Cinema

O regresso do ano: já todos dizem que Brendan Fraser será nomeado ao Óscar

Foi a estrela de “A Múmia” e depois foi desaparecendo. Agora tem um novo filme. O ator chorou na estreia em Veneza.
Brendan Fraser interpreta homem com 272 quilos.

Chamam-lhe “Brenaissance” e é o renascimento da carreira de Brendan Fraser, o ator que no final dos anos 90 e início dos 2000 era uma estrela em Hollywood. Foi o protagonista dos filmes de “A Múmia”, “George – O Rei da Selva” e participou em produções como “Colisão”. Depois, desapareceu. Não é que tenha deixado de trabalhar, mas começou a participar em menos projetos — e sobretudo filmes e séries com menor relevância e mediatismo.

Neste domingo, 4 de setembro, estreou no prestigiado Festival de Cinema de Veneza o filme “The Whale”. Realizado por Darren Aronofsky (o cineasta responsável por “A Vida Não é um Sonho”, “Cisne Negro” ou “O Wrestler”), tem Brendan Fraser como protagonista.

Nesta história, o ator americano de 53 anos interpreta um homem com 272 quilos. É um reservado professor de inglês que está a lidar com a sua grave obesidade enquanto tenta voltar a ligar-se emocionalmente à filha adolescente. É a sua última hipótese para a redenção que tanto procura. O professor abandonou a família para estar com o seu amante gay. Depois de este morrer, o desgosto levou-o a comer de forma compulsiva até atingir um peso descomunal. Vive confinado numa cadeira de rodas, a partir da qual dá as suas aulas online.

Assim que “The Whale” chegou aos créditos finais e apareceu o nome de Brendan Fraser no grande ecrã, a multidão em Veneza — composta por críticos de cinema, cineastas, atores e profissionais da indústria — irrompeu numa ovação em pé que durou cerca de seis minutos. Visivelmente emocionado nas filas da frente, Brendan Fraser não conseguiu conter as lágrimas e agradeceu a todos, enquanto ia abraçando o realizador Darren Aronofsky e os colegas de elenco.

Para interpretar o protagonista do filme (que se baseia numa peça de teatro de Samuel D. Hunter), Brendan Fraser usou um fato composto por próteses para aumentar o seu peso. De cada vez que ia gravar, tinha de passar por um processo de seis horas no departamento de maquilhagem, para ficar com a aparência certa para o papel.

De estrela de Hollywood ao esquecimento: o trajeto de Brendan Fraser

Nos últimos 15 anos, muitos fãs se questionaram sobre o que teria acontecido ao ator americano. Parte da resposta chegou num longo artigo da revista “GQ” publicado em 2018. Em plena era do movimento #MeToo, Brendan Fraser revelou que foi assediado em 2003 por um executivo da indústria e que o incidente foi traumático.

“A mão esquerda dele veio por trás, agarrou a minha nádega, colocou um dos dedos entre o ânus e os genitais. E começou a mexer”, contou o ator sobre como foi assediado por Philip Berk, que na altura era o presidente da Hollywood Foreign Press Association (HFPA), a entidade que organiza os Globos de Ouro. Fraser sentiu medo e pânico, até eventualmente conseguir afastar a mão de Berk do corpo.

“Senti-me doente. Senti-me como um miúdo. Era como se estivesse algo a entupir-me a garganta. Pensei que ia chorar. Parecia que me tinham atirado tinta invisível para cima.” Assim que chegou a casa, contou o que acontecera à mulher, mas nunca falou publicamente sobre o assunto até 2018. “Não queria lidar com o que aquilo me fez sentir.”

Ainda assim, reportou o que tinha acontecido à HFPA, através dos seus agentes, que exigiram um pedido de desculpas por escrito. Philip Berk escreveu uma carta, admitindo que tinha tocado em Fraser, mas que tinha sido por piada, sem qualquer intenção sexual, e que não tinha feito nada de mal. Segundo o ator, a HFPA também se comprometeu a nunca deixar que Berk e Fraser pudessem estar sozinhos numa sala. 

“Fiquei deprimido.” Dizia a si próprio que merecia o que tinha acontecido. “Estava a culpar-me e sentia-me infeliz.” A experiência fê-lo “retrair-se” e sentir-se “solitário”. Depois de 2003, raramente foi convidado para participar nos Globos de Ouro. E tornou-se um nome, lá está, cada vez menos requisitado em Hollywood. Philip Berk continuou a ser um membro destacado da HFPA — e o comportamento da entidade tem sido tão criticado que a última gala não contou com figuras públicas nem foi transmitida na televisão.

Noutra entrevista à “SiriusFM”, em 2019, foi questionado sobre se sentia que tinha sido colocado na lista negra de Hollywood depois de ter reportado o caso de assédio. “Não sei se é o termo para o descrever, mas sei que existe uma altura na carreira de toda a gente em que o telefone deixa de tocar.”

No mesmo artigo da “GQ”, Brendan Fraser apontava outro problema com o qual teve de lidar ao longo dos anos que se seguiram. Por causa dos filmes de ação e das exigentes manobras físicas que tinha de fazer, o seu organismo começou a acusar a carga de trabalho. Uma série de lesões acabaram por levar o ator a ser submetido a múltiplas cirurgias.

“Precisei de fazer uma laminectomia. A lombar não aguentou, por isso tiveram de a voltar a fazer outraum ano depois.” Além disso, teve de substituir parte do joelho, precisou de fazer outras intervenções nas costas e até nas cordas vocais. Ao todo, passou sete anos a entrar e a sair de hospitais. “Senti-me como o cavalo de ‘A Quinta dos Animais’, cujo papel era trabalhar, trabalhar e trabalhar. Trabalhava pelo bem de todos, não fazia perguntas, não causou problemas até que aquilo o matou…” Ao longo dos anos, foi ganhando peso e perdendo a forma física da década de 90.

Nos últimos anos, criaram-se várias comunidades online de fãs de Brendan Fraser, que apelavam ao “Brenaissance” — ou seja, ao renascimento da sua carreira. É impossível determinar o quão relevante foi o papel dos fãs, mas a verdade é que é exatamente o que está a acontecer ao ator. Devido à prestação à “The Whale”, os críticos em Veneza já o apontam como um mais do que provável candidato ao Óscar de Melhor Ator. 

Outros projetos importantes, que também prometem revitalizar a sua carreira, estão a caminho. O principal é a sua participação em “Killers of the Flower Moon”, o próximo filme de Martin Scorsese, onde vai contracenar com Leonardo DiCaprio, Robert De Niro e Jesse Plemons, entre outros. Tem estreia prevista para 2023. Já “The Whale” deverá chegar aos cinemas entre o final do ano e o início do próximo, mesmo durante a época de prémios.

Numa conversa com uma fã numa rede social, e ao mencionar o filme de Scorsese, esta explicou-lhe que havia muita gente a torcer por ele online. Brendan Fraser não conseguiu conter as lágrimas e simplesmente agradeceu pelo apoio. O “Brenaissance” é real e está mesmo a acontecer. E o músico Nick Lutsko até fez uma música chamada “Brendan Fraser is Back” para celebrar o momento.

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