Cinema

“O Dilema das Redes Sociais”: o novo documentário da Netflix que toda a gente devia ver

O filme deixa no ar a dúvida: a este ritmo, quando tempo as nossas sociedades vão resistir à transformação operada pelas redes sociais?
No primeiro lugar do top da Netflix Portugal.

É um daqueles paradoxos bem interessantes no nosso tempo: “O Dilema das Redes Sociais” surgiu esta semana na Netflix e rapidamente foi catapultado para o primeiro lugar do top. O documentário põe em cheque as redes sociais e o impacto que as gigantes tecnológicas têm na nossa vida. Ao mesmo tempo, parte do sucesso do filme tem decorrido precisamente do passa-palavra nas redes sociais.

Há um momento ainda cedo no documentário em que ouvimos Justin Rosenstein, um antigo engenheiro informático da Google e do Facebook, falar de uma das criações em que participou: a criação do botão de like. A ideia era trazer só mais alguma positividade à rede social (e ao mundo). Quanta ingenuidade.

O like abriu caminho a algo que as redes sociais têm alimentado com o tempo: a ideia de validação social pelo outro, não apenas do nosso círculo íntimo de amigos e familiares mas de um círculo bem mais alargado. Nas gerações mais novas falamos de miúdos que já crescem neste contexto, que nunca conheceram um mundo pré-redes sociais. Sem supervisão, têm aumentado os casos de ansiedade, depressão e, no limite, até de suicídio. E são os pré-adolescentes e os adolescentes mais novos que têm sofrido mais com este fenómeno.

“O Dilema das Redes Sociais” é um trabalho de Jeff Orlowski, realizador de documentários que no passado já trabalhou temas em torno do meio ambiente. Este seu novo trabalho é o mais recente filme a expôr algo que nós sabemos a forma como os nossos dados são monetizados —, mas que ao mesmo tempo ignoramos durante boa parte do tempo ou então temos alguma ideia mas não a noção da dimensão a que as coisas se processam.

Quando se fala em inteligência artificial, o mundo da ficção-científica sempre nos deu obras em que os robôs se fartam da Humanidade e lá decidem avançar para a nossa extinção. No mundo real, os efeitos perniciosos de larga escala não surgem de um momento para o outro. As redes sociais crescem, evoluem e com elas vão surgindo mudanças que podem ser subtis quando vistas em períodos pequenos, mas em larga escala vemos que de facto algo mudou. E em muitos casos não foi para melhor.

Na prática, o que vemos é que o que acontece online tem cada vez mais impacto na vida real. Um caso curioso nos EUA mostrou até que ponto as coisas se podem processar. Um país não precisa de invadir outro para causar distúrbios. Em 2016, na corrida às presidenciais dos EUA, um grupo russo no Facebook organizou um protesto no Texas, enquanto um segundo grupo russo organizou um contra-protesto para o mesmo lugar. e hora Resultado: os eventos foram criados a milhares de quilómetros de distância e no entanto foi nos EUA que houve confrontos, com ambas as partes a serem levadas ao engano. O caos não precisa de bombas para rebentar.

O documentário do momento.

Como nos afastamos

A figura mais presente ao longo de “O Dilema das Redes Sociais” é Tristan Harris, que trabalhou na Google e entretanto criou a Center for Humane Society, que tem alertado para os perigos. Claro que as redes sociais conseguem coisas fantásticas, ligando pessoas em todo o mundo, permitindo reencontros que há bem poucos anos eram inimagináveis e dando até margem para que novas figuras se destaquem nas artes, e que antigamente poderiam ter sido ofuscadas.

Mas à medida que o tempo passa há aqui algoritmos que servem cada vez mais o modelo de negócio. E qual é o modelo de negócio de algo como o Facebook, um serviço usado gratuitamente por mais de dois mil milhões de pessoas? Os dados. São eles que permitem orientar cada vez mais as pessoas (e com isso servir os anunciantes).

Isto até poderia não ser tão pernicioso (se eu gosto de música, por exemplo, e o algoritmo me dá novas sugestões, isso não teria mal). Mas há uma diversidade de opinião que vai desaparecendo por aqui. As teorias da conspiração que proliferaram com o coronavírus são um exemplo disso mesmo: se não há uma definição em que todos concordamos sobre o que é a verdade, está aberto o caminho da discórdia.

Discordar, por si só, seria algo bem-vindo em democracia. Mas como o documentário realça, o que temos são pessoas cada vez mais fechadas em certo tipo de conteúdos: são bolhas que se criam. Isto gera uma polarização difícil de resolver. E todos nós já teremos visto ou sentido isso: entre esquerda ou direita na política, ou até no clube de futebol que torcemos, se somos sujeitos apenas a uma espiral de conteúdos que alimenta uma única visão do mundo, vamos tendo cada vez mais dificuldades em perceber que há outras perspetivas e com isso desumanizamos o outro.

Não somos particulares fãs das partes dramatizadas do documentário, isto mesmo contando com Vincent Kartheiser, uma das maravilhas de “Mad Men”, em destaque. Há um momento ao som de Nina Simone que deve algo ao bom gosto (e a culpa não é de Nina Simone). Há também pequenas partes que têm um look de reconstituição, isto quando abundam imagens por esse mundo fora de violência e confusão bem reais, com origem (ou pelo menos o contributo claro) das redes sociais.

Ao mesmo tempo, o documentário consegue evitar perder-se em excessos de moralismos: não há uma única solução para algo assim. Há quem aconselhe a simples saída das redes sociais mas também quem lembre que há coisas práticas que se podem fazer para contrariar os tais algoritmos que nos estimulam para certos caminhos, com dinâmicas que lembram as do vício.

Ainda assim, quando a dada altura de “O Dilema das Redes Sociais” voltamos a ver a expressão de póquer de Mark Zuckerberg quando questionado por entidades reguladoras, somos recordados de que há algo a fazer. Não só na hora de definir regras, mas também dos cuidados que nós próprios podemos ter, para que sejamos mais nós a usar as redes sociais e não o contrário.

 

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