Cinema

Os abusos e a vida dupla que arruinaram a carreira da musa de “Beleza Americana”

Aos 42 anos, Mena Suvari revela tudo numa biografia: da violação aos 12, à sexualização em Hollywood e um encontro "inquetante" com Kevin Spacey.
A imagem icónica de "Beleza Americana"

Kevin Spacey e Mena Suvari tinham pela frente a gravação de uma cena íntima entre as suas personagens de “Beleza Americana”. Antes de as câmaras começarem a gravar, o ator tomou a iniciativa.

“O Kevin levou-me para uma pequena sala com uma cama e deitou-se ao meu lado, comigo a olhar para ele, e agarrou-me levemente”, descreve a atriz sobre o momento que descreve como “estranho e inquietante”, mas igualmente “calmo e apaziguador”. Ele tinha 40 anos, ela 19.

A revelação feita pela atriz nas suas memórias que chegam agora às bancas, levantou uma nova polémica sobre Spacey, acusado em anos recentes de agressões sexuais, que o levaram a suspender a carreira. Apesar do burburinho, Suvari esclarece tudo quando questionada se revisitou esse momento à luz das acusações ao ator.

“Não”, disse em entrevista ao “Los Angeles Times”. O problema, diz, não foi tanto o comportamento do ator, mas sim os segredos que a própria escondia, a vida secreta que ocultava de tudo e todos.

“Quanto às carícias que me fez, eu estava tão habituada a abrir-me e a ansiar pelos afetos que me soube bem simplesmente ser tocada. Não tinha a certeza se o Kevin estava interessado em mim ou não. Pensei imediatamente nisso, não sabia onde aquilo ia parar, mas ele não o fez.”

Este é apenas um dos momentos polémicos que, agora aos 42 anos, a estrela de “Beleza Americana” e “American Pie” decidiu revelar nas páginas de “The Great Peace: A Memoir”, o livro de memórias que acaba de lançar nos Estados Unidos.

A verdade é que, durante as duas últimas décadas, muitos questionaram o que era feito da atriz que brilhou no vencedor dos Óscares de 1999. Aparentemente longe dos blockbusters, trabalho não lhe faltou. Participou em mais de 60 produções ao longo de todo este tempo, muitas delas independentes. Opções que lhe permitiram não só fugir ao estereótipo dos papeis que lhe chegavam às mãos, mas também de se revitalizar depois de vinte anos recheados de traumas e abusos, fruto de uma Hollywood pré-MeToo.

O desaparecimento da primeira linha de Hollywood foi também uma escolha. Tipificada como a jovem sex symbol, mais procurada pela sua beleza e menos pela sua capacidade de interpretação, decidiu que não seria definida pelos outros. E por isso pagou um preço.

Com Spacey numa das cenas de “Beleza Americana”

Foi em 2018 que Suvari decidiu que iria colocar no papel a sua experiência traumatizante, as violações e a vida dupla que colocou em risco não só a sua sanidade mental, mas a sua vida.

Num velho baú recheado de objetos antigos e recordações, encontrou um arquivo com poesia, velhas fotos e um diário com uma nota de suicídio escrita por si. À procura de um novo projeto fora do cinema, percebeu que havia ali um “escape criativo” e uma forma de ajudar quem pudesse rever-se na sua atribulada história de vida.

“Estava a viver uma vida dupla”, recorda dos tempos em que era uma das novas caras de Hollywood, depois do sucesso estrondoso de “Beleza Americana”. “Cada vez que entrava num set, cada vez que era entrevistada, estava sempre a interpretar um papel. Fingir que estava tudo bem comigo era só mais uma interpretação”, contou à “People”.

Os traumas que escondia por detrás da fachada começaram aos 12 anos, idade em revela que foi violada por um dos amigos do irmão mais velho. “Parte de mim morreu nesse dia”, conta.

“Ele usou-me, divertiu-se e depois livrou-se de mim. Chamou-me puta. Nunca conheci uma versão saudável do sexo. A minha escolha perdeu-se. Aliado ao facto de me sentir esquecida e ignorada, isso ajudou-me a criar a imagem que tinha de mim própria: que era apenas isso que eu valia.”

Suvari era uma das caras de “American Pie”

A carreira começou cedo. Ainda não era uma adolescente e já trabalhava como modelo. “Aos 12 estava em Nova Iorque e caminhava pelas ruas de saltos altos. Tinha a impressão de que era apenas isso que tinha para oferecer. Era apenas uma miúda, mas estava tão habituada a isso. Talvez por isso é que fiquei com o papel de Angela”, contou em 2018 à “Vanity Fair”.

Habitou-se, sobretudo, a que a sua imagem fosse sexualizada. Numa das primeiras sessões fotográficas em que participou, ainda pré-adolescente, vestiram-lhe um casaco de motoqueiro. Todos concordaram que Suvari parecia ser maior de idade. “Por um lado, é aceitável, mas por outro, é muito perturbador.” 

Mudou-se cedo para Los Angeles onde, recorda, um fotógrafo tirou e guardou imagens suas nua, ainda menor de idade. Aos 16, foi abusada por um dos seus agentes, 20 anos mais velho. Suvari confessa que a imagem distorcida que tinha a levava a confundir esse tipo de atenção com amor.

Os mesmos problemas acompanharam Suvari pela adolescência até à idade adulta. O passado deixou marcas, que recordou num episódio mais recente.

Numa ida ao supermercado, cruzou-se com uma cara familiar. Era uma mulher com quem tinha participado numa ménage à trois, durante uma bizarra e violenta relação que durou três anos.

Aos 42 anos, Suvari foi mãe pela primeira vez

“Fiquei petrificada, porque eu era famosa na altura e ela conheceu-me quando eu não era”, conta. “nunca quis ser essa pessoa. Os nossos caminhos cruzaram-se novamente e foi desconfortável e estranho. Tive que me desculpar.”

Tinha apenas 17 anos quando conheceu um dos primeiros namorados, que a conduziu até uma relação recheada de abusos sexuais e emocionais. Durante três anos, usou Suvari para convencer mulheres a terem sexo com ambos. “Lembro-me de achar que as relações eram mesmo assim, com gritos, insultos e abusos. Senti que a culpa disso tudo era também minha, era tudo um processo de destruição.” 

Quando foi escolhida para participar em “American Pie”, ainda vivia com o namorado problemático. “Não podia dizer: ‘A minha vida é um pesadelo neste momento’, porque tudo o que eles queriam saber era qual foi a minha experiência no liceu, com quem fui ao baile.”

Foi então que surgiu o papel de Angela em “Beleza Americana”, uma jovem que capta a atenção do pai da melhor amiga. Por detrás da imagem de adolescente sedutora, a personagem é, no fundo, uma miúda inexperiente e amedrontada. Os paralelos eram notórios, mas a experiência ajudou-a a dar um passo em frente, apesar de ter continuado a viver uma vida dupla.

Os papéis oferecidos eram quase sempre os mesmos. “Havia um papel principal, normalmente a rapariga bonita, mas pouco desenvolvida a nível de personalidade. E depois a melhor amiga, que não era bonita, mas era muito mais interessante. Eu queria esse papel, mas eles achavam que não era para mim”, recorda.

Já livre de drogas e de relações problemáticas, Suvari enfrentou o resto da carreira com pragmatismo e uma decisão: só escolheria papéis que a satisfizessem. “Cheguei a um ponto em que as pessoas desistiram, porque me fartei de fazer merdas esquisitas”, conta à “Vanity Fair” sobre o currículo recheado de papéis em filmes independentes, onde já fez de mulher possuída por demónios e toxicodependente.

Hoje, prepara-se para interpretar Jane Wyman, a primeira mulher do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, enquanto cuida do primeiro filho, nascido em abril, e promove o livro com a sua verdadeira história.

“Passei tanto tempo da minha vida a sentir que estava sozinha no barco. Momentos em que senti que não tinha para onde ir, que ninguém me iria entender. Tinha demasiada vergonha e por isso mantinha-me naquelas situações más. Partilhar a minha história é uma forma de ajudar pessoas que sintam o mesmo e que percebam que podem mudar. Se conseguir poupar alguém a um verão de sofrimento, quero fazê-lo.”

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