Cinema

“O Pai” é um filme muito triste — mas obrigatório para todos

Esteve nomeado para seis Óscares e estreia a 6 de maio nos cinemas. A NiT já o viu. Anthony Hopkins é a grande estrela.
O filme estreia a 6 de maio em Portugal.
80

Só estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 6 de maio, mas antes disso esteve em destaque na cerimónia dos Óscares, onde venceu duas estatuetas douradas. Realizado pelo dramaturgo Florian Zeller, a partir de uma peça de teatro escrita por si, “O Pai” esteve nomeado para seis categorias.

Este é um drama devastador — e com uma fórmula bastante original — sobre algo com que praticamente todos nos conseguimos relacionar. “O Pai” conta uma história sobre demência mental. Mais do que uma história, é um retrato sobre esse período muitas vezes inevitável de muitas vidas — e de como é difícil quando voltamos a ser dependentes. Quase toda a gente teve de lidar com esta questão, seja com um pai, um avô ou outra pessoa, e é um daqueles filmes que facilmente nos deixam a refletir sobre a nossa própria vida.

Anthony Hopkins interpreta Anthony, um idoso que vive num casarão em Londres. É visitado regularmente pela filha (Olivia Colman) mas já precisa de ajuda profissional. Apesar disso, recusa-se a receber cuidadoras em casa e insiste que os esquecimentos que vai tendo não são assim tão significativos.

Não demora muito até percebermos que aquilo que não parece assim tão sério é realmente preocupante. Ou seja, se Anthony nos consegue quase convencer no início de que a filha talvez esteja a exagerar um pouco, ao longo do filme vamos percebendo as enormes dificuldades que ele atravessa.

O filme está brilhantemente realizado do ponto de vista de Anthony. A narrativa está completamente fragmentada, porque durante uma hora e 37 minutos vivemos na cabeça de um idoso com claros sinais de demência.

Anthony não tem uma noção temporal correta, troca a cara das pessoas — literalmente há vários atores a interpretar as mesmas personagens — e deixa de as reconhecer. Baralha pensamentos, intenções, emoções, enfim, tudo. Por vezes não sabemos se estamos no tal casarão, ou numa casa próxima (com uma decoração diferente) onde vive a filha, ou se estamos, por exemplo, numa clínica. Os detalhes vão mudando ligeiramente, deixando-nos a todos confusos. A realidade é-nos apresentada de forma turva de uma maneira muito subtil.

É uma viagem por uma mente demente que nos deixa perdidos, à procura de lógica em todos os pormenores — e conseguimos encontrar excertos coerentes — para mais tarde percebermos, inevitavelmente, que não temos onde nos agarrar. Obviamente, esta jornada só tem um destino — e invariavelmente ele é triste, embora seja do mais natural que existe.

Além de nos colocar na pele de Anthony, Florian Zeller também nos dá a perspetiva muitas vezes ingrata de quem está do outro lado — neste caso, a filha interpretada por Olivia Colman. Muitas vezes todo o esforço e cuidado que se tem não é de todo reconhecido porque, lá está, a pessoa mais velha nem sequer se apercebe de (ou não aceita) que está naquela situação.

Anthony Hopkins faz um dos melhores papéis da sua carreira — e a nomeação para o Óscar de Melhor Ator (e para tantos outros prémios) é justíssima, ainda que a competição seja forte. O britânico de 83 anos dá uma autenticidade ao papel, que é relativamente elástico, que nos deixa assoberbados. É ele a grande estrela do filme, embora Olivia Colman seja, claro, uma excelente atriz.

“O Pai” é um daqueles filmes impactantes, emocionalmente pesados, mas completamente obrigatórios — mesmo para aqueles que possam estar a viver uma situação idêntica e possam estar num estado mental frágil quanto a isso. É um caldo de emoções construído de forma muito perspicaz, que não é de todo gratuito, onde há alicerces sólidos por toda a parte. É um daqueles filmes que prometem ficar com o espectador muito depois de ele sair do escuro da sala de cinema. E essa é a melhor qualidade que podemos apontar a um filme.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT