Cinema

O “filme da vida” de Francis Ford Coppola já estreou. Está a ser arrasado pela crítica

"Megalopolis" custou 100 milhões ao cineasta. Há quem diga que é uma "monstruosidade estupidificante".
Coppola em Cannes

Em Hollywood, o seu nome é sinónimo de lenda. Na década de 70, o toque dourado (e uma bem servida dose de loucura) de Francis Ford Coppola levou-o a criar obra-prima atrás de obra-prima. À cabeça, a trilogia “O Padrinho” e o épico “Apocalypse Now”, duas produções sobre as quais continuam a surgir documentários que esmiúçam e relatam verdadeiros contos inacreditáveis sobre o que aconteceu atrás das câmaras.

Quando Coppola fala, Hollywood ouve. E a 28 de março, o cineasta falou e convidou a indústria para aparecer no Universal CityWalk em Los Angeles, para assistir ao primeiro visionamento oficial do seu novo filme, o seu “projeto de uma vida”. Os pesos pesados do cinema e do streaming sentaram-se lado a lado e assistiram a “Megalopolis”. No final, entre sorrisos, admitiram deixar a sua opinião à imprensa — em anonimato. Ninguém quis ser o tipo que grita “o rei vai nu”.

“[O filme] não é nada bom. É triste assistir a isto”, confessou o diretor de um estúdio ao “The Hollywood Reporter”. “Não era assim que Coppola deveria terminar a sua carreira como realizador.”

Dois meses depois, Coppola levou o seu “Megalopolis” a Cannes, onde recebeu uma ovação de sete minutos. Poderá parecer muito, mas os sete minutos são uma espécie de pro forma mínimo no que toca a ovações no festival francês. Prova disso são as reações que foram chegando à medida que se abriram as comportas às críticas oficiais ao filme, que inclui um elenco com nomes como Adam Driver, Giancarlo Esposito, Jon Voight, Laurence Fishburne e o polémico Shia LaBoeuf.

Mais do que aplaudir o que foi exibido nas mais de duas horas do drama distópico, a plateia quis honrar Coppola, que recebeu uma longa ovação logo à entrada da sala. No final, os agradecimentos foram sentidos, ainda que a emoção esteja ausente do filme. O cineasta sabe-o.

Há 40 anos na gaveta de Coppola, “Megalopolis” é apenas o quarto filme que realiza desde 1997. Um filme que o forçou a vender a enorme quinta em Napa Valley onde produzia o seu vinho — tudo para arranjar os 120 milhões para pagar, do seu bolso, toda a produção. Aos 85 anos, exibia uma “energia única” nos bastidores, apesar de os seus métodos chocarem com as equipas, que foram revelando à imprensa as discussões constantes. “Parece uma loucura dizer isto, mas houve momentos em que estávamos todos parados no set a olhar uns para os outros e a pensar: ‘Este tipo alguma vez fez um filme?”, revela o “The Guardian”.

Entre os críticos especializados, há duas frentes: a que ataca impiedosamente a produção; e a que procura olhar para o filme sem a expectativa que o nome de Coppola traz. Mas todos concordam: está longe de ser uma obra-prima digna do cineasta. “Uma egoísta e confusa amálgama de ideias — no melhor dos sentidos”, atirou a “Time”.

“É como ouvir alguém contar-te o sonho maluco que teve na noite anterior — sem parar e durante mais de duas horas”, arrasa o crítico da “BBC”. Daqui para a frente, é sempre a descer. “É difícil de acreditar que o brilhante realizador que fez ‘O Padrinho’ e ‘Apocalypse Now’ foi capaz de criar esta monstruosidade, que é má de tantas e diversas formas, do guião insípido à realização horrível, passando pelo casting bizarro”, nota o crítico Peter Howell.

Raphael Abraham, do “Financial Times”, encontra um lado positivo. “Talvez a coisa mais simpática que poderemos dizer sobre o filme é que será visto por pouca gente e, assim, será rapidamente esquecido.”

O crítico do britânico “The Times” também dispensou quaisquer delicadezas. “São 138 estupidificantes minutos de temas mal engendrados, de cenas que ficam a meio, performances irritantes, diálogos atabalhoados e visuais horrendos, em busca de uma história que não existe.”

Como sempre, há nuances. Fora dos EUA, as críticas têm sido mais benévolas, mas há quem encontre uma faceta positiva na história que tem lugar numa cidade fictícia, Nova Roma, numa sociedade distópica que se reergue depois de um desastre devastador. Um arquiteto idealista com capacidade de controlar o tempo procura comandar essa reconstrução, mas terá pela frente um autarca corrupto que pretende apenas manter o status quo.

“É exatamente o filme que Coppola quis fazer — sem compromissos, unicamente intelectual, desavergonhadamente romântico, satírico e, ao mesmo tempo, sincero, em busca não apenas de admiráveis mundos novos, mas de mundos melhores”, aponta a “Rolling Stone”.

“É tudo menos preguiçoso e embora muitas das ideias não sejam concretizadas conforme planeado, é o tipo de feito de final de carreira que os fãs quereriam ver do cineasta, ele que nunca perdeu a fé no cinema”, explica a “Variety”. Já o crítico da “New York Magazine” é fã: “É, provavelmente, a coisa mais louca que já vi. Estaria a mentir se dissesse que não adorei cada doido segundo do filme.”

De volta ao visionamento de 28 de março e à plateia recheada de responsáveis dos estúdios, uma dúvida assolava os grandes magnatas da indústria: Coppola gastou mais de 100 milhões na produção, mas terá que arranjar quem pague a distribuição, a promoção e o marketing. A ambição para “Megalopolis” obrigaria a um investimento semelhante ao da produção, acima dos 100 milhões. Quem é que se atreve?

“Simplesmente não há como posicionar este filme”, revelou um dos presentes à “The Hollywood Reporter”. “Se o Francis estiver disposto a suportar ou a apoiar os gastos, acho que haveria muito mais partes interessadas”, notou outro presente que preferiu o anonimato. “Embora todos torçam por ele e sintam alguma nostalgia, há o lado comercial das coisas e ninguém quer perder dinheiro.”

Até à data, Coppola garantiu ainda antes de Cannes a distribuição em cinco países europeus, entre eles o Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha. A distribuição nos EUA, o maior mercado, não está ainda fechada.

O cineasta não parece muito preocupado. “Não tenho quaisquer problemas financeiros”, explica sobre o financiamento próprio do projeto. “Outra coisa: todos os meus filhos, sem exceção, têm maravilhosas carreiras sem necessitarem de uma fortuna. Não precisam do meu dinheiro. Aconteça o que acontecer, ficaremos bem. O dinheiro não é importante“, explicou na conferência de imprensa que antecipou a estreia do filme em Cannes. “O importante são os amigos. Um amigo nunca te deixa ficar mal. O dinheiro? Esse pode evaporar-se.”

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