Cinema

Os últimos meses de vida de Chadwick Boseman foram dolorosos (mas felizes)

Casou com a mulher que amava, gravou as cenas do seu próximo filme e nunca revelou o segredo da doença.
Chadwick Boseman tinha 43 anos

Faltavam poucos dias para a antecipada estreia de “Black Panther”, a primeira mega-produção de Hollywood com um super-herói negro como protagonista. Antes do grande dia, Chadwick Boseman abriu-se durante uma conferência de imprensa de antecipação e desviou-se do tema para falar de dois miúdos que conhecia e com quem falava. Eram dois fãs tremendos do ator e da história. Eram também dois pacientes de cancro que tinham um desejo: ver o filme antes de morrer.

“Falava com eles durante as filmagens, sabendo que eles eram doentes terminais. Eles e os pais diziam-me que estavam a tentar aguentar até que o filme saísse”, recordou, muito emocionado. “Lembro-me de ser miúdo também, de ansiar pelo Natal, pelo aniversário, por um videojogo, vivia a vida por esses momentos. Isto colocou-me no lugar desses miúdos e de sentir a sua ânsia por este filme.”

Já não foi possível segurar as lágrimas assim que revelou que ambos morreram antes de concretizarem o desejo. Só dois anos mais tarde é que saberíamos que havia mais um motivo para aquela emoção: Boseman estava, também ele, a lutar contra o cancro.

A morte do ator de 43 anos foi revelada este sábado, 29 de agosto, através de uma curta e esclarecedora mensagem nas redes sociais que voltava a surpreender os fãs. “O Chadwick foi diagnosticado com cancro do cólon em estádio III em 2016 e lutou com ele durante quatro anos, à medida que progrediu para uma fase terminal”, explica a nota que se tornou no tweet com mais likes de sempre — mais de 7,4 milhões. De repente, todos os últimos quatro anos da vida do ator eram revisitados com um olhar completamente diferente.

A opção de Boseman foi quase sempre a de manter a privacidade em todas as fases da sua vida. Esta não foi exceção. Nem os colegas de profissão tinham conhecimento do drama que vivia — o que deu ainda mais contundência ao impacto da notícia da sua morte.

Entre gravações e hospitais

A transição entre o papel de Boseman em “Marshall” — no qual interpretou o primeiro afro-americano a conquistar um assento no Supremo Tribunal de Justiça do Estados Unidos — e o de T’Challa em “Black Panther” foi tema de uma entrevista em 2017, na qual o ator filho de uma enfermeira e de um operário têxtil deixou uma mensagem enigmática.

Questionado sobre a dureza de ter que perder bastante peso, já que foi gravado entre atuações no papel do musculado T’Challa, o ator respondeu: “Sim sim, nem fazes ideia. Um dia hei-de viver para contar essa história”.

Desde o diagnóstico até à morte, o ator nascido na Carolina do Sul não parou de trabalhar e completou as gravações de pelo menos sete filmes, entre eles o seu maior sucesso, “Black Panther”. Ninguém soube da doença e das árduas sessões de quimioterapia.

Um dos ex-colegas que se mostraram completamente surpreendidos foi o realizador Ryan Coogler, que assinou um longo texto sobre a morte de Boseman, onde revelou que ninguém na produção desconfiava sequer da doença.

“O Chad valorizava a privacidade e eu não estava a par de nada sobre a doença. Só quando a família lançou o comunicado é que percebi que viveu com a doença durante todo o tempo em que eu o conheci (…) Ele protegeu quem trabalhava com ele do seu sofrimento, isto porque era um cuidador, um líder, um homem de fé, dignidade e orgulho”, escreveu.

Até que a morte os separe

A doença não o impediu de ajudar os outros, da mesma forma que não foi um impedimento no caminho de Boseman durante a conquista de Hollywood, ele que sempre sonhou ser arquiteto. Também desenhava bem — e acabou mesmo por se formar em belas artes. Só que uma tragédia puxou-o para a arte que era realmente a sua vocação. Quando um colega de escola morreu alvejado, Boseman inspirou-se para escrever uma peça de teatro. Tinha apenas 13 anos.

O cancro também não o assustou ou fez hesitar noutro dos momentos mais importantes da sua vida: o de se declarar a Taylor Ledward. O ator de 43 anos e a cantora conheceram-se em 2015, embora a sua relação também tenha sido mantida longe do olhar do público. A confirmação do romance chegou apenas com uma declaração da avó de Ledward em 2018.

Ao lado de Taylor na última aparição pública, no NBA All Star Game, em fevereiro

O casal terá ficado noivo no final do ano seguinte e mesmo sob a sombra da doença, ter-se-à casado nos últimos meses de vida de Boseman. “Ele morreu na sua casa, com a mulher e a família ao seu lado”, notava o comunicado.

Cuidar dos outros

Apesar de todo o secretismo e do desaparecimento da vida pública ser relativizado dada a pandemia, a mais recente aparição de Boseman deixou os fãs bastante preocupados. Quando lançou um vídeo em abril, no qual apoiava um projeto que procurava angariar equipamento de proteção para hospitais cujos doentes eram maioritariamente afro-americanos, a drástica perda de peso tornou-se difícil de esconder.

 

 
 
 
 
 
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A notícia da morte do ator fez surgir inúmeros relatos da forma como procurava ajudar os outros. O mais recente relato chegou de um hospital para crianças no estado do Tennessee, nos EUA.

Segundo os responsáveis do hospital, que publicaram uma nota pública de agradecimento, Boseman passou pelo local em 2018 para entregar brinquedos e “dar alegria, coragem e inspiração” às crianças doentes que também lutavam contra o cancro.

Anos antes, era Boseman quem estava do outro lado. Quando era apenas um jovem com o sonho de ser ator, candidatou-se a um curso de verão na British American Drama Academy. Foi aceite, mas não podia frequentar o curso porque não tinha dinheiro para o pagar.

A sua mentora na altura, a atriz Phylicia Rashad, pediu ajuda. Do outro lado da linha estava Denzel Washington, que prontamente entregou a quantia necessária. “Ditou o destino que eu tenha sido um dos alunos que receberam esse dinheiro. Imaginem receber uma carta a dizer que a propina desse verão está paga e que quem o pagou foi o ator mais fixe de todo o planeta”, revelou Boseman num discurso em 2019, durante uma cerimónia em honra de Denzel Washington.

O último presente

Apesar de quatro anos intensos de luta, não parou um segundo. Haverá, assim, pelo menos mais um filme para ver com Boseman no elenco — ele que começou a carreira com um papel numa modesta telenovela norte-americana. Trata-se de “Ma Rainey’s Black Bottom”, inspirado na peça com o mesmo nome, escrita pelo dramaturgo August Wilson.

O filme, que está na fase de pós-produção, irá relatar um dia no estúdio de gravação com a cantora Ma Rainey. Só ainda não está definida a data em que chegará à Netflix, mas será certamente a última oportunidade de ver Chadwick Boseman no ecrã.

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