Cinema

Renegou o pai e casou com um aristocrata. A vida improvável de Jessica Chastain

É uma das atrizes do momento em Hollywood e está de volta num novo filme cheio de ação.
A atriz está de volta aos cinemas.

Quando Jessica Chastain tinha seis anos de idade, a avó levou-a pela primeira vez a uma peça de teatro. Saiu de lá com uma daquelas certezas que os miúdos têm e que o tempo há-de esclarecer. Não imaginava como é que poderia querer fazer outra coisa na vida adulta que não fosse brincar ao faz de conta. E brincou tanto que a coisa se tornou séria.

Quando foi nomeada pela primeira vez aos Óscares, por “As Serviçais” (2011), decidiu levar a avó como companhia. Vinda de um meio humilde, viu a avó “feita tontinha”, animada entre as estrelas. “Ela diz que foi o melhor dia da vida dela”, recordava a atriz americana ao “The Guardian” em 2016.

A família sempre foi o foco central e ao mesmo tempo o lado mais difícil da sua vida. A sua mãe, Jerri, teve-a apenas com 16 anos. O pai, segundo consta, era o músico de rock Michael Monasterio, que tinha na altura 17 anos. Dizemos segundo consta porque na mesma entrevista Jessica Chastain foi perentória: “não há provas disso”. Leia-se: o nome dele nem sequer constava na certidão de nascimento. Para ela, o pai sempre foi Michael Hastey, o bombeiro que se tornou o seu padrasto.

Na altura em que Jessica nasceu, os pais, ainda adolescentes, separaram-se mas reconciliaram-se mais tarde a tempo de nascer Juliet, a sua irmã, antes de se voltarem a separar. O pai nunca lá esteve nem nunca pagou pensão de alimentos. Juliet ainda se reconciliaria com ele uns anos depois, mas não Jessica.

Em 2003, a irmã cometeu suicídio em casa do pai. Dez anos depois, Monasterio, que construiu depois toda uma outra família, morria em casa, vítima de doença. Há um elogio fúnebre online a recordar a família de Monasterio. O nome de Juliet surge, o de Jessica não.

A atriz nasceu em Sacramento, na Califórnia, em 1977. Na hora de entrar para a faculdade, sabia o que queria. Pediu o carro emprestado à mãe e conduziu até São Francisco. Era lá que estavam a decorrer audições para a Julliard, a prestigiada escola de artes de Nova Iorque. Eram mais de 1.400 candidatos para 20 vagas. Jessica reservou o seu lugar na primeira audição. A tal brincadeira era agora coisa séria, não só para ela mas para todos.

Jessica foi a primeira pessoa da sua família a conseguir estudar na faculdade. Ao início, foi preciso que vários familiares dessem uma ajuda para pagar as propinas. Felizmente, Robin Williams criara uma bolsa. Ela concorreu — e acabou mesmo por ganhar.

Escreveu a agradecer ao ator mas nunca lhe agradeceu pessoalmente. Uns anos mais tarde, estava a almoçar em Los Angeles com um realizador quando o ator se sentou numa mesa ao lado. Foi ganhando coragem para meter conversa mas a dada altura ele salta da cadeira e sai do restaurante.

Robin Williams morreu em 2014. Jess Weixler, atriz e amiga pessoal de Jessica, que tinha trabalhado com Robin Williams, contou-lhe que ele tinha visto todos os filmes que Jessica tinha feito até então.

Elegância e bom humor durante confinamento.

Hollywood, aqui vou eu

Depois da Julliard e de uns primeiros papéis na televisão e no teatro, em 2006 a atriz conseguiu um papel ao lado de Al Pacino em “Salomé”, uma peça de Oscar Wilde. Quando uns anos depois Al Pacino decidiu realizar a adaptação ao cinema, levou-a como protagonista. O filme saiu em 2013 e nessa altura já o seu nome era mais do que uma promessa em Hollywood. Ao contrário de Robin Williams, desta vez houve oportunidade de agradecer. E a atriz já falou por mais de uma vez de Al Pacino como o “professor durante um ano” que teve o privilégio de ter.

No ano em que as “As Serviçais” estreou, estreava também o etéreo “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, obra que a própria descreve como “um poema” e o filme que mais lhe custou terminar pelas saudades que deixou. Apareceu na estreia de muletas, num momento curioso para a própria, que nunca deixou de ter noção do seu lado tímido.

Antes da estreia, decidiu experimentar, a convite de amigos, motocross. A coisa não correu lá muito bem e estirou os ligamentos do joelho. “Sou uma pessoa muito responsável”, justificava-se a própria numa entrevista à “Elle”. “As pessoas ouvem-me falar do acidente e pensam que sou esta pessoa louca e destemida. Nada disso. Sou a miúda que lê Shakespeare e toca ukelele.”

A tal miúda que foi da distante Sacramento até Hollywood consegue hoje em dia estas difíceis combinações: conhece o luxo mas procura nunca esquecer o talento e o trabalho que a levaram até ali. Desde 2017 que está casada com Gian Luca Passi de Preposulo, filho de uma família rica e aristocrata italiana. Ainda assim, o casal consegue manter a discrição.

Ao mesmo tempo, continua a contar com a presença da mãe, ela que até se tornou chef vegana depois de duas semanas com Jessica. Gostou tanto das coisas que a filha comia que quando voltou a Sacramento não tinha onde ir comer. Decidiu abrir o próprio restaurante, com a ajuda da filha. A dieta contagiou o resto da família. Por estes dias, no Instagram, a atriz tem-se divertido em vídeos onde surge a cozinhar com a avó.

Talvez este lado terra-a-terra ajude a explicar porque é que em certos aspetos a atriz era uma voz um pouco à frente do seu tempo. Ainda antes de o movimento #MeToo ter escancarado as portas a debates sobre poder e desigualdade em Hollywood, Jessica falava abertamente em entrevistas sobre a desigualdade em Hollywood entre homens e mulheres. Foi numa conversa sobre o tema com a atriz Octavia Spencer que se apercebeu da complexidade ainda maior do tema. E foi a própria colega do elenco que elogiou Chastain por ter insistido que não faria o filme se não recebessem o mesmo.

Em 2019, numa entrevista ao “The Independent”, Jessica contava que já tinha tido realizadores a dizer-lhe: “tu andas a falar demasiado destas coisas de mulheres”. Essas “coisas de mulheres”, entenda-se, era a tal desigualdade salarial. E se nos primeiros tempos havia aquele espírito de falar pouco para não estragar oportunidades, a atriz diz que hoje em dia já recusou papéis quando não lhe querem dar ouvidos sobre as tais “coisas de mulheres”. Pior para eles.

Ao longo da carreira a atriz tem mostrado uma versatilidade surpreendente no tipo de papéis, com destaque para “00:30 A Hora Negra”, que lhe valeu a sua segunda nomeação aos Óscares, agora como atriz principal. Esta quinta-feira, 21 de outubro, temos nova oportunidade de ver a sua versatilidade no ecrã, com a estreia de “Ava”, onde a vemos em fuga, à pancada e a lutar pela vida no papel de uma assassina profissional.

O filme era para ser realizado por Matthew Newton, quando foi anunciado, numa altura em que já se sabia que a atriz seria uma das produtoras. Quando surgiram acusações de violência doméstica sobre Newton, a atriz foi acusada de hipocrisia. No filme que agora chega aos cinemas ainda surge o nome de Newton nos créditos como argumentista. A realização, no entanto, ficou a cargo de Tate Taylor, o mesmo cineasta responsável por “As Serviçais”.

Além de Jessica Chastain, o elenco de “Ava” inclui nomes como John Malkovich, Geena Davis, Jess Weixler, Colin Farrell e Common, entre outros.

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