Cinema

Ruben Alves: “Fiquei surpreendido como homens com este lado mais macho receberam o filme”

A NiT falou com o realizador de "A Gaiola Dourada", a propósito do seu novo filme, sobre um rapaz que sonha ser Miss França.
"Miss" é o novo filme de Ruben Alves.

Estávamos em 2013 quando Ruben Alves se estreou nas longas-metragens com “A Gaiola Dourada”. Com uma história entre Portugal e França, o filme foi um sucesso de bilheteira estrondoso entre os dois países.

Passaram sete anos desde esse filme e esta segunda longa-metragem do realizador. Azar dos azares, o filme estava pronto para sair quando a pandemia obrigou o mundo a parar. A NiT esteve à conversa com o realizador antes da estreia entre nós de “Miss”.

O filme que chega esta quinta-feira, 26 de novembro, aos cinemas, tem alguns traços em comum com “A Gaiola Dourada” mas desta vez é toda uma outra família que vamos conhecer. Alexandre Wetter, com um lado tão andrógino quanto elegante, assume aqui o papel de um rapaz cujo sonho de vida era concorrer ao concurso Miss França. É um choque cultural o que podemos esperar, mas longe de ser coisa panfletária ou simples drama. Aqui ri-se e chora-se. “É como a vida”, diz-nos Ruben Alves.

Havia pressão para esta segunda longa-metragem?
Não. Não havia pressão. Somos nós que colocamos a pressão que quisermos, e eu não a pus. Uma coisa que a minha agente me disse logo é que se não fizesse logo a seguir outro filme de ficção ia demorar muito tempo. Eu dizia que não e afinal ela tinha razão. Há coisas que acontecem mas eu não queria logo fazer outro filme, queria viver outras coisas antes, viajei imenso com “A Gaiola Diourada”, montei uma produtora, trabalhei com outras pessoas. I took my time to see the world. Mas demorou, sim.

Se no filme anterior havia várias figuras do elenco a destacar-se, aqui temos um caso em que sem o Alexandre Wetter não haveria filme, não?
É e não é. O filme todo é nos ombros dele mas há imensas personagens à volta muito importantes. Acaba por ser uma grande família, uma família diferente, reconstituída, mas está lá. E depois há todo o mundo das Miss. Sem estas personagens a do Alex também não existia. O percurso dele faz-se porque os outros à volta trazem algo para ele perceber isso. E eu adoro isso.

Concurso Miss França acolheu bem a ideia.

Voltou a juntar imensas pessoas.
Na “Gaiola” as cenas mais difíceis de filmar eram as de comer, com toda a família. Pensei “tenho de me livrar disso para este filme”. E depois faço um filme com uma família toda junta, com umas 13 Miss, era muito people. Aprendes uma coisa, dizes que nunca mais fazes isso e ainda fazes pior [risos]. Havia muita gente. Mas sim, estamos muito ligados à emoção do Alex. O filme veio mesmo de um encontro com ele.

Como assim?
O Alexandre é uma personagem que me fascinou. Como ele tem coragem de assumir tudo, com um sorriso, tem uma parte feminina e faz disso a sua arte. Desde pequenino que faz performances, está no mundo da moda, onde o descobri, a desfilar em alta costura como mulher. Fiquei super intrigado. E quando o encontrei ele tinha o cabelo comprido, a parte andrógina ainda era mais desenvolvida. E tinha um ar de rapaz e depois tinha um toque feminino. Achei essa ambivalência muito interessante, muito da nossa época. Ele não quer ser mulher, mas trabalha com o seu feminino. É a a fluidez de género, o não querer entrar numa caixa em que a sociedade nos diz a todos como temos que ser.

Havia um lado de inspiração muito pessoal no seu primeiro filme. Aqui também havia essa inspiração na sua vida?
Sim, tudo o que faço tem inspiração no que vivo à minha volta. Na “Gaiola” era o lado da minha família mas as personagens deste Miss também são da minha vivência. Quem está à volta do Alex, a prostitua, os sem papéis, é uma realidade à minha volta em Paris, tal como o lado institucional do Miss França. Conheço as personagens. E gosto delas.

São temas grandes que trabalha. A emigração, aqui a identidade de género. Trabalhá-los com um toque de comédia é também uma tentativa de desmistificar as coisas?
Sim e aqui há vários temas dentro de um tema mas trata-se de tudo da mesma coisa: o assumir quem somos. Na “Gaiola” também havia isso, o tal lado de ser emigrante, o “somos assim”. Esta sociedade pode ser violenta hoje em dia quando te sentes diferente, tens de lutar um pouco mais. Mas acho que as diferenças é que fazem a riqueza da sociedade. Gosto de desconstruir a coisa, ir no cliché para o fazer, para podermos refletir. E aqui foi natural falar disso. Cada um vê como entende. Eu tenho pessoas que no final do filme me disseram que choraram e quem disse que passou um momento muito bom a rir. É a comédia da vida, como lhe chamo. Estás num jantar, a rir, e recebes uma chamada com uma notícia má e começas a chorar. É da vida. O que é que o Almodovar faz? Desatas-te a rir com personagens fortes mas muito ali é drama. É drama social? É, se quiseres. É comédia? É, se quiseres. É isso que acho interessante nas minhas personagens do “Miss”. Têm todas um drama mas depois the show must go on, é assim a vida. A vida é mais forte e elas são mais fortes do que os seus problemas.

Surpreendeu-se com este mundo do concurso Miss França?
Fui ter com eles, abriram-me as portas e sempre que havia um show eu ia ver e escrevia. Aquilo é um bocado surreal. Não estava à espera de se calhar ser comovido como fui. Há famílias que dedicam a sua vida a estes concursos. Vi famílias com a bisavó, a avó, mãe, filha, com as coroas, a viverem para isto. E eu olhava e pensava: “se são felizes assim, o que é que isso interessa? Não vou julgar”. E depois as miúdas, é como tudo. Há miúdas muito parvinhas e miúdas que sabem exatamente porque estão lá. Mas que realmente entre elas podem ser um bocadinho vacas, é verdade. Eu vi coisas que ficava “what?”. Afinal isto não é cinema, não é ficção, é mesmo verdade. Quando há a coisa de ganhar e do poder é um bocado complicado. Mas fiquei surpreendido com a instituição Miss França.

É um mundo que trabalha com um determinado cânone de beleza feminina. Como é que foi recebida a ideia para o filme?
Foi muito bem recebida. Eles perceberam logo que era uma ficção e que até tinham algo a ganhar com isso, com um lado de modernidade. A fluidez de género é algo da nossa época e colar isso com uma instituição com regras tão clássicas desde sempre faz um choquezinho que para eles se calhar não é tão mau assim, que de repente mostra que estão também na nossa época. É ficção. Mas será que na verdade poderia acontecer?

E poderia?
Isso agora deixo um bocado com eles. Se calhar também fiz o filme assim um bocado de propósito.

O lado feminino do protagonista.

Fala-se mais destes temas mas com as redes sociais parece haver também muita violência. As coisas estão mais polarizadas. A cultura pode conseguir recolocar o debate?
A cultura só tem esse papel. Não é só, claro, mas tem sobretudo este papel, o poder dar e receber emoções, mas acima de tudo o poder-se questionar uma sociedade, uma época. Toda a cultura é para questionar. E não vejo as coisas de outra maneira. E hoje em dia em que vemos muito julgamentos, que tudo tem de ser igual. Vemos às vezes um tema que sai e está toda a gente nas redes sociais “ah isso é muito mau” e vem alguém que diz “isso é muito bom” e é um escândalo. Assusta-me esse afunilar de pensamento. As pessoas têm de ter diferenças no pensamento, isso é que é o debate e faz evoluir. Pensamento único é ditadura.

Como tem estado a ser recebido o “Miss”?
Tivemos estreias que correram lindamente. Tem sido muito bem recebido, não estava à espera. Tivemos ovações de pé em festivais. Por causa do Alex houve um budget de lenços em estreias que não imagino [risos]. Realmente as pessoas têm sentido o filme. Chegámos a ter debates depois de exibições e aquilo nunca mais acabava. Havia pessoas que precisavam de falar da sua própria história. Não se identificavam propriamente com a ideia de ser Miss mas com o percurso da personagem do Alex. E o filme é sobre isso, sobre encontrarmos quem somos.

Surpreendeu-o.
Fui surpreendido por isso, sim, e mesmo pelos homens. Achava que se calhar ia mexer com a virilidade de alguns mas afinal eram eles que pegavam no microfone nos debates no final do filme. “Não sabia o que vinha ver, a minha mulher disse-me que vínhamos ver um filme de um homem que quer ser Miss, e estou aqui rendido. E o Alexandre é muito bonito”, diziam, com a mulher ao lado, e punham toda a gente a rir. É uma história universal mas fui surpreendido como o homem com este lado mais macho recebe o filme com muito carinho.

Houve um trabalho grande de transformação do Alexandre.
Sim, e as pessoas ficaram fascinadas com a transformação, o quanto ele trabalhou nisso. Já ganhou prémios revelação. Estamos a ter um feedback muito bom.

A ideia de família é trabalhada de forma diferente mas volta a estar cá. É importante para si trabalhar este conceito de família?
Sim, sempre. Nem sei dizer porquê. Devo saber mas não é um “fiz isso porque”. Acho que é a base de tudo. Como vais evoluir sem raízes? Isso passa pela família, seja de sangue ou não, como é neste caso. Aqui é uma família que se constrói, são as pessoas que escolhes para evoluir. Isso para mim é muito importante, é a tua identidade. Nunca te constróis sozinho. E este filme trata sobretudo disso. Precisas de ti próprio mas também da ajuda e do amor dos outros.

O filme sofreu atrasos devido à pandemia. Como é que é para um realizador esta dúvida sobre se as pessoas vão poder ir ao cinema ver o filme?
Não sabes bem, nunca aconteceu. Mesmo em tempo de guerra a cultura continuou, mas tens que lidar com isso. As coisas ainda estão a recomeçar e espero que as pessoas voltem cada vez mais aos cinemas. Com as tais medidas de segurança todas tudo pode fluir e as pessoas precisam de cultura. Mas na cabeça de um realizador é mesmo: “bem, é assim”. Nós fomos o primeiro filme em França a decidir não estrear. Na altura não sabíamos ainda bem o que era isto. Nos media foi um caso, “isto é só uma gripezinha, vão destruir os cinemas”.

Foi algo que chamou a atenção?
Foi e dois dias depois o novo filme do James Bond também era adiado. E depois fechou mesmo tudo e ficámos em confinamento. Estive dois meses a pensar muito nas coisas, até me fez bem essa introspeção. Houve azar mas acho que agora, mesmo que as coisas não sejam como antes, temos de proteger-nos mas continuar a viver. E acho que as pessoas precisam de filmes com mensagens profundas, bonitas. Então, venham ao cinema. Que se calhar mais do que nunca precisamos de nos divertir e emocionar.

Foram sete anos entre os dois filmes de ficção. Conta parar outra vez muito tempo ou já tem novas ideias?
Já tenho, já tenho. Estou a escrever neste momento com um guionista espanhol, vai ser um projeto europeu. As sessões são um pouco surreais, que falamos em espanhol e depois na minha cabeça traduzo em português, que quero fazer isto em português. Mas não vamos esperar sete anos, de todo. Vai vir rápido.

Em França há muita tradição de se ver filmes franceses. Em Portugal falta um pouco isso mas “A Gaiola Dourada” foi um sucesso. O trabalhar em português é também uma vontade de trabalhar para o grande público em Portugal?
Sim, mas com toda a humildade. Não estou a querer mudar alguma coisa. Mas acho que se precisa disso. Sempre achei que há espaço para toda a gente. Amo filmes de autor, adoro filmes orientais, turcos, tanta coisa, mas também gosto de um James Bond, de um “Wonder Woman”, da Disney. Acho que é tudo compatível. A proposta do cinema português por vezes vai um pouco no mesmo sentido. Talvez faltem mais filmes de autor mas aberto para o público. E em Portugal precisa-se de reconhecer mais os guionistas, que isso é que nos dá bons guiões para serem trabalhados. E há que descomplicar. Há lugar para toda a gente. Pode-se falar de uma coisa séria mas sem ser demasiado a sério. Nós somos muito sérios.

Essa seriedade de que fala é uma diferença cultural que nota, tendo o seu lado francês e português?
Acho que esse equilíbrio que tenho de ter essas duas realidades ajuda-me a ter recuo nas coisas. A minha base é Paris mas saio logo para cá, vejo outra realidade, e volto a partir. Se calhar ajuda, sim.

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