Cinema

“Os 7 de Chicago” é o melhor filme do ano da Netflix (de longe)

Foi realizado e escrito por Aaron Sorkin, tem um elenco de luxo e conta uma história empolgante, com temas verídicos.
Sacha Baron Cohen e Jeremy Strong são dois dos atores principais.
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Depois de se estrear enquanto realizador em 2017, com o fantástico “Jogo da Alta-Roda”, Aaron Sorkin regressou a uma história real — e mesmo na sua praia, a política e os media — em “Os 7 de Chicago”, filme que estreou na Netflix a 16 de outubro e que se posiciona como uma das grandes apostas da plataforma de streaming para este ano (com potencial para acumular vários prémios).

O argumentista que criou “Os Homens do Presidente”, “The Newsroom”, “Steve Jobs”, “A Rede Social” ou “Moneyball — Jogada de Risco”, entre outros guiões, decidiu contar a história de um dos maiores protestos contra a guerra do Vietname nos anos 60.

Em 1968, quando decorria a Convenção do Partido Democrata na cidade de Chicago, milhares de ativistas envolveram-se em confrontos violentos com a polícia, gerando uma onda de motins — as autoridades apontaram o dedo à “esquerda radical”, enquanto os ativistas acusaram a polícia de ter começado a violência.

Um ano depois, com um novo presidente no poder — o republicano Richard Nixon —, a nova administração americana fez questão de processar os supostos líderes dos motins. O objetivo era fragilizar o movimento anti-guerra, mas também deixar mal-vista a anterior administração.

Oito homens foram acusados de incitar à violência e de terem participado em motins, como se fossem todos parte de um mesmo grupo. Mas, como o filme de Aaron Sorkin demonstra, a única coisa que tinham em comum era serem contra a guerra no Vietname.

Os oito ativistas pertenciam a diferentes organizações. Tom Hayden e Rennie Davis lideravam uma organização de estudantes bem-comportados contra a guerra; Jerry Rubin e Abbie Hoffman eram os yippies satíricos e anti-sistema; David Dellinger era um pacifista puro, um verdadeiro líder de escuteiros; e John Froines e Lee Weiner eram os ativistas menores, supostamente acusados para que o júri pudesse absolver alguém mas condenar os outros. “Nos Óscares dos protestos, é uma honra estarmos nomeados”, explica um deles.

O oitavo homem, que nem foi um dos “7 de Chicago” — que viria a ser descartado deste caso, até porque tinha uma representação legal diferente e não tinha sequer estado envolvido nos motins —, era o líder dos Black Panther Bobby Seale. Em tribunal, é com ele que se passam os momentos mais dramáticos do enredo.

O julgamento era político e o juiz Julius Hoffman esteve desde o início do lado da acusação, com comportamentos erráticos, num processo que se arrastou em tribunal durante meses, com inúmeros momentos controversos e de clara injustiça.

“Os 7 de Chicago” acompanha o caso, ao mesmo tempo que reconta a história do que se passou em Chicago naqueles dias de 1968, com uma alternância ideal entre a linha temporal do presente e os flashbacks. O ritmo é eletrificante, a escrita de Aaron Sorkin (um ótimo criador de discursos) adequa-se na perfeição a esta narrativa e o filme é verdadeiramente viciante e empolgante. São duas horas que passam a correr.

A maioria dos portugueses (e dos europeus no geral) não conhecerá bem esta história e esta é uma boa oportunidade para a descobrir — um caso mediático importantíssimo que tem uma enorme atualidade e relação com o que se passa no presente nos EUA, com uma sociedade polarizada, um ativismo crescente, e uma relação de tensão entre as autoridades e uma grande camada da população.

Um elemento fulcral para a qualidade do filme é o excelente elenco. Eddie Redmayne, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, John Carroll Lynch, Yahya Abdul-Mateen II, Mark Rylance, Joseph Gordon-Levitt, Michael Keaton e Frank Langella fazem papéis com uma entrega soberba, dando o melhor uso possível às palavras escritas por Sorkin.

“Os 7 de Chicago” discute a guerra e a paz, a democracia e a liberdade, e demonstra a enorme dificuldade que o sistema político americano tinha em acatar críticas, numa época de turbulência, pouco depois dos assassinatos de John F. Kennedy e Martin Luther King. Foi há mais de 50 anos, mas há muito que permanece atual. Vale a pena ver. É, até agora, o melhor filme do ano da Netflix.

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