Cinema

O filme mais perturbador do ano provocou desmaios na estreia (é difícil de engolir)

"Swallow — Distúrbio" é um thriller psicológico marcadamente feminista, mas que também revela um perigoso distúrbio mental.
Haley Bennet é a protagonista principal

“Swallow — Distúrbio” fez a sua estreia em 2019, no Festival de Cinema de Tribeca. Anunciado como um thriller psicológico, nem todos na plateia sabiam o que os esperava. Na sala estava o realizador estreante, Carlo Mirabella-Davis, que ao sair se deparou com um cenário inusitado.

“Saí e encontrei uma pessoa visivelmente abalada. Disse-me que tinha acabado de desmaiar”, recordou Mirabella-Davis à “Indiewire”. “Começou a sentir-se quente e com vontade de vomitar. Acabou por desfalecer e colapsar.”

A mulher não resistiu a uma das cenas mais chocantes do filme, quando a protagonista coloca uma tacha na boca e a engole. “Disse que não conseguia processar, na sua cabeça, a eventual digestão do objeto”, explicou o realizador, que estava bem ciente do poder de algumas das imagens usadas no filme que dirigiu e escreveu.

Apesar da estreia ter acontecido em 2019, só agora é que “Swallow — Distúrbio” estreou-se nos cinemas portugueses a 27 de janeiro. No papel principal está Haley Bennett, atriz de filmes como “Hillbilly Elegy“, “Cyrano“, “The Devil All the Time” ou “The Magnificent Seven“.

A história de Mirabella-Davis leva-nos para uma realidade confusa, onde a personagem principal, Hunter, encarna uma típica mulher doméstica dos anos 50, mas inserida num mundo moderno. O thriller psicológico revela-se de forma sorrateira.

Hunter vive com o marido Richie (Austin Stowell), cozinha, veste as suas melhores roupas e está sempre em casa, disponível para lhe agradar. Feliz à superfície, miserável no interior, vê-se colocada entre a espada e a parede quando descobre que está grávida.

Enclausurada numa vida endinheirada, mas profundamente triste, desenvolve um distúrbio mental raro e perturbador. Hunter encontra em objetos aparentemente comuns a sua forma de rebeldia, de trazer alguma excitação ao seu dia a dia, de retomar o controlo da sua vida. E o que é que faz com eles? Engole-os.

O distúrbio real chama-se Pica e é classificado como um transtorno alimentar que faz com que indivíduos desenvolvam uma fixação por comer objetos que, em casos extremos, podem ser fatais. Hunter começa por mastigar pedaços de gelo e rapidamente avança para opções mais perigosas. Durante o filme, a personagem engole berlindes, dedais, clipes, tachas, pilhas e até um prego.

Idealizada por Mirabella-Davis, a história tem algo de autobiográfico. O argumento foi inspirado nas memórias que o realizador guardava da sua avó, uma dona de casa presa num casamento infeliz e que, por isso mesmo, desenvolveu alguns “rituais de controlo”.

“Lavava as mãos obsessivamente. Chegava a gastar quatro sabonetes por dia e 12 garrafinhas de álcool por semana”, revela Mirabella-Davis. Acabaria por ser internada num hospital psiquiátrico, onde foi sujeita a tratamento com eletrochoques e até uma lobotomia, procedimentos habituais à época.

“Sempre achei que havia algo de punitivo, que estaria a punir-se por não corresponder às expectativas que a sociedade tinha sobre o que é ser uma esposa ou uma mãe”, conta. “Mas ao adaptar a história, pensei que o lavar de mãos não era propriamente cinematográfico.”

Uma imagem que encontrou na Internet ajudou-o a encontrar o caminho certo. “Vi uma fotografia dos conteúdos retirados do estômago de um sofredor de Pica e senti-me atraído pela ideia”, lembra. “Também tenho os meus rituais obsessivo-compulsivos e de controlo, e por isso, também queria fazer um filme sobre as pequenas rebeliões privadas contra o status quo e o patriarcado.”

Bennet também ficou fascinada com o distúrbio mental, ao ponto de passar horas a pesquisar sobre o tema. “Eu e o Carlo trocávamos vídeos que encontrávamos de pessoas com Pica. Havia um interessantíssimo, de uma mulher que comia pedras. ‘Sim, vou ao jardim, apanho as pedras e como-as. Elas chamam por mim, falam comigo e eu adoro’, dizia. Estava fascinada”, disse à “AVClub”.

Transportar o transtorno para o ecrã não foi fácil. “Swallow — Distúrbio” aposta não só nos visuais, mas sobretudo nos efeitos sonoros dos berlindes a roçarem nos dentes da protagonista, como forma de transmitir de forma mais fácil a perturbadora sensação. “Podes fechar os olhos e não ver o que está a acontecer, mas todos os outros sentidos funcionam”, explica a atriz, que levou a experiência ao limite.

A fotografia é um dos pontos fortes do filme.

Se pus os objetos na boca? Sim. O berlinde, a tacha. Toda a gente me pediu para evitar fazê-lo, mas queria perceber qual era a sensação. Claro que não os engoli, mas queria perceber o que é ter aquelas coisas na boca”, explica. “Menos a pilha, isso talvez fosse demasiado perigoso.”

Para ajudar a tornar o retrato mais realista, foi contratado um psicólogo especializado no tema, que trabalhou na produção como consultor. Atualmente, a Pica é considerada uma doença mental que consiste no “consumo persistente de substâncias não-alimentares.”

Surge habitualmente acompanhada por outra condição ou doença. Pode surgir, por exemplo, tal como acontece no filme, durante a gestação. Os desejos de gravidez são o parceiro mais comum da Pica e explicam-se por uma carência de ferro e/ou uma anemia.

Além de poder dar origem a infeções, obstruções intestinais e potencialmente envenenamento por chumbo, os detritos e objetos podem ficar acumulados no estômago, criando uma massa que só pode ser removida cirurgicamente — e que pode resultar na morte do paciente.

A fotografia que inspirou Mirabella-Davis e que está em exibição no Museu Psiquiátrico de Glore, nos Estados Unidos, é uma das mais antigas provas da existência do distúrbio. Mostra os 1.446 pequenos objetos metálicos removidos do estômago de um paciente em 1929, que morreu durante a cirurgia. Entre eles, estavam pregos, parafusos, colheres e muitos outros.

Perante este cenário, Bennett deixa um conselho: “O melhor é ver o filme depois de jantar.”

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