deixo que tirem as vossas próprias conclusões”, reafirmou noutra publicação.

A atriz mexicana de 33 anos entrou para a saga de terror em 2022, onde fez parte do elenco do quinto e sexto capítulo, ao lado de Ortega. Quem reagiu de imediato foi o realizador do próximo filme, Christopher Landon: “Eis a minha declaração: isto é tudo uma chatice. Parem de gritar. A decisão não foi minha.”

É neste ambiente de cortar à faca que Hollywood tem vivido, desde que o ataque do Hamas a 7 de outubro. O investida deu início a uma violentíssima e sangrenta resposta israelita em Gaza, onde já morreram milhares de crianças. Imediatamente após os primeiros embates, a indústria dividiu-se — e muitos responsáveis começaram a anotar nomes.

As represálias não tardaram a chegar, bastou que atores e outros intervenientes ousassem criticar Israel pela ação militar que, segundo as mais recentes estimativas, poderá ter já vitimado mais de dez mil palestinianos.

Ninguém está a salvo, nem mesmo grandes nomes como Susan Sarandon, que, esta terça-feira, 21 de novembro, foi despedida pela sua agência de talentos, a UTA. Tudo devido aos comentários que fez num comício pró-Palestina em Nova Iorque, a 17 de novembro.

“Há muita gente com medo, com medo de ser judeu nesta altura, e estão a ter um vislumbre do que é ser muçulmano neste país, tantas vezes sujeitos a violência”, afirmou a atriz de 77 anos num dos comícios.

Os protestos pró-Israel também têm inundado as ruas de Los Angeles

Uma reportagem da “Variety” revela essa mesma realidade: não só a das represálias contra quem ousa falar, mas também a da doutrinação nos corredores de Hollywood. Quatro dias após os ataques de 7 de outubro em Israel, a agência WME convidou Steve Leder, rabino de um templo em Los Angeles, para uma visita à sede da agência em Beverly Hills, na tentativa de confortar judeus americanos que trabalhavam na empresa.

Vários funcionários mostraram o seu descontentamento, sem sucesso. A empresa redobrou o esforço e convidou também Jonathan Greenblatt, presidente da Anti-Defamation League — uma organização que luta contra o antissemitismo — e que chegou com palavras afiadas, enquanto criticava o sindicato dos argumentistas por não condenar publicamente o Hamas.

Nas redes sociais, a perseguição continuou. Maha Dakhil, uma conhecida agente de Hollywood que agencia nomes como Tom Cruise, arriscou comentar o tema online. “O que é mais desolador do que testemunhar um genocídio? Testemunhar a negação de que um genocídio está em curso”, escreveu. A ousadia valeu-lhe a demissão do cargo de co-diretora do departamento de filmes na empresa, mesmo após ter pedido desculpa pelo comentário.

Cruise, confrontado com os problemas da agente, tentou intervir. Demonstrou-lhe o seu apoio numa reunião que o próprio marcou na sede da empresa e onde compareceu. Seguiu-se uma pequena rebelião, colegas a queixarem-se de “tratamento injusto” por parte da direção. Outros argumentaram que Dakhil deveria ter sido despedida. Uma luta sem meio-termo, onde a polarização é cada vez mais acentuada.

Muitas vezes, não é sequer necessário que as declarações públicas ganhem tração. Há uma desconfiança total na indústria, onde todos parecem querer denunciar os colegas e castigá-los. Marc Platt, produtor de “La La Land”, denunciou Boots Riley e instou a sua agência a cortar laços com o realizador devido às suas críticas a Israel.

Riley pediu um boicote à exibição dos vídeos dos crimes do Hamas em Los Angeles, que classificou de “propaganda assassina”. “Quando oficiais da IDF e israelitas estiverem em Haia por crimes de guerra, massacres e ações genocidas, não vão querer que o vosso nome ou imagem esteja associado a isso.”

Outra agência, a CAA, despediu uma das assistentes por dizer que os israelitas eram “supremacistas brancos” e que o governo de Netanyahu era um “regime fascista”. A lista continua. As autoras Saira Rao e Regina Jackson também foram dispensadas. Basta dizer as palavras erradas, sobretudo “genocídio”.

Uma palavra usada, contudo, por responsáveis das Nações Unidas. Craig Mokhiber revelou estarmos perante “um caso clássico de genocídio”. Em documentos oficiais publicados a 2 de novembro, uma série de especialistas da ONU mostraram-se preocupados com o “grave risco de genocídio”. Mark Ruffalo ousou usar a palavra — e teve que pedir desculpas publicamente. Javier Bardem e Penélope Cruz também.

As conversas de WhatsApp onde se partilham denúncias e comentários alegadamente antissemitas multiplicam-se em Hollywood, revela a “Variety”. Anotam-se mais nomes, até aquele que apenas apoiam publicamente os alegados infratores, como terá sido o caso de Ava DuVernay.

O clima de guerra civil é patente em dois relatos partilhados na segunda-feira, 20 de novembro, pela “Vulture”. Um ator de origens árabes e um showrunner judeu comentam, em anonimato, o clima de intimidação que se vive por estes dias.

Num determinado filme, o ator interpretou um guerrilheiro palestiniano. “Perguntaram-me se me identificava com a personagem. Esse é o meu trabalho, identificar-me com a personagem que me é dada”, explicou. “Decidi responder que não acreditava na violência, que era um pacifista, mas que me identificava com a personagem porque ela passou por um trauma e está a tentar ser o melhor possível em não ser violento. Mas disse que era capaz de ter empatia pelo seu ponto de vista.” A conversa redundou numa discussão. “Às tantas, chamaram-me nazi.”

“Sinto que há pressão pelo facto de ser um ator do Médio Oriente em Hollywood. Escolho muito bem o que partilho nas redes sociais. Quando o ataque do Hamas aconteceu, disse que era algo horrífico, porque o é. E ainda assim fui atacado pela comunidade do Médio Oriente, que me perguntava porque é que não dizia nada sobre os palestinianos. Quando comento algo sobre as crianças inocentes em Gaza, recebo o mesmo tratamento: ‘E os israelitas raptados?’.”

O que aconteceu à agente Maha Dakhil “assustou-nos a todos”, confirmou. “Tenho muito cuidado agora no uso de palavras como genocídio, ocupação colonialista, prisões a céu aberto — apesar de achar que descrevem exatamente o que se está a passar em Gaza.” Entre outras palavras problemáticas está “ação não provocada” ou “cessar-fogo”. E confirma o ambiente de secretismo e de delação nos corredores. “Muitas pessoas da indústria participam nos protestos com máscara, com medo de serem reconhecidos.”

O mesmo sentimento é revelado pelo produtor judeu que mantém o anonimato. “Hoje é difícil articular uma conversa em Hollywood”, comenta. “Depois do ataque [do Hamas], comecei a ver o que se passava no Instagram, às Amy Schumers deste mundo. E, depois, os ativistas incríveis que seguia, sobretudo nas comunidades indígenas e latinas, também na comunidade afro-americana… Apesar de dizerem algumas coisas que me incomodavam, algumas deixavam-me a pensar. ‘Será que eu estou a ver isto de forma errada? Ou isto é mesmo antissemita?’ Estava literalmente confuso.”

Acabaria por ser abordado por um amigo e colega judeu, preocupado com o facto de, no meio da discussão, os reféns israelitas em Gaza ficavam esquecidos. Numa campanha para as redes sociais, pediram a várias individualidades que partilhassem fotos de reféns. Apesar das dúvidas que o assolavam, fê-lo. Aceitou o conselho de “desligar os comentários” e publicou.

As restantes publicações foram metralhadas com críticas, ao ponto de sentir que tinha que escrever um texto a justificar-se. “Só estive em Israel uma vez durante duas semanas. O que raio sei eu sobre isto?”, pensou. Depressa percebeu que, independentemente do que dissesse, iria sempre irritar alguém.

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