Cinema

Quem é A.M. Lukas, a acusadora de Nuno Lopes que quer “expor a cultura de violação”

Há quase uma década, a realizadora e argumentista já falava publicamente sobre como "a culpa é sempre atirada para as vítimas".

Em 2014, a Starz teve uma ideia para um documentário: dois inexperientes realizadores receberiam o mesmo guião e teriam que criar um filme com base no mesmo material. Ao longo de dez horas, “The Chair” relataria as incidências do processo e, no final, haveria lugar a uma votação para escolher o vencedor, que receberia um prémio de 230 mil euros.

Anna Martemucci (ou A.M. Lukas, como hoje se dá a conhecer na indústria cinematográfica) foi uma das escolhidas. Do outro lado da barricada estava Shane Dawson, conhecido youtuber que acabou por ser cancelado por comportamentos impróprios e uso de blackface. Um escândalo que manchou “The Chair”, mas não só.

Martemucci, que por estes dias acusa Nuno Lopes de a ter violado e drogado num encontro em 2006 em Nova Iorque, sofreu as consequências não só da queda de Dawson mas também do polémico final de “The Chair”. “A série era um documentário sobre o dia a dia de uma produção independente de baixo orçamento, mas incluía uma competição controversa que envolveu uma estrela do YouTube caída em desgraça”, diz a norte-americana no seu site oficial.

“Anos depois de ter ido para o ar pela primeira vez, o programa (e os eventos reais que o rodearam) inspirou vídeo viral atrás de vídeo viral, que gerou uma conversa que redundou no apontar de dedo aos produtores pelo tratamento de Lukas, bem como o inadvertido retrato da série de temas como discriminação de género, misoginia e sexismo.”

Na base destas queixas está a entrega do prémio a Dawson pelo seu trabalho final, “Not Cool”, um filme que, segundo alguns especialistas do ramo, gerou “as piores críticas que alguma vez vi”. “Uma crítica disse que quem gostava do meu filme, devia ser um violador, racista e sociopata”, comentou

Dawson afirmou sobre a tal crítica publicada no “Los Angeles Times”. “Nunca ouvi uma crítica a dizer que as pessoas envolvidas em dar uma oportunidade de fazer um filme a esta pessoa deveriam ser banidas da indústria.”

Zachary Quinto, ator envolvido no filme, ficou tão insatisfeito como resultado que decidiu retirar o seu nome da lista de créditos. “Não posso associar o meu nome a este tipo de conteúdos. Não consigo”, referiu.

Por outro lado, o filme criado por Lukas foi relativamente bem recebido. “É inteligente, aconchegante e autêntico. Uma das melhores comédias jovens lançadas nos últimos anos”, notou o “Los Angeles Times”. O filme, que retrata o regresso a casa de um grupo de jovens para o Dia de Ação de Graças, alguns meses depois de todos terem partido para novas cidades, para estudar na universidade.

A discussão que sucedeu este trabalho e a polémica de “The Chair” levaram a muita especulação online. Ainda em 2014, Lukas fez o que muitas figuras fazem: passou pelo Reddit, o maior fórum online, e submeteu-se a uma entrevista direta e sem barreiras. Uma das utilizadoras questionou-a sobre os desafios de ser uma realizadora em Hollywood e sobre o significado desta competição, na forma como mostrou duas visões muito distintas do cinema, a masculina de Dawson e a sua, mais feminina. A resposta da argumentista e realizadora toca precisamente nos temas que se debatem por estes dias perante a sua acusação dirigida a Nuno Lopes.

“Pouco tempo antes de participar no ‘The Chair’, passei por uma espécie de despertar pessoal, no qual percebi que além de ser cineasta e de contar histórias, queria dedicar a minha vida a propagar a ideia de que todos os seres humanos são iguais e devem ser tratados com compaixão”, escreveu.

“Quero usar a minha vida para mostrar as desigualdades de género. Quero colocar a nu os estereótipos raciais. Quero expor a propagação da cultura de violação — a ideia de que vivemos numa cultura onde as vítimas de crimes sexuais são quase sempre as culpadas, ao mesmo tempo que se desculpam os perpetradores.

Mas o seu maior sucesso é talvez a curta-metragem “One Cambodian Family Please for My Pleasure”, que contou com a presença de um nome forte como protagonista, a britânica Emily Mortimer. A curta chegou mesmo a fazer parte de uma lista de pré-seleccionados para os Óscares, embora não tenha conseguido a nomeação.

Lukas escreveu e dirigiu a curta que conta a história de refugiada checa a viver nos EUA, onde pinta um cenário idílico sobre a vida americana, enquanto escreve uma carta a pedir a uma organização que envie uma família de refugiados do Cambodja para o seu novo lar, precisamente na sua cidade de sonho, Fargo, no Dakota do Norte. Curiosamente, Lukas inspirou-se na história da própria família.

O filme que estreou no Festival de Cinema de Toronto em 2019 tem por base o percurso dos pais de Lukas, filha de imigrantes — uma refugiada política checa que escapou à então soviética Checoslováquia e de um italiano. “Gostava de poder dizer que [o filme] se inspira no atual momento político que vivemos, porque acho que é uma boa resposta ao que enfrentamos e à divisão que existe”, explicou à “Deadline” em 2019.

“Na verdade, o filme inspira-se na vontade de escrever uma história sobre a minha mãe. O facto de o filme ter tanto a ver com o clima atual é uma coincidência.” Lukas é também neta de Jan Lukas, conhecido fotógrafo e cineasta checo. Formou-se em 2004 na New York University Tisch School of the Arts e sonhava ser autora e cineasta. Nos primeiros anos, chegou a trabalhar como estagiária de Wes Anderson.

A acusação a Nuno Lopes

O caso veio a público esta terça-feira, 21 de novembro. A.M. Lukas deu início a um processo no qual acusa o ator português de a ter drogado e violado num encontro entre ambos em 2006, em Nova Iorque. Depois de a acusação vir a público e de Lopes se ter defendido, os advogados de AM Lukas ripostaram e rebateram a acusação feita pelo ator de que a argumentista teria pedido dinheiro para não avançar com o processo. “Lukas nunca propôs qualquer quantia monetária para resolver este assunto e também nunca propôs manter nada confidencial em troca de dinheiro”, revela o advogado Michael J. Willemin à CNN Portugal. “Ela pediu a Lopes que assumisse publicamente a responsabilidade pelo seu comportamento, mas ele recusou-se a fazê-lo.”

Nuno Lopes defendeu-se prontamente com um comunicado, no qual anunciou que recebeu “com surpresa e choque” a denúncia. Nota também que a carta que lhe chegou pedia que “propusesse uma quantia monetária para este caso acabar”. Uma afirmação que os advogados dizem ser “enganosa e incompleta”.

A.M. Lukas interpôs esta segunda-feira, 20 de novembro, uma ação judicial no tribunal de Nova Iorque contra Nuno Lopes. Lukas detalha na acusação que conheceu o ator numa festa de estreia de um filme de uma amiga (a 28 de abril de 2006) e que o ator lhe terá introduzido alguma substância na bebida, o que a levou a perder a consciência. Recorda-se de ter sido levada para o apartamento do ator português e, posteriormente, de acordar após a agressão sexual. Nesse momento o ator ter-lhe-á chamado um táxi. Nuno Lopes publicou um comunicado nas redes sociais onde refuta as acusações.

Depois do alegado crime, Lukas diz ter sido diagnosticada com stress pós-traumático e vítima de episódios maníaco-depressivos e pensamentos suicidas. “Não podemos aceitar um mundo em que perpetradores de abomináveis e desumanos comportamentos possam viver a sua vida, impunemente e sem consequências sociais, enquanto as vítimas sofrem em silêncio.” Os advogados da guionista exigem uma “indemnização compensatória e punitiva”.

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