Cinema

O pequeno desconhecido que brilhou nos maiores blockbusters de Hollywood

Kiran Shah é o duplo mais pequeno do mundo. Sobreviveu ao Titanic, foi um ewok em "Star Wars" e ficou famoso em "O Senhor dos Anéis".
Kiran Shah foi duplo de Frodo e dos hobbits

“Star Wars”, “Super-Homem”, “Aliens”, “Braveheart”, “Titanic”, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, “O Senhor dos Anéis”, “A Guerra dos Tronos”. O seu currículo é tão entusiasmante quanto cansativo. É blockbuster atrás de blockbuster, numa lista que muitos atores e atrizes invejariam, quanto não seja pela experiência de viver o ambiente por detrás de algumas obras de culto do cinema. Mas só um as pôde viver a todas.

Kiran Shah é conhecido como o duplo mais pequeno do mundo. A altura, que poderia ter-se tornado na sua maior dificuldade, tornou-se precisamente na ferramenta que lhe permitiu concretizar o sonho de ter uma carreira de sucesso no cinema.

Desde a década de 70 que o queniano de origem indiana convive com as maiores estrelas e realizadores. Com apenas 1,26 metros de altura, tirou partido da enorme força de vontade para se tornar numa peça imprescindível de diversos realizadores — e aos 70 anos, continua a não lhe faltar trabalho.

A experimentar os fatos de ewok de “Star Wars”

Primeiro, nasceu o fascínio por Bollywood, cujos filmes via durante a infância. De regresso ao país dos pais, conseguiu mesmo conhecer alguns dos mais famosos atores indianos. Mais tarde viajou para os Reino Unido, onde se lançou numa pequena companhia de teatro, até que um golpe de sorte o levou até ao set de gravações de um filme de ficção-científica que haveria de se tornar num clássico.

Nascido com uma deficiência hormonal, aprendeu a usar a altura como trunfo. E apesar de não ter ficado com a gloriosa tarefa de pilotar o pequeno famoso robô R2-D2 — cujo fato experimentou na presença de George Lucas —, foi lhe oferecido um agente que lhe garantiu lugar no elenco de duplos de “Candleshoe” do oscarizado David Niven.

Seis anos depois, estaria de volta a “Star Wars” a pedido de Lucas, que queria lançar-lhe outro desafio: testar o fato de um ewok para o terceiro filme da trilogia. Apesar de ter sido preterido nas prequelas, regressou décadas mais tarde para um três em linha: participou em todos os capítulos da mais recente e trilogia final.

O duplo que não sabe nadar

Seria o suficiente para desqualificar ou amedrontar qualquer duplo, mas não Kiran. Nunca aprendeu a nadar, embora isso nunca o tenha feito recuar perante qualquer desafio. O maior deles: ser uma das vítimas do afundamento do Titanic.

Shah foi uma das 120 pessoas que acabaram penduradas num gigantesco tanque aquático, obrigado a fazer inúmeras manobras arriscadas. Mas a mais perigosa, revela o próprio à “CNN”, foi a que faz de duplo do pequeno rapaz que Leonardo DiCaprio tenta salvar.

Depois da honra de ser carregado ao colo pela estrela, o duplo teve que ser abalroado por litros e litros de água. A cena não satisfez o realizador James Cameron, que pediu mais água. Demais para Shah, que teve que ser substituído por um boneco. Até ele tem limites.

Os encontros com as águas repetiram-se. Por pouco não foi atropelado por um barco em “007: The World Is Not Enough” e em 1998, na adaptação de “Madalena” ao cinema, teve que se lançar ao rio Sena. “Dêem-me um fato de mergulho e estou feliz. Sei que vou flutuar até à superfície”, confessou ao canal norte-americano.
Voltou a ver-se rodeado de água no papel de duplo da pequena Newt, a criança que Helen Ripley (Sigourney Weaver) tenta salvar das garras dos xenomorfos de “Aliens”. Mais uma medalha no seu currículo, sob a secção de clássicos intemporais do cinema.

Destemido, deixou uma dica valiosa ao colega duplo quando ambos viajavam a alta velocidade numa canoa que balançava no rio Kawarau, na Nova Zelândia: “Não te preocupes comigo, se a canoa virar, salva-te, porque eu não sei nadar”. Sobreviveu para ver e viver uma das suas maiores experiências no cinema: a saga “O Senhor dos Anéis”, onde participou em todos os filmes.

O homem por detrás das máscaras

É fácil de entender porque é que a cara de Shah não é reconhecida. Quase sempre surge disfarçado. Foi assim o seu primeiro papel em “Candleshoe”, onde servia de duplo de corpo, substituindo uma criança mas horas extra de gravações.

David Niven, o protagonista, reconheceu o talento e vontade do queniano e deixou-lhe um conselho: “Vejo uma luz nos teus olhos. Vejo que queres isto, estás desejoso de fazer parte desta indústria. O meu conselho é que estudes tudo o que acontece durante as gravações. Estuda tudo e vais ver que vais longe”. Assim foi.

Também foi duplo de Christopher Reeve

Outro dos seus grandes aliados foi Bob Anderson, coordenador de duplos, famoso por ter protagonizado as cenas de luta de Darth Vader no segundo e terceiro capítulo da trilogia original.

“Os duplos acolheram-me rapidamente. A maioria das pessoas pequenas como eu não queriam fazer o que eu fazia”, revelou, antes de revelar o verdadeiro segredo que o tornou numa referência no mundo dos duplos — nunca recusava um desafio, fosse ele uma queda de vários metros, lutas com espadas ou explosões.

O currículo fala por si. Em “Super-Homem” vestiu-se a preceito e funcionou como duplo de Christopher Reeve nas cenas de perspetiva de voo. Em “Indiana Jones: Os Salteadores da Arca Perdida”, tirou finalmente a máscara para protagonizar um figurante, o de empregado que deixa as tâmaras a Indy, que depois são envenenadas.

Porém, a sua grande medalha de honra foi a participação em “O Senhor dos Anéis”, onde serviu de duplo de corpo aos hobbits mais famosos do mundo. Peter Jackson preferiu sempre gravar em perspetiva, ao invés de usar efeitos especiais. É aí que entra a mestria de Shah.

Aprendeu todos os maneirismos e tiques de cada um dos hobbits, Frodo, Sam, Pippin, Merry e Bilbo. E executou tudo na perfeição, até mesmo pondo em perigo a sua vida.

Em “O Regresso do Rei”, tinha que gravar uma cena a cavalo com outro duplo. As coisas não estavam a sair como pretendia e pediu apenas mais um take. “Foi um take a mais, soltei-me e fraturei as costas”, revelou. Foi forçado a ficar afastado durante vários meses, com um aparelho ortopédico no tronco e de muletas. Foi o preço da fama — e de nunca dizer que não a mais um trabalho.

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