Muitos anos antes de ser Logan Roy, o patriarca de “Succession” que morreu na quarta e última temporada que está agora a ser transmitida na HBO Max, o ator Brian Cox fez a primeira versão de uma personagem que se tornou icónica. O escocês foi o primeiro a interpretar o doutor Hannibal Lecktor (houve algumas variações do nome ao longo dos anos), o infame serial killer.
Foi em 1986, no filme “Caçada ao Amanhecer” (ou “Manhunter”, em inglês), realizado por Michael Mann — o cineasta que mais tarde faria “O Último dos Moicanos”, “Heat”, “O Informador” ou “Colateral”. Tratava-se de uma adaptação do livro “Red Dragon”, escrito por Thomas Harris e publicado em 1981.
A narrativa acompanha o agente do FBI Will Graham, que se afastou da profissão após ter sido atacado pelo serial killer canibal Hannibal Lecktor. Ficou psicologicamente afetado e preferiu distanciar-se. Certo dia, Graham é abordado pelo seu antigo superior para voltar ao ativo — num caso em que não terá de estar em situações de perigo, mas para traçar o perfil de um assassino.
Para tentar decifrar as motivações por trás do homicida conhecido como a Fada dos Dentes, Graham acaba por visitar Hannibal Lecktor na prisão. Embora seja um serial killer tenebroso, tem uma mente brilhante e é psiquiatra. O enredo desenrola-se muito a partir dessas conversas entre agente e assassino em série.
Mais tarde, este universo tornar-se-ia muito mais conhecido com “O Silêncio dos Inocentes” (1991), filme dirigido por Jonathan Demme, que acompanhava Anthony Hopkins enquanto Hannibal Lecter e Jodie Foster como uma jovem agente do FBI. Era a narrativa da sequela, escrita por Thomas Harris em 1988. Hopkins ganhou o Óscar de Melhor Ator com uma versão sofisticada e charmosa do assassino — um homem excêntrico e culto, de trato elegante, embora também sinistro. O sucesso foi tão grande que fez mais dois filmes, “Hannibal” (2001) e “Dragão Vermelho” (2002).
Gaspard Ulliel faria ainda a mesma personagem na prequela “Hannibal – A Origem do Mal” (2007). Mais tarde, seria a vez de Mads Mikkelsen protagonizar uma série de sucesso sobre o serial killer, que durou entre 2013 e 2015, com três temporadas.
Anthony Hopkins terá construído a personagem que se tornou emblemática e que inspirou os atores que se seguiram. Mas Brian Cox, que não tinha ninguém com que se comparar quando fez “Caçada ao Amanhecer”, baseou-se em referências da realidade para desenvolver o seu papel.
“Inspirei-me no Peter Manuel, um serial killer que nos aterrorizou a todos na Escócia quando eu era miúdo. Manuel nasceu em Nova Iorque, de origem portuguesa, mas cresceu em Glasgow, e ele era muito comum. A outra pessoa que me influenciou era o Ted Bundy, que era o exato oposto: era muito carismático, quase como tendo aquele carisma dos políticos. Eu via o Lecktor como uma espécie de cruzamento entre essas duas personalidades”, escreveu Brian Cox no seu livro de memórias, “Putting the Rabbit in the Hat”, publicado em 2021.
A abordagem de Cox ao papel foi muito mais comedida. A ideia era precisamente emanar a imagem de um homem banal — alguém com quem todos nos podemos cruzar na rua — e que era mesmo aí que estava representado o perigo. Afinal, até o mais comum dos homens pode cometer aqueles crimes horríveis.
“Tendo em conta como Anthony Hopkins e Mads Mikkelsen se tornaram sinónimos deste papel, é compreensível que a desempenho de Cox fosse mais difícil de aceitar para um público contemporâneo, que se habituou à outra versão da personagem. Contudo, a abordagem comedida de Cox dá-lhe a autenticidade que as outras versões não tinham, tornando-o, de longe, no Hannibal Lecter mais assustador de sempre”, pode ler-se num texto de opinião publicado no “Collider”. “Não esqueçamos o retrato igualmente impressionante de Brian Cox.”

O próprio Brian Cox fala da sua abordagem no livro. “Eu não enalteci tanto a psicose. Uma diferença chave entre o meu retrato e o do Tony é que o Tony tornou-o louco enquanto eu o interpretei como insano — e há uma diferença entre loucura e insanidade. O Tony era assustador e muito ao estilo Grand Guignol, mas essa não foi a minha abordagem e a do Michael Mann. Na nossa, o tipo era um intelectual. Ele é muito, muito esperto. Mas se o visses na rua não olharias duas vezes para ele. Não se destacaria pelos seus maneirismos ou pelas roupas, nem por algum tipo de carisma exagerado. É só um tipo que parece e soa normal que, por acaso, tem um cérebro absolutamente brilhante.”
Nas suas memórias, Cox não escondeu algum desapontamento pelo facto de não ter interpretado Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes”, visto que o autor do livro lhe terá enviado uma cópia — antes da sua publicação — a dizer que gostaria muito que o ator desse vida à personagem.
“Confesso que fiquei um pouco desapontado, porque o Thomas Harris enviou-me uma cópia de ‘O Silêncio dos Inocentes’ com uma nota que dizia ‘Espero que um dia faças isto’. Claro que adorei o livro, adorei interpretar Lecter e saltaria para a hipótese de entrar em ‘O Silêncio dos Inocentes’. Quando eventualmente o vi, confesso que fiquei surpreendido com o quão parecido era com ‘Manhunter’. O assassino é diferente. O agente também, claro. Mas a estrutura é quase a mesma”, escreveu.
“Porque é que não fui convidado? Bem, primeiro porque o Michael se tinha afastado e as coisas tinham-se complicado, como é normal. O Gene Hackman tinha sido abordado para realizar, mas não o quis fazer. Depois apareceu o Jonathan Demme e, claro, queria fazer algo diferente. Queria fazer as coisas de uma forma refrescante e original, não estava interessado em quem tinha interpretado primeiro o Hannibal. Os realizadores são assim. Querem as suas próprias criações. Querem as suas próprias pessoas. Não fiquei incomodado. Quer dizer, gostaria de o ter feito, mas não perdi o sono à conta disso. Mentira, uma coisa que me incomodou foi o dinheiro, porque o Tony viria a ganhar um Óscar e, quando ganhas, o teu salário… whoosh. Afinal, eu tinha recebido 10 mil dólares pelo ‘Manhunter’ e ele recebeu, pelo menos, um milhão com ‘O Silêncio dos Inocentes’.”








