Cinema

Sacha Baron Cohen: o inglês betinho que se tornou um ativista badalhoco

O humorista é uma das principais vozes contra o Facebook e a ditadura do politicamente correto. Uns adoram-no, outros querem matá-lo.
Borat não mudou muito, o mundo sim.

É um provocador nato. O próprio assume que há um lado do seu humor que não se preocupa em ser obsceno, adolescente e até desconfortável. Estamos a falar, claro, de Sacha Baron Cohen.

O humorista britânico assinou a 8 de outubro, na revista “Time”, um artigo onde fala abertamente deste seu lado. Cohen recorda certa vez em que entrou num ringue para uma luta com um falso ex-namorado. Era um combate que a América rural esperava, por isso, fez questão de lhe dar vários momentos homo-eróticos. O problema, como acontece tantas vezes com ele, é que o episódio correu mal e deu lugar a um “motim”

“A multidão — que incluía alguns prisioneiros com tatuagens de suásticas, que tinham saído recentemente em liberdade condicional — desatou a gritar insultos homofóbicos e a atirar cadeiras de metal. Se não tivesse conseguido escapar por um túnel, acho que me tinham dado pancada até perder os sentidos”, recorda.

Ao longo da carreira, o humorista foi acusado de ter um humor que abusava de estereótipos. Ao mesmo tempo, racistas e homofóbicos tornaram-se os seus alvos preferenciais de paródia. É uma ambiguidade que sempre esteve presente.

O seu primeiro sucesso, Ali G, era um branco que pilhava gestos e expressões no mundo do hip-hop. Borat, talvez a sua personagem mais famosa, era um jornalista cazaque machista e antissemita. Brüno, um apresentar gay com mil maneirismos e extravagante, conseguia pôr machões a mostrar o rabo. O leque de personagens é grande e sempre provocador. E as situações em que se vê envolvido são muitas vezes absurdas.

Cohen sempre teve o seu lado destemido ao levar provocações humorísticas a ambientes hostis. Por vezes, a sua personagem é um racista só para expor os preconceitos de racistas. Ou sexista para ter o mesmo resultado. “São momentos que são assustadores”, escreve na “Time”. “Mas, hoje, o que me assusta mesmo é a sobrevivência da democracia em si”. É um Cohen um pouco diferente mas nem por isso novo nestas andanças.

Foi em 2019 que o vimos a atirar-se abertamente a Mark Zuckerberg e ao Facebook pela forma como facilitavam na plataforma teorias da conspiração e discursos de ódio. De então para cá, uma pandemia trouxe mais receios sobre fake news a proliferar e os EUA são um país cada vez mais dividido.

Ele está de volta.

Cohen explica que ao longo da carreira sempre manteve alguma relutância em ter posições públicas sobre temas atuais. É diferente ser Cohen, a falar em modo sério, ou uma das suas personagens. “Sempre me senti mais confortável como personagem — ou até de ‘mankini’”.

Atrás do bigode do tal cazaque ingénuo que se tornou um sucesso, está um rapaz que estudou num colégio privado e que ingressou na prestigiada Universidade de Cambridge para estudar História. O próprio já revelou que em miúdo esteve em protestos contra o Apartheid e escreveu uma tese sobre os movimentos civis. É fácil de ver que há temas que se mantiveram nos anos seguintes como inspiração. O humor foi o registo que encontrou para os abordar.

A 23 de outubro, Cohen está de volta com uma surpresa. É o regresso de Borat para uma sequela que conseguiu gravar escapando ao radar da imprensa. O filme conta com um título que obriga a respirar fundo antes de o conseguir dizer: “Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan”.

14 anos depois do primeiro filme, ainda há Borat (e até uma filha) mas muitos outros disfarces — ou provavelmente nunca teria conseguido terminar as filmagens. Entre os disfarces, há até um de Donald Trump, que usou numa conferência republicana em fevereiro deste ano. Com o evangélico vice-presidente Mike Pence a discursar, Cohen entrou em cena com uma rapariga às costas e a trocar o nome de Pence. “Mike Pennis, I brought a girl for you!”.

Os alvos de Cohen ainda são os mesmos, mas tem juntado algumas novidades. Em particular entre os poderosos. É o caso de Zuckerberg, sobre quem parece não tentar sequer esboçar uma piada. Chama-lhe um “cúmplice” que, com o Facebook, criou “um megafone com que nem os piores autocratas da história sonhavam”. As críticas não são genéricas. Cohen fala de algoritmos e de a rede social encontrar no medo e no ressentimento formas de aumentar o tráfego. Questões, aliás, levantadas num recente documentário na Netflix, e em que Cohen tem insistido. Ainda para mais numa altura em que os EUA se preparam para as presidenciais do próximo dia 3 de novembro.

“Isto seria tudo hilariante se não fosse tão trágico”, realça o humorista, que termina o artigo na “Time” contando um episódio durante as gravações do novo filme de Borat. Foi num concerto num comício de fanáticos das armas. Cohen subiu ao palco disfarçado de cantor extremista. Quando finalmente correram com ele do palco, entrou num veículo de fuga e viu-se rodeado por uma pequena multidão de homens armados em fúria.

“Debaixo da minha roupa, tinha um colete à prova de bala, mas parecia pouco quando havia ali pessoas com armas semi-automáticas. Quando alguém conseguiu abrir a porta para me arrancar do carro, tive que usar todo o peso do meu corpo para manter a porta fechada enquanto o carro manobrava entre a multidão para conseguir escapar. Tive sorte de sair dali inteiro. As próximas semanas vão determinar se a América vai ter a mesma sorte”.

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