Cinema

O novo filme de Pedro Almodóvar é uma homenagem às mães que não o querem ser

Até pode parecer uma novela, mas nada do que o realizador faz é superficial. A Guerra Civil Espanhola também entra na narrativa.
Milena Smit e Penélope Cruz vivem duas mães que têm filhos no mesmo dia.

Após uma primeira visualização, “Mães Paralelas”, o novo filme de Pedro Almodóvar que estrou no País a 30 de novembro, pode ser comparado a uma telenovela. Mas todos aqueles que estão familiarizados com o trabalho do realizador espanhol sabem que as suas histórias vão sempre mais além do visível no imediato. Com a mais recente produção, a narrativa não se desenrola apenas à volta de duas mães com mais em comum do que aquilo que pensam, mas também sobre a ferida provocada pela Guerra Civil Espanhola — e que ainda não cicatrizou.

“A memória histórica é uma questão em aberto em Espanha, o país tem um dever moral para com as famílias dos desaparecidos, aqueles que foram enterrados em fossas. Não podemos encerrar a nossa história recente sem abordar essa questão”, contou Almodóvar ao jornal italiano “Repubblica”.

Porém, o coração do filme reside na questão da maternidade. Milena Smit interpreta Ana, uma adolescente que engravidou após uma violação. Penélope Cruz é Janis, uma fotógrafa de meia-idade que esconde um segredo obscuro. Ambas vivem realidades bastante diferentes — enquanto Janis ficou entusiasmada por ter um filho, Ana foi-se abaixo — e acabam por ficar ligadas graças ao nascimento dos bebés no mesmo dia. As duas mulheres acabam por se apoiar uma à outra nos momentos mais difíceis, mesmo depois de terem alta do hospital.

“Mães Paralelas” conta com vários fatores do género melodrama: relações conturbadas entre mães e filhas, suspeitas sobre a identidade dos pais e mortes inesperadas — tudo elementos que não são estranhos ao universo criativo de Pedro Almodóvar.

“Tenho andado interessado nas mães imperfeitas”, disse o realizador numa conferência de imprensa. Para isso, recorreu a uma progenitora que assim se tornou por obrigação e a outra que não abre mão da própria liberdade para tomar conta do filho. Nenhuma delas acaba é humilhada ao longo do filme. Afinal, estes são sentimentos reais ligados à maternidade sobre os quai muitas evitam falar. “Confiei à Penélope uma nova personagem, mais difícil do que as que ela havia enfrentado no passado. A minha experiência com mães foi a base desta história, visto que conheci algumas que não tinham qualquer instinto materno.”

No segundo plano está sempre presente uma narrativa entrelaçada com o passado histórico de Espanha, que se materializa no “dilema moral de uma mulher que quer encontrar o corpo do bisavô assassinado pelos franquistas durante a Guerra Civil.” O realizador conta que este “é um assunto ainda por resolver na sociedade espanhola.” E acrescenta: “Temos uma enorme dívida moral para com as famílias dos desaparecidos” e reforça a necessidade de novas produções cinematográficas ligadas àquele período do país, que começou em 1936 e terminou em 1939.

“Atualmente, são os netos e bisnetos que pedem a exumação [dos familiares desaparecidos durante a guerra], pessoas que já nasceram na democracia. As gerações anteriores tinham um medo quase patológico de falar nisto. Na minha casa nunca se falava da guerra”, frisa, assinalando a mudança de paradigma e de mentalidades que se vive atualmente em Espanha.

Penélope Cruz: a musa

“Mães Paralelas” é a oitava colaboração entre Almodóvar e Cruz, que vingou na carreira graças ao realizador. “O Pedro é a razão de eu ser atriz. Aos 16 anos, depois de ver ‘Ata-me’, saí do cinema e disse: ‘vou fazer um casting. Quero ser atriz para conseguir trabalhar com ele’. Dois anos depois, ligou-me a dizer que ia escrever uma personagem para mim no seu próximo filme. É um prazer trabalhar com ele, nós comunicamos bem — e é uma caminhada mesmo quando se torna difícil. O Pedro é o meu abrigo e sei que aconteça o que acontecer estará lá”, diz a atriz ao jornal italiano.

Almodóvar também não poupa nos elogios à sua musa. “A Penélope nunca me bombardeia com mensagens, mas eu sei que espera sempre ser a primeira a receber um papel. Quando escrevo uma personagem que se assemelha a ela, é certamente a primeira pessoa com quem falo. Admiro-a muito como atriz, mas acima de tudo entendemo-nos, falamos a mesma língua. Sou um realizador que pede muito, e ela faz tudo o que pode. Tem uma fé cega em mim que me dá coragem e força, é uma trabalhadora árdua.”

Pedro Almodóvar e Penélope Cruz já trabalharam juntos oito vezes.

O novo filme de ambos começou a ser desenvolvido em 1999, e foi nesse mesmo ano, durante a digressão promocional de “Tudo Sobre a Minha Mãe”, que o realizador o revelou à atriz. Embora só tenha passado do papel para o cinema duas décadas depois, Cruz foi a primeira pessoa a quem Almodóvar ligou. “Disse-me: ‘peguei naquela história outra vez, aquela que já te tinha falado, e estou a escrevê-la para ti'”, revelou durante uma conversa com a “Variety”.

“Mães Paralelas” estreou no Festival de Cinema de Veneza a 1 de setembro, e tornou-se no primeiro projeto espanhol a abordar o tópico da maternidade no evento.

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