Cinema

Robert Pattinson: porque é que todos querem contratar este antigo ídolo teen?

Fartou-se da fama, optou por filmes com os seus realizadores favoritos e agora é a estrela de “Tenet” e “Batman”.
Todos querem ter Pattinson no elenco.

“Li isto algures num livro e acho que me descreve na perfeição: há um cão no elevador e de cada vez que as portas se abrem, há um novo mundo, e ele simplesmente não consegue perceber o que raio se passa. É isso que eu vivo todos os dias”, explica o ator de 33 anos que se prepara para voltar aos papéis mais mediáticos do cinema.

Oito anos depois de se ter visto livre da saga “Twilight” que o tornou famoso, Robert Pattinson é um ator diferente. Nem por isso um homem diferente. “De certa forma, nunca me desenvolvi para lá dos 15 anos. Ainda me visto assim [com T-shirts de skate], continuo a gostar do hip-hop entre 1997 e 2002. De Van Morrison, Jeff Buckley”, confessou numa entrevista no final de 2019, ainda a ressacar do êxito inesperado de “O Farol”, o filme art-house que o colocou sob a direção de Robert Eggers e a partilhar a câmara com o lendário Willem Dafoe.

A descontração é apenas uma fachada e, diz o próprio, tende a viver “períodos de ambição extrema”. Terá sido essa ambição que o ajudou a livrar-se do papel de “mártir da pop”, como o apelidou o cineasta Josh Safdie — um rótulo colado pelos cinco filmes da saga “Twilight” onde protagonizou um vampiro de pele brilhante, venerado por milhões de adolescentes de todo o mundo.

Assim que a saga ficou concluída, Pattinson deu tudo pelo caminho que foi pavimentando ao longo desses quatro longos anos. Os pequenos papéis em filmes independentes foram sendo alargados, esculpidos ao seu gosto. No currículo, o ator queria ter apenas o seu nome associado a realizadores de quem gostava.

A fama, porém, não desaparece de um dia para o outro e Pattinson não estava talhado para lidar com ela. “No ano passado gravei um filme em Espanha e havia uma mulher que estava sempre atrás de mim. Estava todos os dias à porta do meu apartamento, isso durou semanas. Um dia estava tão aborrecido e solitário que saí e fui jantar com ela. Queixei-me de tudo sobre a minha vida e ela não voltou. As pessoas aborrecem-se de mim em dois minutos”, recorda

Já durante as gravações de “Twilight”, Pattinson funcionava como uma espécie de corpo estranho. Para se preparar, leu os livros que deram origem à história e decidiu encarnar o lado mais sombrio e pesado da personagem. Os responsáveis não gostaram. Queriam que sorrisse mais. Só quando os agentes de Pattinson viajaram até ao estúdio é que o ator percebeu que tinha que mudar a abordagem.

“Pensei que estava seguro, pelo menos até os agentes chegarem e dizerem: ‘Tens que fazer o oposto do que tens feito até aqui ou eles vão despedir-te hoje mesmo”, conta

O sucesso de “Twilight” não foi necessariamente uma má herança. Permitiu-lhe tomar conta do resto da carreira e manobrá-la como queria. Isto, claro, se conseguisse livrar-se do rótulo de mera cara bonita.

Oito anos depois e um percurso rico no cinema independente, Pattinson parece querer voltar à fama, desta vez pelo caminho mais glorioso, em tempos trilhado por outros atores que revolucionaram a carreira e deixaram para trás papéis em filmes de qualidade duvidosa. Será uma espécie de revolução à DiCaprio ou McConaughey.

A ambição não tem limites. Mesmo durante as gravações de “Tenet” — que levou Pattinson a trabalhar com um dos mais reconhecidos cineastas da atualidade —, não hesitou em inventar uma “emergência familiar” para ter uma justificação poder sair do local e participar às escondidas na audição para o novo Batman. 

O golpe funcionou: Robert Pattinson vai colocar o seu nome num clube restrito que inclui atores como Michael Keaton, Val Kilmer, George Clooney, Christian Bale e Ben Affleck. Isso não significa que os filmes que ficaram pelo caminho tenham sido apenas um meio para um fim.

Em quase todos eles, os críticos são praticamente unânimes: as interpretações de Pattinson foram sempre o que de melhor se viu no ecrã. Isso tem uma explicação.

Um ator de autor

“O que aconteceu ao Robert Pattinson”, terão perguntado muitos fãs ao longo dos últimos oito anos. A fuga do ator do circuito mais comercial não foi tão deliberada quanto se possa pensar. “Nunca surgiu um convite para um grande filme”, revela ao “The Guardian” o ator que confessa ter feito audições para filmes de Scorsese ou dos irmãos Coen.

Embora admita algum medo e hesitação em aceitar algo semelhante a uma saga, explica que qualquer rejeição foi inconsciente. O objetivo era simples e nem sequer se tratava de um grande plano estratégico. Só queria trabalhar com realizadores que admirava.

“Acho que tenho bom gosto para filmes. Numa curta reunião consigo logo perceber se um realizador está a preparar algo de bom”, nota o ator que participou em cinco pequenos projetos enquanto gravava a safa “Twilight”. Foi precisamente o último deles, “Cosmopolis” de David Cronenberg (com quem voltaria a trabalhar) que o lançou para a nova fase da carreira.

Antes de regressar a Cronenberg, aventurou-se em “The Rover” de David Michôd — com quem faria “The King” em 2019, ao lado de Timothée Chalamet —, em “High Life” com Claire Denis, e em “Good Time” com os irmãos Safdie.

O convite para este último projeto surgiu graças a Pattinson, que se cruzou com uma imagem do filme “Heaven Knows What” num livro e decidiu, nesse preciso momento, que queria colaborar com eles. Enviou-lhes um email, mesmo sem ter visto o filme. Encontraram-se e fecharam o acordo.

Em “Good Time”, Pattinson seria Connie Nikas, um pequeno criminoso nova-iorquino que sonhava resgatar o irmão deficiente de uma instituição. O ator tinha revelado que queria “desaparecer num papel” e assim foi.

Leu as mais de mil páginas de um livro de Norman Mailer, aprendeu a tratar de pessoas com necessidades especiais, travou amizade com presidiários e, durante as gravações, viveu numa cave no bairro de Harlem, de janelas fechadas e apenas um alimento no frigorífico. “Não fazia mais nada senão comer atum (para perder peso), manter as persianas fechadas e dormir nas roupas do Connie. O Robert nunca fala sobre este tipo de coisas”, confessou Josh Safdie.

“O cinema para mim é isto. É mostrar respeito pela arte, especialmente se vais atrás das pessoas que influenciam todas as outras”, revela sobre a sua teimosia na escolha de projetos e de realizadores. 

Obcecado pela arte

Antes do início das gravações de “The King”, Pattinson ainda não sabia muito bem como abordar a personagem. Seria o Delfim, o herdeiro do trono francês, um príncipe com traços de loucura que iria enfrentar o Henrique V de Timothée Chalamet. A lâmpada acendeu-se quando viu as imagens da co-protagonista Lily-Rose Depp. “Percebi que também queria ser uma princesa”, recorda.

Pediu que lhe pintassem longas madeixas loiras e irrompeu pela primeira cena com um sotaque inglês afrancesado de tal forma carregado e efeminado. “Seria tudo demasiado ridículo?” questionou. Teve a certeza que estava na direção certa quando Joel Edgerton se desmanchou de tanto rir. 

“Se estou a fazer uma cena e vejo que o outro ator está à espera que eu faça aquilo que estou a fazer, que ele não está a ser surpreendido, sinto-me estúpido”, confessa

Talvez por isso adote uma abordagem improvisada, sem medo de mudar e tentar coisas novas, algo a que está habituado. Durante as gravações de “O Farol”, Pattinson ignorou os ensaios e guardou o melhor para o final. “Em 17 takes, fazia dois que funcionavam e nos outros tentava a minha sorte em sentidos que não me levavam a lado nenhum. Mas é mais divertido do que fazer um plano e cingir-me a ele”, explica.

O filme acompanha dois homens presos num farol, cujos limites da sanidade são levados ao extremo. A personagem de Pattinson deteriora-se com a passagem do tempo e para tornar tudo mais realista, fazia questão de se esbofetear antes das cenas. Girava sobre si próprio para ficar tonto, bebia água do chão e forçava o vómito.

“Como eu não sou um grande ator, queria tornar tudo real e uma das formas de facilitar o trabalho passava por agitar o meu estado físico imediatamente antes da ação. Acabas por entrar na cena com um sentimento diferente”, explica.

A tentativa de fugir ao rótulo de sex symbol de “Twilight” terá levado Pattinson a refugiar-se da fama e a arriscar mais e melhor. Não só nos projetos e nos realizadores, mas também nas próprias interpretações — e nas distintas personagens que assumiu ao longo dos últimos anos. Tudo para fugir ao aborrecimento.

“Quero fazê-lo sempre de forma diferente e se ensaiares uma cena 30 vezes, tens de pensar em 30 formas diferentes de fazer a coisa — mesmo que a primeira que fizeste seja a melhor. Odeio quando faço um segundo take igual ao primeiro. Mais vale despedirem-me logo. É aborrecido”, explica. Para Pattinson, isso não significa que os atores que se dedicam aos ensaios estejam errados. Só não é a estratégia certa para ele.

No set de “O Farol” com o realizador Robert Eggers

“Há qualquer coisa de diferente quando te entregas totalmente na gravação, quando é uma questão de fazer ou morrer, permite-te ser mais livre. Ou então sou só eu que sou preguiçoso e não tenho paciência para me chatear com isso até ao dia da gravação”, comentou numa entrevista ao “The New York Times”.

A aproveitar a fama de “Tenet” e na antecâmara da loucura total quando o seu “Batman” for lançado, algures em 2021, as críticas positivas a “O Farol” e os constantes aplausos às suas interpretações certificam definitivamente que Pattinson abandonou a sua dimensão de “Twilight” e de “Harry Potter”. Ele é, hoje, um dos melhores atores da sua geração.

Surpreendido com a forma como o filme foi recebido, confessa que nunca pensou que isso pudesse acontecer. “Funcionou melhor do que qualquer coisa que tenha feito nos últimos anos e é uma coisa totalmente aleatória. Saber que há um desejo por este tipo de filmes é estranho, mas é fixe. Esse é o tipo de coisas que gosto de fazer.”

À semelhança de outros atores que lançaram a carreira a interpretar personagens e a contar histórias que não lhes interessavam, Pattinson tem o futuro nas mãos. Finalmente livre da imagem de ídolo teen, terá novamente que enfrentar a fama dos grandes blockbusters, o lado bom e o lado mau. Para ele, o que se segue é extremamente descomplicado. Pattinson é um homem simples: “Não quero filmar coisas das quais não entendo o objetivo. Isso entristece-me”.

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