Cinema

“Os Santos Mafiosos de Newark”: se não é fã de “Os Sopranos”, esqueça este filme

É um visionamento obrigatório para quem distingue o seu gabagool das suas goomahs, mas um filme a evitar para todos os outros.
Tony e o pai Johnny surgem poucas vezes juntos
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No primeira cena de “Os Santos Mafiosos de Newark”, erguem-se vozes dos túmulos de um cemitério, em monólogos que revelam os momentos da morte de cada um. Uma voz é estranhamente familiar. “Moltisanti é um nome religioso — e mesmo assim lixei-me. Encontrei a morte na estrada 23, não muito longe daqui”, confessa Christopher, o narrador e figura principal de “Os Sopranos”.

Moltisanti — que literalmente significa muitos santos em italiano — é precisamente a primeira pista dada pelo título do filme em inglês, de que embora haja uma mão cheia de Sopranos em cena, as verdadeiras estrelas são outras. É Christopher quem apresenta o pai, Dickie Moltisanti, a figura central do filme que 14 anos depois do fim da série, vem reatar a paixão dos fãs daquela que é vista por muitos como a melhor obra televisiva de sempre.

Com o criador David Chase aos comandos e o realizador Alan Taylor — que dirigiu vários episódios da série original —, “Os Santos Mafiosos de Newark”, que está disponível para aluguer nos videoclubes das operadoras, é sobretudo uma tentativa agridoce de despertar as boas memórias dos fãs, sedentos por mais tramas de “Os Sopranos”. Para o bem e para o mal, os admiradores têm exatamente aquilo que pretendiam.

Do gabagool às goomahs, todo o dialeto indecifrável e impronunciável está presente e pinta um cenário imediatamente familiar. Temos os eternos parceiros Silvio, Paulie e Pussy; a família Soprano com Livia, Janice, Johnny e Junior; e a grande novidade, a família Moltisanti, com Dickie na dianteira e, atrás de si, Hollywood Dick e Salvatore, os irmãos gémeos.

Ao contrário do que seria de esperar, o jovem Tony — interpretado pelo filho do ator original, James Gandolfini, cujas parecenças físicas com o pai são assustadoras — surge numa espécie de segundo plano, apenas movido pelo que o rodeia, sobretudo pelo tio Dickie, esse sim, a estrela deste filme.

Dickie Moltisanti (Alessandro Nivola) é o primo do lado da família materna que se torna seu grande confidente. O mafioso mais velho é a figura que Tony venera e que, depois de uma morte trágica, tenta compensar os pecados com boas ações. Uma delas, por sugestão do tio, passa por sair da vida de Tony Soprano, evitando que o rapaz sia, tal como toda a família, uma carreira no mundo do crime.

É nestas pequenas cenas onde se revelam os alicerces de “Os Sopranos” que o filme presta um verdadeiro serviço aos fãs. Fá-lo de forma mais insegura quando retrata personagens marcantes como Silvio e Paulie que acabam por se tornar em caricaturas. Mas a bem da verdade, já o eram nos anos 90.

O tesouro deste regresso à vida dos Sopranos esconde-se nos aparentemente inúteis (mas tão deliciosos) detalhes. No primeiríssimo episódio-piloto da série, Tony e Junior conversam sobre uma hipotética carreira do primeiro como atleta de futebol profissional.

O tema voltaria ao ecrã vários anos depois, no terceiro episódio da quinta temporada, num almoço de domingo que descamba quando o tio Junior insiste em repetir que Tony não tinha “a capacidade para ser um atleta de alta-competição”. À terceira vez, Tony perde as estribeiras e sai disparado da mesa.

Novamente à mesa, mas já no cenário de “Os Santos Mafiosos de Newark”, Junior (Corey Stoll) faz o mesmo comentário, para alegria dos fãs que recordam cada ínfimo pormenor da série. Quando Junior sofre uma queda — tal como acontece em “Os Sopranos” —, repete-se o vernáculo habitual: “A cona da tua mãe!” E há ainda um vislumbre da famosa cena em que Johnny Soprano dispara uma bala através do penteado volumoso de Livia, ato de raiva tantas vezes recordado em “Os Sopranos”.

Infelizmente, por cada pérola oferecida aos fãs, há uma oportunidade perdida de criar uma narrativa original e que valha a pena acompanhar nos 120 minutos do filme. Sobretudo porque muito do tempo é perdido em enredos secundários que nunca complementam devidamente a história.

Ao lado de Dickie Moltisanti está Harold McBrayer, um afro-americano que recolhe dinheiro de apostas para o mafioso, e que acaba por ter de abandonar a cidade após ter cometido um crime hediondo. Mergulhado nos violentos motins raciais de 1967, um inspirado McBrayer deixa-se seduzir pelos movimentos dos direitos dos negros, mas ao invés de se tornar num ativista, decide desenhar um plano para roubar poder aos mafiosos italianos — e criar a sua própria instituição criminosa.

Ao longo do filme, espera-se sempre que esta parte narrativa vá desembocar noutro dos grandes alicerces da saga dos Sopranos e dos Moltisanti. Quando se torna evidente que isso nunca irá acontecer, é impossível deixar de pensar que se perdeu a oportunidade de explorar, de forma mais aprofundada, a mente de um jovem Tony.

Tempo é coisa que não abunda em “Os Santos Mafiosos de Newark” e, no final, é precisamente o que lhe falta para saltar para um nível de qualidade satisfatório. Possivelmente resultaria melhor num formato de minissérie que, mesmo com a urgência de um fim sempre próximo, poderia matar a saudade aos fãs e concluir um par de narrativas sem que tudo parecesse apressado.

É complicado, para não dizer quase impossível, que um fanático rejeite à partida um filme como este. O problema é que se trata de uma produção que vive apenas e só para os fãs de “Os Sopranos” — e por conseguinte, altamente desaconselhado a quem nunca viu mais de um par de episódios da série original.

“Os Santos Mafiosos de Newark” é um produto de nostalgia absolutamente imperdível para os seguidores mais entusiastas da série. Infelizmente, é um produto mediano para quem procura mais do que um par de larachas à conta das hiperviciantes mais de 86 horas passadas entre os mafiosos italo-americanos de Newark.

O problema é mais eloquentemente explicado pela personagem de Ray Liotta, Salvatore Moltisanti, e que certamente serve de lema para a vida de todos os mafiosos de Newark e para todos os adeptos da saga após verem rolar os créditos: “É o que dizem os budistas: ‘A dor surge porque queremos coisas’.”

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