Cinema

A paixão proibida que quase matou Sammy Davis Jr. vai dar um filme

Envolve mafiosos, chefes de estúdio impiedosos com tiques de Mussolini e um amor secreto. E nada disto é ficção.

“Ouve, tenho notícias terríveis para ti”, disse o homem baixinho e corpulento que forçou a atenção de Sam Davis Senior, pai de Sammy Davis Jr., num dos primeiros dias de janeiro de 1958. Encurralado na pista de corridas de Hollywood Park, não teve outra saída senão ouvir com atenção o que lhe diziam. “Acabei de receber uma chamada de Chicago a dizerem para magoar o Sammy.”

O homem de tom ameaçador era Mickey Cohen, mafioso de profissão e de temperamento instável. “Só há uma forma de se safar. Dou-lhe 24 horas para que se case com uma rapariga de cor”, concluiu.

Vivia-se ainda numa América dividida pela cor que o cantor, dançarino e ator Sammy Davis Jr. conhecia bem. Mas, apesar de se ter tornado numa das maiores estrelas do circuito artístico — era o único elemento negro da famosa Rat Pack, o grupo de artistas em voga na época, composto por Frank Sinatra, Dean Martin, Joey Bishop e Peter Lawford —, acabou por ser o protagonista de um romance escandaloso que por pouco não terminou em tragédia.

A ameaça era séria e Sammy resolveu procurar uma proteção igualmente eficaz. A chamada seguinte dirigiu-a a Sam Giancana, chefe mafioso de Chicago. A resposta não foi a que pretendia: “Podemos proteger-te aqui em Chicago ou em Las Vegas, mas não podemos fazer nada em Hollywood. Não voltes para casa sem esclareceres tudo com o Harry Cohn.”

Harry Cohn era uma personagem invulgar. Homem forte de Hollywood que fez crescer a Columbia Pictures, tinha fama de durão. Recebia os funcionários de chibata na mão, que fazia estalar na secretária quando se irritava, revela a “Vanity Fair”. Nessa mesma secretária estava sempre uma fotografia do fascista Benito Mussolini.

“Deixei de cobrir as notícias de Al Capone para cobrir o Harry Cohn. O Cohn era, de longe, o cruel dos dois”, revelou o jornalista James Bacon. “Ele estava sempre a despedir pessoas, sobretudo na véspera de Natal.”

Rita Hayworth e Harry Cohn

Teria sido mesmo Cohn a pedir um favor à mafia da costa oeste, para que encostassem Sammy Davis à parede. “Não pediu que o matassem, mas que lhe partissem as pernas ou dessem cabo do outro olho [Sammy perdeu um dos olhos num acidente aos 29 anos]”, revela à “Vanity Fair” Arthur Silber, amigo próximo do cantor.

O problema de Cohn com Davis começara no ano anterior, no clube Chez Paree de Chicago, onde o cantor atuava. No público estava uma cara famosa, de pele impecavelmente branca, feições quase perfeitas e cabelo loiro. Ela pediu para o conhecer pessoalmente. Ele também. Ela era Kim Novak, a nova estrela da Columbia, próxima estrela de Hitchcock — seria protagonista de “Vertigo”, que estrearia no ano seguinte — e protegida de Harry Cohn.

Recrutada aos 20 anos pelo chefe da Columbia, era o próprio quem dizia que ela seria a sua última estrela depois do seu grande trabalho, Rita Hayworth. Na Hollywood dos anos 40 e 50, os talentos eram tratados como uma mercadoria valiosa e Cohn fez isso mesmo com Novak, que ficou alojada num dormitório, vigiada dia e noite, até se transformar na pérola que faria ao estúdio milhões de dólares.

Outra regra era inquebrável: não eram permitidos homens. As relações e gravidezes das jovens estrelas eram um risco que os estúdios não podiam suportar. O sex appeal (e o dinheiro) perdia-se assim que o anel caía no dedo — e são às centenas as histórias de abortos forçados e cláusulas proibitivas na velha Hollywood. https://www.nit.pt/cultura/cinema/abortos-drogas-e-assedio-vida-pouco-charmosa-da-atrizes-historicas-em-hollywood

Kim Novak brilhou em “Vertigo” de Hitchcock

Nesse outono de 1957, Novak ousou quebrar todas as regras. O encontro no Chez Paree terminou numa festa em casa de Davis, onde os dois deram início a uma relação. Novak, a jovem branca, loira e estrela de cinema, com Sammy Davis Jr., um gigante no meio artístico mas, ainda assim, um homem negro. A relação comportava um risco enorme para ambos: podia arruinar as duas carreiras de um só golpe.

Mesmo com encontros secretos, os tablóides agarraram nos rumores e escancararam tudo nas colunas dedicadas às fofocas. “Que estrela do cinema feminina (KN) está num romance com outro grande nome do entretenimento (SD)”, escreveu-se. A revelação chegou rapidamente a Cohn.

De acordo com a “Vanity Fair”, Sammy Davis, ciente do risco que a carreira de Novak corria, desculpou-se e deixou a decisão nas suas mãos. A atriz, desafiadora, não quis saber. A relação manteve-se firme, embora ainda mais sigilosa do que até então.

Davis visitava-a, levado de boleia no carro de amigos, onde se escondia debaixo de tapetes. Mais tarde alugaram uma casa na praia para os encontros mais secretos.

Apesar de bem estabelecido na indústria, o risco para Davis era bem real. Esteve perto de perder o seu papel no filme “General Electric Theater” de 1958 porque os patrocinadores não queriam irritar o público conservador e racista dos estados sulistas. Nos anos 50, homens negros ainda eram linchados por assobiarem a mulheres brancas.

Cohn soube da relação durante uma viagem a Nova Iorque e viajou no dia seguinte de urgência para Los Angeles. A meio da viagem, sofreu um pequeno enfarte. Pior seria a reação quando chegaram os rumores de um potencial casamento.

Sammy Davis Jr. viveu dias de pânico. Acompanhado de Silber, passaram a dormir com as armas ao seu lado, agora com munições reais. “Foi assustador. Eu e o Sammy gostávamos de brincar com as armas, mas era sempre tudo feito. Pela primeira vez na minha vida, comecei a colocar-lhe balas reais. O Sammy também. Nunca sabíamos quem é que estava a dormir na suite do lado”, confidenciou à “Vanity Fair”.

Sammy Davis Jr. dormia com uma arma carregada

Numa das noites, Sammy vestiu-se e preparou-se para sair. “Vou encontrar alguém para casar. Tenho que casar com uma rapariga negra.”

Poucos dias depois de receber a ameaça, a 10 de janeiro, casava com Loray White, cantora de 23 anos que ia para o seu terceiro casamento. O acordo era simples: receberia um pagamento em troca do casamento e, dentro de um ano, a união seria anulada. Foi a única forma de apaziguar Cohn e os seus capangas.

A noiva chegou 40 minutos atrasada e a cerimónia não durou mais de dois minutos. Já na suite, chegou a chamada pretendida: “Podem dizer [ao Sammy] que o Mickey manda dizer que está tudo bem. Já pode relaxar”.

Mais de cinquenta anos depois, ainda se debate sobre se a vida do cantor estaria realmente em perigo ou tudo não passou de uma pequena chantagem sem fundamento. Sy Marsh, antigo agente e sócio de Davis, garante: “Ele esteve a centímetros de ser assassinado.”

A relação terminou. Davis manteve a sua carreira de sucesso — e haveria de voltar a envolver-se com uma loira, com quem haveria de casar, numa outra relação polémica — e Novak haveria de deixar Hollywood para sempre, anos mais tarde. Ironicamente, o homem que arruinou a relação morreu pouco mais de um mês depois do casamento de Davis. Cohn foi vítima de um ataque cardíaco fatal em fevereiro de 1958.

Davis e Novak haveriam de cruzar-se mais duas vezes. Na cerimónia dos Oscars de 1979, onde se abraçaram, fugiram da vista para uma conversa de 45 minutos e regressaram para dançar no baile. E finalmente em 1990, no hospital onde Sammy esperava a morte, depois de anos de luta contra um cancro na garganta. Conversaram sentados na cama — mas antes, Sammy tinha feito questão de pedir que fossem a sua casa e lhe trouxessem o seus mais bonitos pijamas e robes de seda. Tudo por Kim Novak.

Uma história destas só podia dar um filme — e vai mesmo. A produção vai ter o nome de “Scandalous!” e deverá ter Jeremy Pope no papel de Davis Jr. e Janet Mock como Kim Novak. Só ainda não se sabe para quando fica marcada a estreia.

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