Cinema

Os jatos F-18 usados em “Top Gun: Maverick” custaram mais de 10 mil euros por hora

O elenco também não os pôde pilotar nem tocar nos controlos — algo que apenas os membros da marinha norte-americano podem fazer.
"Top Gun: Maverick" está a ser um sucesso nas bilheteiras.

A 26 de setembro de 1986 estreava “Top Gun – Ases Indomáveis”. “Stuck with You” de Huey Lewis and the News era a música do momento, os penteados eram maiores e mais extravagantes, e muitos foram ao cinema ver Tom Cruise a pilotar jatos e a fazer acrobacias aéreas. Cerca de 35 anos depois, muitas coisas mudaram, mas o sucesso do filme mantém-se — mais uma vez, o público acorreu em massa às salas de cinema para voltarem a ver Cruise encarnar o piloto Pete Mitchell em “Top Gun: Maverick”. O filme está a ser um sucesso comercial um pouco por todo o mundo e nos Estados Unidos a receita de bilheteira já superou os 124 milhões de euros.

A produção contou com um orçamento enorme e teve de investir uma quantia exorbitante só para poder usar alguns dos aviões que vemos ao longo do filme, nomeadamente os F/A-18 Super Hornets — mais conhecidos apenas por F-18 — propriedade da Marinha norte-americana. O aluguer dos jatos custou 11,364 dólares — aproximadamente 10.675€ — por hora.

Além deste valor, tiveram de seguir uma regra que parece bastante contraintuitiva quando sabemos que os próprios atores experimentaram as manobras nos aviões: nenhum podia tocar nos controlos dos F-18 — nem mesmo o protagonista.

Isto porque as regras do Pentágono proíbem que pessoas estranhas ao Exército utilizem materiais e veículos do Departamento de Defesa, a não ser em pequenos cenários de treino. Em vez de pilotarem as aeronaves, os atores sentaram-se atrás dos pilotos dos F-18 (e mesmo assim só o puderam fazer depois um pequeno curso onde aprenderam a ejetar-se do avião e dicas para sobreviverem no oceano).

Apesar de terem dispensado aviões, bases militares e porta-aviões à produção do filme, uma fonte do departamento de media de entretenimento do Pentágono contou à “Fortune” que os pilotos do filme “nunca poderiam sê-lo na aviação naval.” Em vez de serem as pessoas arrogantes e extremamente confiantes (por vezes até demais) como são retratados na produção, os pilotos são estudiosos que passam horas em salas de aulas e participam em treinos intensos para poderem pilotar as aeronaves da Marinha.

Um filme “não tem de ser uma carta de amor ao exército” para que o Pentágono coopere. No entanto, tem de demonstrar “a integridade dos militares”. Os estúdios também têm de estar dispostos a entregar o guião a este órgão dos Estados Unidos da América, para que seja revisto e, caso necessário, alterado. A história de “Top Gun: Maverick” não sofreu qualquer alteração.

Embora não tenham pilotado os F-18, o elenco de “Top Gun” seguia nestes jatos enquanto voavam a altas velocidades pelos céus, proporcionando muitas das reações (verdadeiras) que vemos ao longo do filme.

O fim de uma era

O F/A-18 Super Hornet voou pela primeira vez em 1995. Uma produção menos extensa da aeronave começou dois anos depois, no início de 1997. Têm um canhão interior que consegue transportar munições para serem usadas para atacar outras aeronaves ou em em ataques ao solo. Também têm espaço para conseguirem levar mais combustível.

Em setembro, a quantidade criada já tinha sido aumentada, após a McDonnell Douglas, que fabricava estes aviões, se fundir com Boeing, outro fabricante de aeronaves.

Em 1999 entraram na frota da marinha dos Estados Unidos, substituindo os Grumman F-14 Tomcat, que foram retirados em 2006. Atualmente, existem cerca de 540 exemplares, cada um custou cerca de 62 milhões de euros. Mas em breve, tal como os Grumman, também os F-18 deixarão de ser fabricados — pelo menos da forma que os conhecemos.

Os aviões irão continuar a ser utilizados, mas os novos jatos que os substituirão, os F35, serão mais modernos. São aeronaves mais furtivas, com uma assinatura muito reduzida em radares inimigos, e possuem capacidades de descolagem curta e vertical.  O Kuwait já recebeu alguns exemplares deste novo modelo, e apesar das poucas informações oferecidas, explicam que tem um cockpit com mais opções.

Um regime de treino super intensivo criado por Tom Cruise

Tom Cruise não brinca em serviço, e sempre pediu que não fossem usados efeitos especiais na gravação do novo “Top Gun”. Não voa jatos, mas é um piloto credenciado de aviões e, por isso, sabia muito bem o que tinha que ser feito para preparar os colegas de elenco para o que aí vinha.

Se o objetivo passava por criar um filme altamente realista, os atores teriam que estar dentro do cockpit, ainda que no lugar do pendura. Mas, para que isso acontecesse, teriam que ter condições físicas e mentais para aguentar as manobras perigosas.

Antes das filmagens, o próprio Cruise desenhou um regime de treino para os novos atores. “Foi intenso”, explicou Miles Teller, um dos protagonistas. “O que o Tom faz para se divertir, é a definição de inferno para outras pessoas. Foi isso mesmo, um inferno.”

Os atores tiveram que enfrentar um curso de três meses apenas para poderem gravar um único filme. “O Cruise é piloto, faz acrobacias. Tem feito sequências aéreas em filmes há anos. O treino que criou servia para os preparar para voarem num Super Hornet, o que não foi fácil.”

Começaram por voar num Cessna, bastante menos potente. “‘Isto é o primeiro passo, rapazes’, explicou o Tom. Quando damos por ela, no segundo voo ele está a desligar os motores em pleno voo. Dás por ti num avião, no ar, a cair em queda livre. Tornou-se demasiado real, demasiado rápido”, recorda Teller.

Cruise poderia ter optado pelo caminho mais fácil, mas fez questão de que não fosse só ele a ser filmado durante ação, diretamente no cockpit. Cada cockpit foi equipado com seis câmaras de alta definição para captar todos os segundos, reações e olhares dos atores, que viajavam atrás dos verdadeiros pilotos, os ases da aviação norte-americana.

De notar que todo este programa de treino foi em parte financiado pelo próprio Cruise, envolveu também testes de resistência à força G, sentida em doses perigosas pelos pilotos durante as manobras mais difíceis.

“No primeiro filme usámos os aviões F-14 e todos os atores viajaram neles. Todos vomitaram”, recorda Bruckheimer. “Todos menos o Tom. Gastámos uma fortuna para os filmar dentro do cockpit e as únicas gravações que conseguimos usar foram as do Tom. Ele conseguia aguentar as forças G. Todos os outros estavam apenas a revirar os olhos.”

Desta vez, a seleção dos atores foi mais criteriosa e o treino bastante mais intensivo. Os enjoos ocasionais aconteceram — mas isso também acontece com os pilotos profissionais da Marinha. 

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