Cinema

Realizadora e atriz Ana Rocha de Sousa revela que foi violada quando era adolescente

“Quero acreditar que deixaste de fazer uso da tua fama para assediar e aliciar teenagers”, disse após receber um prémio esta quinta-feira.
O incidente aconteceu em 1995.

A realizadora e atriz portuguesa Ana Rocha de Sousa, de 42 anos, foi distinguida esta quinta-feira, 27 de maio, na categoria de Artes dos Prémios ACTIVA Mulheres Inspiradoras 2020. A gala aconteceu no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e, como explica a própria revista “Activa”, Ana Rocha de Sousa fez um discurso sobre violência sexual, revelando que foi violada em 1995, quando tinha apenas 17 anos. O vídeo do discurso pode ser visto no site da mesma publicação.

A realizadora e atriz começou por dizer que “não existe uma mulher que não tenha tido medo de atravessar um parque escuro à noite, ou qualquer outro sítio mais óbvio de perigo eminente”. “Existe sempre um momento em que baixamos a guarda”.

Depois, partilhou a sua história. “E, um dia, também eu baixei a guarda e não devia. Culpei-me. Até porque era tão ingénua, própria da tenra idade, que, mesmo avisada com estranheza do perigo, achei ser impossível. Hoje, falo para meninas, adolescentes, recém mulheres. O perigo não está apenas nos lugares óbvios. Protejam-se. Seja perante a casualidade do homem anónimo escondido nas dunas. Seja perante o cantor famoso que acham conhecer e parece tão seguro porque vos encantou com palavras líricas e bonitas. Foi em 1995 a história que não vos posso contar“, disse. 

“Arrependo-me de muito pouco na vida, mas lamento ter guardado a história que tenho cravada por contar. A ti, menina, mulher, adolescente, eu digo: não tens culpa. Lembra-te e repete: não tens culpa. A ti, tenho imenso para dizer que pode ajudar. Escreve, se te fizer algum sentido, o que acabo de contar”, acrescentou.

Ana Rocha de Sousa falou ainda sobre aqueles que criticam o movimento #MeToo, que nas últimas semanas tem tido alguma expressão em Portugal, com várias pessoas a denunciarem pela primeira vez casos de assédio sexual de que foram alvo.

“Aos inconsequentes que reviram os olhos a estas meninas-mulheres que falam, estas que se chegam à frente, parem imediatamente de se enfadar. Isto não é para brincadeiras. Não são jogos de brincar. Parem já de exigir detalhes a quem, por lei, não os pode revelar. Mais ainda: parem de viver como se alguém no seu perfeito juízo queira ser notícia com isto ou ter o rosto colado a estas dores; a estas tristezas. Saibam que a culpa, a vergonha, nos é imensamente dura e que a última coisa de que precisamos é cobrança, acusação, mais dor ou qualquer réstia de julgamento.”

Ana Rocha de Sousa terminou o discurso dirigindo-se diretamente ao seu agressor. “A ti, assediador, violador. Sejas tu um outro, uma patrão, um homem da duna ou um cantor famoso. Fui ensinada a desejar o bem. O bem te desejo. Não pretendo nunca destruir a vida de ninguém. Jamais. Quero acreditar que passados mais de 25 anos és outra pessoa. Esperemos que sejas diferente e muito melhor. Quero acreditar que deixaste de fazer uso da tua fama para assediar e aliciar teenagers para o teu universo sexual, violento, louco e promiscuo. Quero acreditar que fui a única a ser forçada a crescer bruscamente sozinha na vergonha da minha culpa. Que assim tenha sido. Oxalá que assim seja. Repito: nem sou capaz de te desejar mal. Compreendo que só uma alma muito dorida, perdida e atormentada faz o que tu sabes que me fizeste. Ouve bem: nunca mais voltes a fazer. Nunca mais voltes a fazer.”

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