Cinema

O estranho caso da loucura de Louis Wain: o pintor que dedicou a vida aos gatos

Viveu na pobreza e acabou internado num hospital psiquiátrico. É a figura central do novo filme de Benedict Cumberbatch, que estreia esta semana em Portugal.
Wain é um caso de estudo de psiquiatria

Louis Wain tinha 23 anos quando assumiu a relação com Emily Richardson, a governanta da casa onde vivia com as cinco irmãs. O facto de ser 10 anos mais novo do que a mulher com quem casaria provocou um pequeno escândalo na comunidade.

Casaram em 1883, mas a alegria do matrimónio durou pouco. Emily adoeceu pouco tempo depois, vítima de cancro da mama, e coube a Wain ajudá-la durante o período de doença prolongada.

Foi para a animar que puxou do seu caderno e se dedicou a ilustrar Peter, o gato doméstico que lhes fazia companhia. O animal preto e branco é a figura de muitas das suas obras iniciais focadas nos gatos. Foi através dele que descobriu o talento que o tornou mundialmente famoso.

As ilustrações de gatos com a assinatura de Wain haveriam de conquistar o seu espaço em livros e jornais britânicos. E mais de 80 anos após a sua morte, o artista tem direito à sua própria biografia cinematográfica em “A Vida Extraordinária de Louis Wain”, onde o papel principal é entregue a Benedict Cumberbatch.

A produção da Amazon Studios é assinada por Will Sharpe e acompanha a vida de Waine, que contracena com Claire Foy (“The Crown”) no papel de Emily Richardson. Conta ainda com aparições de Taika Waititi, Nick Cave — conhecido fã de Wain — e Olivia Colman. O filme estreia esta quinta-feira, 20 de janeiro, nos cinemas portugueses.

As caricaturas do animal de estimação deveriam ter-se mantido secretas. Eram feitas apenas para animar Richardson, mas acabaram nas mãos dos editores de Wain, que adoraram os retratos e avançaram com algumas peças para impressão. Um pedido especial resultou na criação de uma das suas obras mais conhecidas, “A Kitten’s Christmas Party”, que incluía mais de 150 gatos e foi publicada no “The Illustrated London News”.

As pinturas de gatos elevaram-no a um estatuto de celebridade, algo que nunca havia acontecido em tantos anos de trabalho como ilustrador freelancer, habituado a pintar cenários de casas e de animais a pedido. A convivência com Peter, o gato de Emily, levou-o a descobrir o seu verdadeiro talento.

Os retratos dos gatos ganharam uma vida própria. Rapidamente se transformaram em seres que andavam em duas patas e imitavam atividades humanas, jogavam cartas, críquete, bebiam e comiam. O tom humorístico e as expressões faciais humanas dadas aos animais foram um incrível sucesso

Os desenhos tornaram-se tão populares que não havia casa que não tivesse um par de gatos de Wain. “Ele criou os seus próprios gatos. Inventou um estilo de gato, uma sociedade, um mundo só de gatos”, escreveu sobre o ilustrador o famoso autor britânico H.G. Wells.

A fama era estranha a Wain. Nasceu com um lábio leporino e só começou a frequentar a escola com apenas 10 anos, apesar de raramente marcar presença. Acabaria por fazer uma formação em artes numa escola de Londres, onde chegou a ser professor, antes de procurar um novo emprego que o ajudasse a suportar financeiramente a família.

Era o mais velho de cinco irmãs solteiras e, após a morte do pai em 1880, tornou-se ele o homem da casa. Seria sobre ele que caía a responsabilidade de pagar todas as despesas das irmãs — que nunca casaram — e da mãe.

O seu jeito para o desenho foi requisitado por vários jornais, numa altura em que não era possível reproduzir fotografias nas suas páginas. Mas foi através de uma relação criticada com a governanta que encontrou o seu maior sucesso e a sua maior mágoa.

O cancro de Richardson haveria de ser fatal. Emily morreu em 1887, quatro anos depois do casamento. Apesar do reconhecimento, a depressão e a ansiedade tomaram conta da vida de Wain.

Viúvo e responsável por apoiar o resto da família, Wain penou. Era descrito como um homem modesto e ingénuo, que era habitualmente enganado em quase todos os negócios. Apesar do sucesso, o dinheiro mal chegava para pagar as contas.

A sua felicidade eram os gatos, os retratos coloridos e animados que fazia e que ajudaram também a proteger, de certa forma, os animais. Isto numa época em que poucos se preocupavam com quaisquer direitos que pudessem ter. O britânico fez parte de várias associações de apoio aos animais. Foi inclusivamente o presidente do National Cat Club.

Os seus desenhos percorreram o mundo, das paredes de hospitais a livros de crianças e até postais. Contudo, a depressão nunca o largou e os primeiros anos do século XX ficaram marcados por mudanças comportamentais inexplicáveis.

Wain começou a demonstrar um comportamento ocasionalmente violento e, aos 64, acabaria por ser internado num hospital psiquiátrico, na ala dedicada aos pobres. Marie, a sua irmã mais velha, tinha 34 anos quando foi internada pelos mesmos motivos — e morreria 12 anos depois, em 1913.

Além da fama pelas suas obras incomuns, Wain haveria de ser alvo de estudo pela forma como a doença mental influenciou a sua pintura. É hoje analisado em muitos livros de psicologia, com muitos especialistas a fazerem um diagnóstico de esquizofrenia, sobretudo assente numa análise da sua obra.

Os gatos de Wain ganhavam vida e feições humanas

Os gatos tornaram-se mais coloridos, mais abstratos, num corte radical com a linha de obras anteriores. Durante décadas, os seus problemas psicológicos foram atribuídos precisamente à sua relação íntima com os gatos. Apesar de nunca ter sido comprovada uma ligação, acreditava-se que a toxoplasmose — doença provocada por um parasita que se encontra nas fezes dos gatos — podia potenciar o surgimento da esquizofrenia.

Wain acabaria por passar o resto da sua vida em hospitais psiquiátricos, mas com a ajuda de vários notáveis, encontrou refúgio em lares mais confortáveis, longe das alas destinadas aos mais desfavorecidos. Continuou a pintar em Napsbury, no norte de Londres, onde tinha a companhia de dezenas de gatos.

O diagnóstico de esquizofrentia tem, no entanto, sido contestado por vários especialistas, que apontam noutra direção: Wain poderia ser autista. É o caso de Michael Fitzgerald, psiquiatra que em 2001 publicou um artigo a que analisava a mente de Wain através da pintura.

“Louis Wain não tinha esquizofrenia mas sim síndrome de Asperger. É muito fácil confundir alguém com crenças bizarras com esquizofrenia e pensar que essas crenças configuram um transtorno do pensamento”, escreveu. “[Wain] não mostrou qualquer deterioração na sua aptidão como pintor e isso manteve-se até ao fim da sua vida.”

Embora confirme tratar-se de um indivíduo “excêntrico, porém brilhante”, frisa que era um “homem solitário”, frequentemente “maltratado na escola”, tal “como acontece com muitas pessoas com Asperger”. “Ele era muito ingénuo e sim, passou por uma fase de paranóia psicótica, tal como Isaac Newton, mas o diagnóstico fundamental continua a ser Asperger — habitualmente confundido com esquizofrenia em adultos.”

Wain acabaria por morrer aos 78 anos, em 1939.

A progressão dos gatos desenhados ao longo da vida de Wain

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