Cinema

“Os artistas dão tudo e no dia a seguir não são nada. Eu queria contar esta história”

A NiT entrevistou Patrícia Sequeira, a realizadora de “Bem Bom”, filme sobre as Doce que estreia esta quinta-feira nos cinemas.
"Bem Bom" já está nos cinemas.

Patrícia Sequeira tem uma longa e respeitável carreira enquanto realizadora. A profissional de 47 anos começou por dirigir centenas de episódios de novelas. Depois também trabalhou em séries (como “Conta-me Como Foi”) ou filmes, para televisão e para cinema.

Nos últimos anos tem tido cada vez mais destaque, com projetos de prestígio e com um lado autoral mais presente. Realizou a adaptação portuguesa de “Terapia”, fez o filme biográfico “Snu” e as séries “O Clube” e “Prisão Domiciliária”. A 8 de julho, chegou o seu novo filme aos cinemas: “Bem Bom”.

É o filme que retrata a história das Doce, a girls band portuguesa formada em 1979. Fátima Padinha, Lena Coelho, Teresa Miguel e Laura Diogo foram um fenómeno de popularidade ousado. No Portugal pós-revolução, apresentavam-se com figurinos inusitados, coreografias excêntricas e com músicas com muito mais mensagem do que podia parecer à primeira. Contudo, tal como apareceram, também saíram de cena rapidamente.

“Bem Bom” foi escrito por Cucha Carvalheiro e Filipa Martins. As atrizes que interpretam as Doce são Bárbara Branco, Lia Carvalho, Carolina Carvalho e Ana Marta Ferreira — sendo que o elenco inclui ainda Eduardo Breda, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Luisa Ortigoso ou José Raposo, entre outros. Além de filme, vai estrear uma versão alargada, enquanto série, na RTP. Leia a entrevista da NiT com a realizadora.

Inicialmente, o que é que a atraiu mais para querer fazer este projeto?
Filmar a alegria, a felicidade, o bem-estar, a boa disposição. Achei que isso não era nada cinematográfico, que era extremamente difícil. Porque normalmente o conflito e o drama é que vendem. E eu tinha esse desejo de: como é que se sai do cinema a sentirmo-nos felizes? Eu tinha vontade de fazer qualquer coisa assim porque os meus filmes anteriores eram um bocadinho pesados e achei que era um desafio que devia tentar. Eu já tinha vontade de fazer qualquer coisa com as Doce, mas achei realmente que era uma loucura.

Mas era uma ideia que já tinha.
Sim, até fiz uma pesquisa, e dei por mim a pensar: mas como é que ninguém fez? Alguma coisa se passa aqui. E realmente passa-se, porque as pessoas estão vivas e ninguém está muito interessado que se conte as histórias delas sem que elas tenham a mão, não é? Isso tenho de compreender. Agora, a minha ideia verdadeiramente é super ingénua e inocente. Eu queria causar uma experiência feliz. E depois a música ajuda muito. De repente foi muito fácil pensar nisto. Agora, quando começo a pesquisar e a envolver-me em tudo isto, começo a perceber que havia nestas histórias contornos muito pouco felizes. Mas também vinham ter comigo os mesmos temas de sempre: questões de género, preconceito, difamação, o sucesso das mulheres, mulheres artistas.

E é uma história que merece ser vista à luz dos dias de hoje, é isso?
Pronto, e quarenta anos depois, estamos a falar de temas que podiam estar a ser debatidos. Eu tinha a ideia da felicidade e de repente estes temas vêm ter comigo, temas que eu tanto abraço e que se calhar são pouco felizes e pouco convenientes, mas têm que ser falados.

Patrícia Sequeira é realizadora há mais de 20 anos.

Neste filme casam-se todos estes interesses da Patrícia: a ideia de felicidade, os tais temas que lhe dizem muito e as Doce.
É, é embrulhar num rebuçado algumas coisas que as pessoas podem, não numa forma panfletária, mas ter acesso a cantar e a rir, porque a alegria é a coisa mais séria do mundo. E não sou eu que o digo, é Almada Negreiros. É muito séria a alegria, e eu nem sabia que me estava a meter numa coisa tão séria, nem sabia que o processo ia ser este. Foi muito difícil, mas não sou do tipo de realizador que se queixa de não ter subsídios, porque acho que isso também é uma questão que tenho nos meus filmes, porque eu sou mulher, porque tenho uma experiência imensa e porque… não sei se haverá alguma razão em particular para que em Portugal tenhas de ser velhinho para fazer filmes. Ou filmes que não sejam para público. Eu faço filmes para público, eu faço mesmo filmes para as pessoas gostarem, com esse objetivo. E é assim que eu encaro esta nossa mini indústria.

Estava a dizer que fazer algo com as Doce era uma ideia que tinha, mesmo que fosse mais ou menos vaga. Porquê? Suponho que fosse fã.
Eu era uma criança que cantava e dançava Doce. Se queres filmar a alegria, porque não ires a uma coisa tão eficaz? Tive curiosidade sobre estas mulheres, comecei a pesquisar e elas foram um sucesso gigante. Onde é que elas estão? Faz-me confusão. Os artistas morrem assim, não é? Os artistas dão tudo: sangue, suor, lágrimas. E no dia a seguir não são nada. E isso interessa-me, a condição de artista, e a condição da mulher.

Sem ser a questão financeira, qual diria que foi o maior desafio em realizar este filme?
A questão financeira vem sempre associada a fazer seja o que for, acho que é sempre o problema, até numa festa de anos [risos]. A questão é que estamos a retratar pessoas vivas, com medos, naturalmente. Não é um filme barato, tem muitas músicas e eu não queria estar a falar da questão do dinheiro mas temos os direitos… Fazer um filme sobre as Doce sem música seria extremamente difícil de aceitar. O próprio “Variações” não tem muita música. E foi uma das coisas que eu senti falta: eu queria ter ido cantar os grandes sucessos. Mas percebo, é muito complicado, fazer cinema em Portugal é caríssimo. E um filme que não é apoiado, naturalmente, tem que ter alguns cuidados. Mas estamos a retratar pessoas que estão vivas e não lhe estou a chamar Mena em vez de Lena. Não estou a dizer que é uma girls band portuguesa, sem lhe dar um nome. E pôr o nome nas coisas normalmente tem um preço. Podem ficar sempre com a expetativa de ver num filme a realidade assim como aconteceu, ou como elas encaram. A memória também é muito traiçoeira e eu tenho de facto aqui uma obra de ficção. Deve ir beber à realidade, mas ser capaz de lhe dar os toques da ficção e dar algum glamour que às vezes não há, ou dar uma crueza que é transferida de um sítio para outro. Aquele facto não foi necessariamente assim, mas ele representa o aglomerado de uma série de coisas que me contaram, que está ali representado naquele momento. O soutien da Lena não se rebentou à entrada do festival, não, foi num concerto. Mas a mim dava-me jeito que fosse no festival. Veio mal ao mundo? Não.

Uma liberdade criativa para servir a história do filme.
Chama-se filme. E depois quis muito que fosse algo intemporal, moderno e ousado, porque elas também eram. 

Mas houve esse peso de gerir essas sensibilidades, de fazer justiça sem fugir demasiado à realidade?
Eu queria ser justa com as histórias que eu tinha ouvido, mas nunca me posso limitar a elas. Porque a obra nasce também de uma perceção que nós temos daquela realidade. Eu faço como sinto. Não penso demasiado, sinto. Por exemplo, a escolha das quatro atrizes: não é por ser igual ou parecida, não. Sinto é que há uma energia que está muito certa, aquela pessoa está certa. E fazer por sentir tem que se ter liberdade. Não podia estar assim tão presa, se não não se faz nada. A vida não é só feita de paz e amor, às vezes tenho de ter algum conflito aqui e ali para conseguir levar a água ao meu moinho. E eu queria contar uma história que de alguma maneira pusesse novamente as Doce a serem faladas, lembrá-las, mas não necessariamente endeusá-las. E portanto acho que equilibrei aqui um bocadinho naquilo que é a ideia de um produto fabricado. O produto foi fabricado para viver muito menos tempo do que viveu. Elas são umas mulheraças porque continuaram naquele percurso e fizeram perdurar a banda. Agora, não quis fazer super-heroínas. Mas têm imenso valor, e sentem que foram esquecidas e que nunca foram reconhecidas, e na altura eram consideradas como parolas e tudo mais. Afinal se calhar até eram modernas. E o cinema também tem esta vantagem de nos dar a conhecer mais qualquer coisa, de nos dar uma experiência, de nos enriquecer, de nos acrescentar. Eu acho que dei a conhecer estas mulheres. Agora, façam os julgamentos que quiserem. Eu não sou justiceira. Gostei desta história, achei que ela devia ser contada, e estas mulheres acho que sofreram um bocadinho, não sei se justamente ou não. Há que pensar: porque é que uma mulher artista… porque é que exigimos que seja elegante até aos 60 ou 70 anos? E porque é que um artista é usado como uma laranja que é espremida, tira-se o sumo até à casca e depois adeus? Em que condições vivem elas hoje? Essa parte eu sei e não está no filme.

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