Cinema

Os segredos do grupo de elite que manda nos Globos de Ouro

A Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood é acusada de falta de diversidade e de favorecer estúdios em troca de acesso.
As estrelas fartaram-se

Por trás dos Globos de Ouro está uma pequena organização sem fins lucrativos que em tempos serviu um propósito nobre. Criada em 1943 por um grupo de jornalistas e fotógrafos estrangeiros a trabalharem nos Estados Unidos, deveria servir como forma de ganharem poder e acesso em Hollywood.

Quase 80 anos depois, são o alvo de todas as piadas e ataques. Até as estrelas do cinema se começam a virar contra o restrito (e elitista) grupo de 87 pessoas que todos os anos elege os vencedores dos Globos de Ouro.

A onda de críticas tem feito notícia sobretudo desde que alguns dos atores mais famosos decidiram deixar de lado as preocupações de represálias e apontar o dedo à Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA).

Mark Ruffalo foi um desses atores. “É desencorajador ver que a HFPA, que se tornou proeminente e que lucrou com o seu envolvimento entre os atores e cineastas, continua a resistir à mudança que lhe é pedida por muitos dos grupos que foram injustiçados graças à sua cultura de secretismo e de exclusão”, escreveu nas redes sociais.

“Esta é a altura de corrigir os erros do passado. E, honestamente, como um vencedor de Globos de Ouro, não me consigo sentir orgulho ou feliz por os ter recebido.”

Tom Cruise foi ainda mais longe e esta segunda-feira, 10 de maio, decidiu mesmo devolver três estatuetas que lhe foram entregues pela HFPA.

O escândalo atinge agora proporções mundiais, mas a controvérsia arrancou semanas antes da cerimónia que teve lugar a 1 de março, com um artigo de investigação do “Los Angeles Times”, que revelou o lado mais negro da HFPA.

Um problema de diversidade

Quase sempre vista como a gala que é a parente pobre dos Óscares, os Globos de Ouro foram sendo quase sempre alvo de piadas, até dos próprios apresentadores. Ricky Gervais, talvez o mais famoso apresentador da cerimónia — que repetiu presenças apesar das diversas polémicas —, disse que os Globos eram para os Óscares “o que Kim Kardashian era para Kate Middleton”.

A HFPA acabaria por ganhar uma má reputação entre os atores e cineastas pelas escolhas que ia fazendo ao longo dos anos. Mais recentemente, deixou de fora dos nomeados vários filmes aclamados pela crítica e liderados por elencos com protagonistas negros — quando os ditos filmes entravam diretamente nas listas dos melhores, elaboradas por outros grupos e associações.

De acordo com a investigação do “Los Angeles Times”, a lista de membros da HFPA — que não é conhecida publicamente — tem 87 nomes e pouca ou nenhuma diversidade. Não inclui um único negro no grupo que raramente tem oportunidade de absorver novos membros. O último foi Meher Tatna, antigo presidente, que saiu em 2002. E são raras as vezes que são aceites novos pedidos de admissão.

Recentemente, o tribunal deu razão à HFPA num caso interposto pela jornalista norueguesa Kjersti Flaa, que viu rejeitada a sua aplicação. Flaa acusou-os de promoverem “uma cultura de corrupção”, de funcionarem como uma espécie de cartel que monopoliza o acesso da imprensa, ao mesmo tempo que promove ligações recheadas de dinheiro com os estúdios, sem qualquer independência.

Esta falta de diversidade e representatividade tem sido apontada pelos críticos como uma das razões pelas escolhas curiosas. Mas não será a única, como revelam não só as acusações de Flaa e as conclusões do artigo de investigação do “Los Angeles Times”.

As ligações duvidosas

Numa das histórias reveladas pelo jornal norte-americano, relatava-se a viagem feita por 30 dos membros da HFPA a Paris, para visitarem o set de gravações da série da Netflix “Emily In Paris”. Segundo um membro que participou na viagem e quis ficar anónimo, foram “tratados como reis e rainhas”.

Pernoitaram durante duas noites num hotel de cinco estrelas no centro da cidade, onde a estadia pode chegar a custar mais de mil euros por noite. Curiosamente, quando nada o fazia prever — até porque a receção crítica à série foi morna, apesar do sucesso que fez na plataforma —, “Emily In Paris” foi mesmo duplamente nomeada para os Globos de Ouro. Um facto que levantou suspeitas de um eventual favorecimento, como forma de retribuir as mordomias.

Uma fonte anónima ligada à Amazon confessou ao “LA Times” que os membros da HFPA “vivem para os eventos, ao invés de viverem do amor pelos filmes — é mais importante a forma como são tratados”. “Tens que fazer sempre boas receções em sítios elegantes. Se não fizeres isso, vais ouvir muitas queixas. Fazem questão de o dizer a toda a gente.”

Dúvidas foram também levantadas sobre quem são os membros que compõem a HFPA. Em 2015, a revista “Vulture” tentou descortinar a identidade de vários dos elementos e descobriu que “embora alguns sejam jornalistas legítimos e críticos [de cinema]”, muitos são apenas pessoas que saltam de evento em evento, “mais interessados em tirar uma foto com o entrevistado do que particularmente em colocar-lhe questões”.

Embora seja esperado que todos os membros da HFPA produzam várias peças jornalísticas — de forma a justificar a sua manutenção como membros ativos —, a verdade é que a maioria produz muito pouco. Para lá de um pequeno grupo de elite, diz a “Vulture”, a maioria “pode escrever quatro ou cinco artigos por ano”.

Também o estatuto de organização sem fins-lucrativos e a aura de independência que dela é esperada tem sido posta em causa. Diz o “Los Angeles Times” que no ano fiscal que terminou em junho de 2020, a HFPA pagou cerca de 1,5 milhões de euros aos seus membros. Valores justificados não só pelos artigos escritos mas por diversas atividades, como visualização de filmes estrangeiros ou moderação de eventos. A política de pagamentos contrasta com o que acontece nas outras academias e organizações, cujos membros não recebem quaisquer regalias deste género.

De acordo com o jornal norte-americano, que cita um membro anónimo, quem ousava aceitar fazer qualquer tipo de atividade não remunerada, era mal visto no seio da HFPA. “Fazer algo sem receber faz com que se torne mais difícil para os outros sejam pagos pelo seu trabalho”, terá ouvido da boca de um colega.

A reação

Perante o avolumar das críticas, a HFPA foi forçada a agir. Ainda em fevereiro, comunicou um plano para assegurar que integraria membros de outras etnias e origens, de forma a diversificar o elenco. Esse plano contemplaria também um aumento de 50 por cento no número de membros, a efetivar durante os 18 meses seguintes. Prometeram também que criariam novos postos como o de diretor para a diversidade, igualdade e inclusão.

A mudança claramente não foi suficiente. Às críticas dos diversos atores que, durante muitos anos, se mantiveram em silêncio — apesar de não serem os Óscares, os Globos de Ouro eram vistos como uma oportunidade para muitos atores e cineastas de obterem reconhecimento; e essa ambição poderia ser limitada caso criticassem a organização —, juntaram-se também nomes como a Amazon e a Netflix, que em maio anunciaram que iriam cessar todas as atividades previstas com a HFPA.

“A Netflix não acredita que estas novas políticas conseguirão resolver o problema sistémico da diversidade e os desafios da inclusão que afetam a HFPA”, explicou o CEO da Netflix, Ted Sarandos.

Um dos golpes mais duros surgiu esta segunda-feira, 10 de maio, com o anúncio da “NBC” de que não iria transmitir a edição dos Globos de Ouro prevista para 2022, precisamente pelo mesmo motivo. “Continuamos a acreditar que a HFPA está comprometida em efetivar uma mudança séria. Contudo, mudanças desta magnitude levam o seu tempo e exigem trabalho. Sentimos que a HFPA precisa de tempo para o fazer bem. E, dessa forma, a NBC não irá transmitir os Globos de Ouro de 2022. Assumindo que a organização leva a cabo o seu plano, temos esperança de que possamos voltar às transmissões em janeiro de 2023.”

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