Rita Blanco nunca foi grande fã de casamento. Cresceu numa geração marcada pelo 25 de Abril, numa altura em que muitos portugueses começaram a questionar algumas das convenções que tinham dominado as décadas anteriores. Por isso, quando recebeu uma proposta para protagonizar um filme sobre os Casamentos de Santo António, não foi propriamente a tradição que a conquistou.
“Sou de uma época em que o casamento não estava em alta. Sobretudo depois do 25 de Abril, houve uma onda de liberdade e as pessoas estavam a libertar-se de uma série de tabus. A minha geração não é muito aficionada ao casamento”, conta a atriz, de 63 anos, à NiT.
Ainda assim, há um lado da tradição que sempre lhe pareceu interessante. Durante décadas, a iniciativa lisboeta permitiu que casais com menos possibilidades financeiras tivessem acesso a uma cerimónia que dificilmente conseguiriam organizar sozinhos. “Eram pessoas que tinham menos possibilidades de ter o casamento com que tinham sonhado. De repente, era quase uma espécie de milagre de Santo António poderem casar-se naquelas condições”, explica.
É esse universo que serve de ponto de partida para “Santo António, o Casamenteiro de Lisboa”, a nova comédia de Rúben Alves, que estreia esta quinta-feira, 10 de setembro, nos cinemas portugueses. Rita Blanco e Joaquim Monchique lideram um elenco que inclui Joaquim de Almeida, Maria Rueff, Maria João Bastos e o espanhol Paco León, entre outros.
Depois de “A Gaiola Dourada”, lançado em 2013, e “Miss”, de 2020, o realizador luso-francês regressa a Portugal para contar uma história construída à volta de uma das tradições mais conhecidas da capital. Há marchas, arraiais, romances e uma Lisboa em transformação.
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Rita Blanco interpreta uma mulher cuja vida está profundamente ligada à organização dos Casamentos de Santo António. Para preparar a personagem, a atriz decidiu conhecer uma verdadeira organizadora da iniciativa. Não queria imitá-la nem reproduzir os seus gestos. Bastava vê-la.
“Quis conhecê-la. Não peguei naquela pessoa para construir a personagem, porque aquilo que me diverte é olhar para a cara de alguém e imaginar como será a sua vida”, explica. “Usei a imagem da verdadeira Carmen, olhei para ela e fui para casa imaginar. Quando tenho uma imagem, torna-se muito mais fácil construir tudo o resto.”
A preparação também foi condicionada pelo ritmo de trabalho da atriz. Rita Blanco vinha de outra rodagem, passou diretamente por um filme de João Canijo e entrou logo depois no projeto de Rúben Alves. Não houve grandes ensaios, mas também não eram necessários.
Os dois já se conheciam bem. Rita Blanco trabalhou com o realizador em “A Gaiola Dourada” e, desde então, a relação profissional transformou-se numa amizade próxima. “Nunca deixámos de falar com muita frequência e isso criou uma intimidade entre nós. Conseguimos perceber rapidamente aquilo de que o outro precisa”, diz. “Olhamos um para o outro e sabemos o que queremos, mas continuamos a gostar de nos surpreender.”
No novo filme, os Casamentos de Santo António atravessam uma crise. As personagens de Rita Blanco e Joaquim Monchique veem o trabalho que fazem ser colocado em causa e são confrontadas com a ideia de que a tradição já perdeu o interesse e precisa de ser transformada num grande espetáculo.
É aí que começa a luta dos dois para lhe dar uma nova vida. Sem os mesmos recursos e perante a possibilidade de perderem aquilo a que dedicaram grande parte da vida, tentam modernizar a celebração sem destruir aquilo que a tornou especial.
“Eles vivem para os Casamentos de Santo António. A minha personagem tem uma vida pessoal que não tem nada a ver com os casamentos, mas ali deseja o amor para aquelas pessoas”, explica Rita Blanco. “Percebem que têm de dar uma volta àquilo, modernizá-lo e fazer uma coisa especial para conseguirem que continue a ser aceite.”
Por detrás da comédia e dos romances, o filme acaba por tocar numa discussão maior sobre Lisboa e a forma como a cidade tem mudado. Para Rita Blanco, Rúben Alves não está apenas interessado em recuperar uma tradição por nostalgia.
“Há tradições boas e más. Algumas devem ser abolidas e outras têm de evoluir e transformar-se”, defende. “Acho que ele usou esta tradição para falar de várias coisas, incluindo a sensação de deixarmos de reconhecer as nossas cidades, os nossos costumes e a nossa identidade.”
A atriz acredita que preservar essa identidade não significa fechar a cidade a quem chega. Pelo contrário, vê na mistura entre culturas uma oportunidade, desde que exista uma verdadeira troca entre quem chega e quem já cá está.
“Cada vez temos mais imigrantes e isso é interessante, porque recebemos culturas novas. Mas temos de ter alguma coisa para trocar. É isso que é bonito: conseguirmos misturar várias culturas e construir uma maneira de estar mais interessante, onde toda a gente possa caber”.
Lisboa acaba, assim, por funcionar quase como outra personagem do filme. Os bairros, as marchas e os arraiais servem de cenário para uma história que tenta equilibrar a celebração das tradições com a necessidade de as adaptar a uma cidade diferente daquela onde nasceram.
“Uma comédia é extraordinária numa sala cheia”
Quando falou com a NiT, Rita Blanco ainda não tinha visto o resultado final. Isso não a deixava nada preocupada. “Tenho total confiança no filme”, garantia. A atriz estava, sobretudo, curiosa por descobrir como a história funcionaria com público.
É também por isso que defende que esta é uma comédia para ver no cinema, numa altura em que o streaming tornou cada vez mais habitual assistir aos filmes sozinho e em casa.
“Ver um filme em sala é uma experiência cada vez menos óbvia. As pessoas veem tudo em streaming, mas numa comédia é extraordinário. Em vez de dar uma gargalhadita sozinha em casa, de repente ouvimos uma sala inteira a rir. Somos obrigados a partilhar emoções com outras pessoas e isso é muito engraçado. É uma experiência que está a cair em desuso.”
“Santo António, o Casamenteiro de Lisboa” não vive apenas do humor. Segundo Rita Blanco, há momentos mais emocionais, sobretudo ligados à sua personagem e à de Joaquim Monchique. E há um elenco numeroso e variado que cruza diferentes histórias em torno dos casamentos.
A atriz só tem agora um desejo: que haja público para as descobrir. “Gostava muito que as pessoas fossem ver o filme. Se não gostarem, o que é que eu posso fazer?”, brinca. “Mas acho que há muitas coisas que vão fazer com que gostem.”
O filme terá distribuição em várias salas de cinema de norte a sul do País. Para Rita Blanco, esse também é um detalhe importante: “Haverá essa oportunidade para as pessoas não terem de ir às grandes cidades.”








