Cinema

Os rumores são verdade: “Matrix” é uma alegoria sobre a mudança de sexo

A realizadora transgénero Lilly Wachowski confirmou-o. Tanto Lilly como a irmã, Lana, eram homens quando realizaram os filmes.
O primeiro filme estreou em 1999.

Já foi há mais de 20 anos que começou a saga de “Matrix” — que continua a ser considerada uma das melhores histórias de ficção científica do cinema. Ao longo deste período têm-se discutido teorias — seja em cafés, nas redes sociais ou em fóruns online — sobre esta narrativa complexa, carregada de simbolismos. Uma das mais recorrentes tem a ver com o facto de o enredo de “Matrix” ser uma alegoria sobre o processo de alguém mudar de sexo e se tornar transgénero.

Numa entrevista ao canal da Netflix dedicado aos filmes, publicada a 4 de agosto, uma das realizadoras de “Matrix”, Lilly Wachowski — que era Andy Wachowski, um homem, quando fez os filmes da saga — confirmou que a história tem realmente todas essas metáforas em relação ao processo de alguém mudar de sexo, tal como ela e a irmã fizeram.

Lilly Wachowski mudou de sexo em 2016. A irmã, Lana Wachowski, com quem realizou a saga de “Matrix”, mudou de género quatro anos antes, em 2012. Anteriormente era Larry Wachowski. Há 20 anos, eram conhecidos como “irmãos Wachowski”. Nos filmes “Cloud Atlas” (2012) e “A Ascensão de Júpiter” (2015) — quando apenas Lana tinha mudado de sexo — assinaram como “The Wachowskis”.

Lilly falou agora sobre a alegoria da mudança de género que está presente em “Matrix”. “Essa era a intenção original, mas o mundo não estava bem preparado para isso. Estou contente que essas ideias tenham passado e possa ser interpretado dessa maneira.”

A realizadora diz, contudo, que sempre sentiu que aqueles filmes tiveram um significado importante para as pessoas transgénero. “Vêm ter comigo e dizem-me que estes filmes salvaram as suas vidas. Estou grata por lhes ter estendido uma corda para os ajudar ao longo do seu percurso.”

A personagem Switch, que só aparece no primeiro filme, mostra onde estavam as “linhas de pensamento” dos realizadores quando fizeram a produção. Lilly Wachowski assume nem ter noção do quão presente estava a sua condição transgénero no seu subconsciente enquanto escreveram o guião.

Originalmente, Switch era para ser um homem no mundo real — e uma mulher no Matrix. Quando a atriz Belinda McClory fez o casting, só se estava a candidatar a metade do papel. Mais tarde, os estúdios da Warner Bros preferiram optar por não haver esta mudança de género — que até deu o nome à própria personagem, Switch (que significa “trocar” em inglês).

No entanto, Wachowski sabe porque é que ambas as irmãs foram atraídas para este género de ficção científica. “Estávamos a existir num espaço onde as palavras não existem, sempre a viver num mundo de imaginação.” Wachowski explica ainda que a história tem esse constante “desejo de transformação”.

O primeiro “Matrix” venceu quatro Óscares e foi o filme da trilogia que teve mais sucesso e impacto. O protagonista é Neo (Keanu Reeves), um homem que acorda para a realidade, descobrindo que tem passado toda a sua vida numa simulação de computador — em conjunto com o resto da espécie humana — de forma a gerar energia para um grupo de aliens.

Na sequência deste vídeo, a Netflix também fez um conjunto de publicações no Twitter a desenvolver e a explorar melhor esta alegoria. “Depois de ‘acordar’, Neo começa a sua transição de uma identidade — Thomas A. Anderson, um nome dado pelas máquinas — para aquela que ele esculpe — Neo, o seu nome escolhido”, pode ler-se no post.

A mítica cena dos comprimidos também pode ser vista da perspetiva desta analogia. Numa das cenas mais famosas do filme, o líder rebelde Morpheus (Laurence Fishburne) oferece a Neo a hipótese de escolher entre um comprimido azul e um vermelho. Ele opta pelo vermelho, que lhe permitir conhecer a verdade, em vez do azul, que o manterá na ignorância.

O comprimido representa “a saída para poder ver o mundo como ele é e os sistemas construídos para definir e controlar a sua identidade” e é também uma “metáfora para terapia hormonal”, segundo as autoras.

A saga de “Matrix” vai ter um quarto filme, que será apenas realizado por Lana Wachowski. Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss estão de volta ao elenco, apesar de pouco se saber sobre a narrativa. Deverá estrear em maio de 2021 e as gravações já começaram. 

O quarto filme de “Matrix” obrigou ao adiamento do próximo capítulo na história do assassino “John Wick”, também interpretado por Keanu Reeves, que só poderá regressar aos cinemas em 2022.

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