Cinema

O dia em que Isabel II escapou do palácio para dançar e beber com o povo

A história ganhou contorno de mito, mas foi bem real e deu origem a um filme.

Sarah Gadon envergou o tiara e conquistou a rara honra de, em 2015, ser uma das poucas atrizes a encarnarem a monarca britânica. “A Royal Night Out”, uma comédia romântica que imaginava as loucas celebrações do dia da vitória dos Aliados e do final da II Guerra Mundial. Isabel II e a irmã, Margarida, esgueiravam-se do Palácio de Buckingham para comemorarem o marco histórico junto do povo britânico, que enchera as ruas em êxtase.

Parecia um bom, leve e divertido pedaço de ficção, não fosse a história inspirar-se na realidade. Terá sido a única vez, no longo reinado de sete décadas de Isabel — que morreu esta quarta-feira, 8 de setembro, aos 96 anos — que se misturou com os seus súbditos. Tudo isto sem que se apercebessem de que, ao seu lado, estava a futura rainha.

O dia 8 de maio de 1945 representava, para a maioria dos britânicos, o fim de vários anos de racionamento de comida, de profunda crise e dificuldades. Naturalmente, assim que Winston Churchill comunicou ao país a “rendição incondicional” dos alemães, os britânicos libertaram-se de todas as amarras. Isso significava que seria dia (e noite) de festa rija, a dançar e a beber até à exaustão.

No Palácio de Buckingham moravam duas jovens, Isabel, de 10 anos, e Margarida, de 15. Cresceram sob a ameaça da guerra e, também elas, sentiram vontade de participar naquele que seria um dia único e irrepetível.

Escapar do palácio não era uma hipótese e, portanto, as duas jovens decidiram pedir autorização ao rei, o seu pai Jorge VI. Os pais resistiram, com medo de que a sua segurança pudesse ficar comprometida. Perante a insistência, foi alcançado um acordo: poderiam sair incógnitas do palácio, mas teriam que estar acompanhadas de um grupo de pessoas da confiança da família real. Seria uma equipa de 16 pessoas que zelariam por toda a segurança.

É sobretudo através dos membros deste grupo que se conhecem os detalhes de uma das mais longas noites de Isabel II. Curiosidade: nesse grupo estava Peter Townsend, o homem que mais tarde se apaixonaria por Margarida.

“Atravessamos o pátio de entrada do palácio e chegámos às grades, onde estavam enormes massas de pessoas que cantavam ‘queremos o rei e a rainha’. Juntamo-nos a eles e, para nossa surpresa, cinco ou dez minutos depois, as janelas abriram-se e vieram à varanda”, recordou a prima de Isabel II, Margaret Rhodes, num documentário sobre os acontecimentos do dia da vitória aliada. “Foi uma escapadela maravilhosa para estas duas raparigas. Acho que nunca tinham estado assim no meio de uma multidão de milhões. Sentiram a liberdade de ser uma pessoa comum.”

Isabel saiu à rua com um uniforme militar e Margarida escolheu um look mais civil, mas festivo. “Estávamos cheias de medo de sermos reconhecidas, por isso baixei o meu chapéu até aos olhos”, recordou em 1985 a própria rainha. “Um militar do nosso grupo disse-me que recusava estar ao lado de um oficial mal vestido, e por isso tive que voltar a ajeitar a farda.”

O grupo seguiu a pé para o centro de Londres. “Eu tinha um amigo que era guarda-costas da rainha e por isso reparei nela e na princesa Margarida, enquanto andavam pelas ruas de Londres. Ninguém prestou muita atenção”, revelou Jean Trumpington, futura Lady e deputada.

“Recordo-me de ver linhas de pessoas que não conhecia, de braço dado e a descerem Whitehall. Todos nós fomos levados nessa onda de alegria e alívio”, contou a rainha. “Lembro-me também de alguém ter trocado chapéus com um marinheiro holandês; o pobre homem foi obrigado a vir atrás de nós para o reaver.”

Pelas dez da noite, Isabel e Margarida já estavam em Trafalgar Square. “A praça estava completamente entupida. Era uma alegria total, as pessoas beijavam-se umas às outras, beijavam os polícias. Era um caos, um caos agradável”, contou Rhodes.

O grupo e as princesas alinharam no frenesim. Foi à porta do quase sempre formal Ritz que dançaram a conga. “O hotel era sempre tão emproado, creio que quem estava lá dentro ficou eletrizado com o que nós fizemos. E duvido que alguém tenha percebido quem é que estava no meio da festa daquele grupo, devem ter pensado que éramos apenas um grupo de jovens bêbados. Lembro-me de ver senhoras mais velhas completamente chocadas.”

No meio de toda essa loucura, os excessos eram perfeitamente normais e até aceitáveis. No regresso a Buckingham, já mais perto da meia-noite, cortaram caminho pelo Green Park e por St. James, caminhos pouco recomendáveis em dias normais. “Nunca teríamos passado por ali à noite, durante os tempos de guerra”, justificou Jean Woodrooffe, que fazia parte do grupo. “Vimos coisas perfeitamente normais, como pessoas a abraçarem-se e a beijarem-se, mas também vimos pessoas a fazerem amor”, recordou. “Fiquei chocada, nunca tinha visto algo do género em público.”

Em Buckingham, a noite era igualmente longa e pouco depois da meia-noite, o rei e a rainha continuavam a fazer aparições na varanda, a saudar os milhares que se acumulavam à entrada do palácio. “Conseguimos ver novamente os meus pais na varanda, enquanto mandávamos uma pequena mensagem secreta para o interior, para avisar que estávamos à espera cá fora para entrar”, contou Isabel II. “Acho que foi uma das mais memoráveis noites da minha vida.”

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