Uma década antes de Walt Disney se tornar um nome familiar, uma artista alemã inventou o cinema de animação como o hoje conhecemos, com tesouras, papel preto, destreza e muita paciência. Em 1926, Lotte Reiniger apresentou ao mundo algo impossível: uma longa-metragem de 80 minutos feita inteiramente de silhuetas recortadas. O filme “As Aventuras do Príncipe Achmed” celebra este ano o seu centenário e vai voltar a ser exibido, em Lisboa, no dia 21 de março.
Enquanto o cinema aprendia a falar, a visionária alemã criou um bailado de sombras inspirado nos contos das “Mil e Uma Noites”, onde príncipes voam em cavalos mágicos e demónios se transformam em fumo, tudo recortado à mão com a precisão de um cirurgião. Embora Walt Disney tenha ficado com a fama, foi Reiniger quem primeiro utilizou camadas de vidro sobrepostas para criar profundidade de campo (o que hoje conhecemos como “câmara multiplano”).
Inspirada pelas sombras chinesas, Reiniger criou figuras de papel preto que colocava em diferentes níveis para que o fundo parecesse distante e a ação principal “saltasse” para o primeiro plano. O filme conta a história de um príncipe árabe que é levado num cavalo voador para uma terra encantada, onde se enreda com um feiticeiro, salva uma princesa e junta forças a Aladino (um jovem astuto que descobre uma lâmpada de onde sai um génio disposto a realizar desejos).
As personagens meticulosamente recortadas em papel eram articuladas com fios de metal, que permitiam movimentos fluídos das pernas, braços, mãos e até mostrar expressões subtis, tudo filmado em stop-motion. Hoje considerada uma “proeza técnica da engenharia em miniatura”, a obra de animação é “paciência elevada a forma de arte”.
A animação de “As Aventuras do Príncipe Achmed” demorou três anos a concluir: cada segundo de filme precisa de 24 fotografias de figuras movidas milímetro a milímetro. A cor era adicionada tingindo a própria película (técnica de tintagem), criando ambientes azuis para a noite e laranjas para o deserto.
Com técnicas aparentemente simples, Reiniger criou um universo visual tão rico que não precisava de palavras. Decorridos 100 anos da estreia, “Die Abenteuer des Prinzen Achmed” (título original) continua a exercer o mesmo fascínio sobre o público. Agora, a Cinemateca Portuguesa, em colaboração com o festival MONSTRA 2026, traz o Príncipe Achmed de volta ao seu habitat natural: a sala escura.
A sessão integra o ciclo “Sábados em Família, Cinemateca Júnior” e irá decorrer no dia 21 de março, às 15 horas, na Sala M. Félix Ribeiro. Ao vivo, a acompanhar as sombras de Reiniger, estará a pianista Catherine Morisseau.
Os bilhetes estão disponíveis para compra online, com preços entre 1,10€ (menores de 16 anos) e 3,20€ (com descontos para estudantes, maiores de 65 anos e Amigos da Cinemateca).

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