Cinema

O filme de “Dune” que nunca foi feito — mas que seria o mais épico de sempre

Nos anos 70, Jodorowsky tentou uma versão com Salvador Dalí, Mick Jagger e os Pink Floyd. Não avançou mas influenciou o cinema.
O novo "Dune" já está nos cinemas.

“Dune” é uma obra maior da cultura pop. Foi o início de uma saga literária de culto assinada por Frank Herbert. Deu origem ao mal-amado filme de David Lynch, nos anos 80, e agora está de novo nos cinemas, com a adaptação de Denis Villeneuve. Mas a primeira vez que alguém tentou levar este marco da ficção científica ao grande ecrã foi Alejandro Jodorowsky. O filme nunca foi feito, mas tratou-se de um projeto épico que influenciou o cinema que se seguiu.

Jodorowsky pode não ser um nome conhecido do grande público. Mas nos anos 70, o cineasta chileno — que hoje tem 92 anos — tornou-se conhecido pelos seus filmes surrealistas. Eram obras com uma estética associada ao movimento hippie e às drogas psicadélicas que fez sucesso.

“El Topo” e “The Holy Mountain” — este último parcialmente financiado por John Lennon — foram os seus dois principais filmes. Vistos hoje, poderiam ser considerados profundamente bizarros. Na altura, foram sucessos de bilheteira — especialmente nas sessões mais tardias. Tanto que um produtor francês, Michel Seydoux, contactou Jodorowsky em 1974 para financiar o seu próximo filme.

Como recebeu carta branca para produzir uma obra, e havia em cima da mesa um orçamento bastante generoso, o cineasta virou-se para “Dune”, que tinha sido publicado nove anos antes. Esta é uma história passada num universo de fantasia, com várias fações e planetas. No centro da narrativa está Paul Atreides, filho dos lordes do planeta Caladan.

Os Atreides são enviados pelo imperador da galáxia a outro planeta, o árido e desértico Arrakis. Lá terão de gerir a exploração de uma especiaria valiosa com propriedades especiais. Os Harkonnen, outra fação que até aqui governava Arrakis, abandonam o planeta — mas na verdade tudo se trata de uma conspiração orquestrada com o Imperador.

Paul Atreides perceberá que pode vir a ser o Messias de que há muito se fala. O seu destino está ligado ao dos Fremen, a espécie nativa de Arrakis, habituados a viver no deserto e que estavam em conflito com os Harkonnen.

Jodorowsky durante o período em que preparou “Dune”.

Alejandro Jodorowsky não queria apenas adaptar este complexo universo ao cinema — numa altura em que os efeitos especiais visuais eram ainda bastante rudimentares. Como recorda no documentário de 2013 “Jodorowsky’s Dune”, precisamente sobre o filme que nunca foi feito, o seu objetivo era “mudar a perceção do público”, “alterar as jovens mentes de todo o mundo” e criar um “deus artístico e cinematográfico”.

O cineasta sempre abordou o projeto com esta mística grandiosa. Por exemplo, escreveu o guião num castelo. Quando começou a pensar em possíveis colaboradores, não limitou de todo as suas ambições ao pensar nos seus “guerreiros espirituais”, como descrevia os colegas.

Contratou Jean “Moebius” Giraud, aclamado artista francês de banda desenhada, que criou um storyboard de três mil desenhos a partir do argumento. O guião tinha alterações significativas em relação ao enredo criado por Frank Herbert. Para os efeitos visuais, foi buscar Dan O’Bannon, que tinha trabalhado com o realizador John Carpenter. Já a banda sonora seria composta pelos Pink Floyd, banda que tinha acabado de lançar o álbum “Dark Side of the Moon”.

A seguir, o chileno começou a formar um elenco. Orson Welles, Mick Jagger, Udo Kier e David Carradine eram alguns dos nomes confirmados. Paul Atreides, o protagonista, iria ser interpretado pelo próprio filho do realizador, Brontis Jodorowsky. Aos 12 anos, começou a ser treinado para o papel. Tinha aulas de artes marciais durante seis horas por dia, todos os dias da semana, durante os dois anos em que o filme esteve a ser preparado.

Orson Welles aceitou participar no filme depois de o cineasta lhe ter prometido um jantar no seu restaurante favorito de Paris todas as noites de rodagem. Mas a história mais surreal deste projeto teve mesmo a ver com o pintor Salvador Dalí. Alejandro Jodorowsky queria que o ícone do surrealismo interpretasse o imperador.

O excêntrico Dalí disse estar interessado, mas impôs várias condições. Que aumentaram cada vez que o projeto ia avançando. O pintor exigiu que o trono do imperador consistisse numa sanita com dois golfinhos que se cruzavam. Os seus amigos tinham de interpretar os conselheiros do imperador. E Dalí não estava interessado no guião e queria criar as próprias falas. Além disso, sonhava em ser o ator mais bem pago de sempre em Hollywood, pelo que pediu um salário de 100 mil dólares à hora (o equivalente a 85 mil euros). Mais tarde, seriam 100 mil dólares por minuto.

Jodorowsky aceitou — apesar de ter cortado as cenas ao Imperador, fazendo com que Dalí não tivesse de trabalhar durante mais de dez minutos. E haveria uma figura robótica capaz de fazer a maioria das cenas do Imperador. Dalí concordou, se ficasse com o robô no final do filme. Mas ainda pediu uma “girafa a arder”, como no título da sua pintura. “Dune” iria ter um orçamento de cerca de 15 milhões de dólares, o que para aquela altura era de uma enorme dimensão.

Foi precisamente por falta de fundos — e de uma descrença crescente no projeto ultra ambicioso — que o filme acabou por não avançar. Os estúdios de Hollywood queriam que “Dune” tivesse cerca de duas horas de duração. Jodorowsky tinha pensado num filme com dez ou 12 horas. Terá sido esse um dos maiores fatores para que não se concretizasse. Dois anos depois das últimas negociações do chileno com Hollywood, estreava “Star Wars”, uma saga de ficção científica que os estúdios preferiram apoiar.

Ainda assim, todo o trabalho de preparação que foi feito não se revelou um completo desperdício de tempo e dinheiro. O guião, storyboard e design preparados pelos artistas percorreram Hollywood e deixaram um legado. A sua influência é visível em “Exterminador Implacável”, “Flash Gordon” ou “O 5.º Elemento”, entre outros filmes.

O’Bannon foi trabalhar com Ridley Scott no primeiro “Alien” — e levou consigo vários dos seus colegas franceses que conhecera em “Dune”. O próprio Jodorowsky e Giraud usaram o material que tinham para construírem uma saga de novelas gráficas intitulada “The Incal”.

Leia a crítica da NiT ao novo “Dune” — e saiba no que é que Frank Herbert se inspirou para criar esta história. Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano.

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