Cinema

Sean Connery: a vida dura do homem que resolvia tudo à chapada

Foi culturista, fez frente a mafiosos e até defendeu a ocasional bofetada em mulheres. A NiT conta-lhe três episódios bizarros do ator.
Bond só há um.

Ele foi o primeiro James Bond a sério, o homem que estabeleceu o padrão daquela que viria a tornar-se numa das personagens mais famosas da história do cinema. E se restassem dúvidas, uma recente votação elegeu-o como o melhor 007 da história. O escocês que conquistou o mundo com as suas sobrancelhas farfalhudas e sotaque escocês com ênfase nos xis morreu este domingo, 31 de outubro, com a bonita idade de 90 anos. A causa da morte ainda não foi revelada.

Definitivamente reformado desde 2007 — interrompeu o sossego para dar a voz a uma personagem em “Sir Billi”, em 2012 —, foram cada vez menos as aparições públicas do homem que a Rainha Isabel II mandou ordenar como Cavaleiro do Reino Unido.

A verdade é que os rumores de doenças graves e problemas de memória foram sendo afastadas pelos amigos e pelo próprio Sean Connery. “Feitas as contas, a reforma é simplesmente demasiado divertida”, revelou em 2007 perante os boatos de que poderia marcar presença no elenco de uma sequela de “Indiana Jones”.

Passou vários anos no seu apartamento em Manhattan, Nova Iorque, onde foi visto na rua por várias ocasiões. Por vezes só, a caminhar com a ajuda de uma bengala; noutras já com um ar visivelmente fragilizado e acompanhado por um cuidador.

Em 2017 já precisava da ajuda de uma bengala para caminhar.

Há três anos mudou-se para a mansão nas Bahamas, onde leva uma vida recatada. Raramente saía de casa e quando o fazia, era apenas para jogar golfe. Numa das últimas intervenções públicas, Connery aproveitou para revelar que escapou ileso ao furacão Dorian, que atormentou a ilha no final de 2019. “Tivemos sorte, quando comparado com muitos outros. Os danos aqui não foram muito significativos”.

Ao longo de quase um século de vida, uma coisa ficou bem patente: o escocês não era homem para tolerar grandes brincadeiras e tinha um fusível curto. Antigo culturista e dono de um gancho invejável, nunca teve grandes problemas em resolver os problemas com os punhos — mesmo quando isso era a solução menos recomendável.

“Segura aí no meu casaco, Michael”

Sean Connery e Michael Caine são duas lendas vivas do cinema e a longa amizade vem desde os tempos em que se conheceram na produção de “South Pacific”, em 1958. Amigos há mais de 60 anos, foi a Caine a quem coube desmentir os rumores de Alzheimer que circulavam em 2013.

Foi também ele quem recordou um dos episódios que mereciam ter ficado eternizados em filme e que envolveu uma saída noturna e uma cena de pancadaria. “Nos meus 20, costumava sair com o Sean e com o Terence Stamp. Todas as miúdas de Londres andavam atrás de nós”, recorda dos tempos que se seguiram ao encontro no elenco de “South Pacific”.

“[O Sean] era o Mister Edinburgo [foi culturista na sua juventude] e tinha um corpo tipo o do Arnold Schwarzenegger”, conta. Foi numa noite de festa que Caine e Connery deram início à amizade. Mas foi numa saída mais atribulada que o episódio ficou registado na memória do ator.

Michael Caine é o wingman perfeito.

“Uma vez estávamos numa discoteca e umas raparigas estavam no palco a tentar cantar. Uns tipos atrás de nós estavam a dar-lhes cabo do juízo e o Sean levantou-se e deu uma tareia aos quatro. Eu só fiquei ali a segurar-lhe no casaco“, recordou

Máfia? Qual máfia?

Ainda era o protagonista de uma curta carreira quando em 1957, Connery foi escolhido para contracenar com a famosa atriz de Hollywood Lana Turner em “Another Time, Another Place”. Os rumores de um potencial romance eram problemáticos, sobretudo para Turner, que em casa tinha um namorado ciumento e perigoso.

Johnny Stampanato era um antigo militar norte-americano que optou por uma vida de crime ao abrigo da família Cohen. Era um dos capangas do líder Mickey Cohen e, segundo consta, foi o próprio que o apresentou à atriz.

Ao ter conhecimento dos rumores, Stampanato apanhou o primeiro avião para Inglaterra e foi à procura de Sean Connery. Conseguiu contornar a segurança do estúdio onde era gravado o filme e confrontou os dois de arma na mão. De acordo com os relatos, Connery não de deixou intimidar, conseguiu desarmá-lo e atirou-o ao chão com um soco. 

Meses mais tarde, a vingança de Stompanato centrou-se em Turner, cuja relação abusiva era conhecida da imprensa. Numa noite de abril de 1958, as agressões de Stompanato foram interrompidas por uma facada da filha de Turner, então com 14 anos. O ferimento foi fatal e Cheryl Turner acabou por ser ilibada.

Nem as mulheres escapam

Antigo culturista, homem com quase 1m90 e escocês de barba rija — parece que não há assunto que Connery não pondere resolver com os punhos. Mesmo os conjugais. Numa polémica entrevista à “Playboy” em 1965, Connery piscou o olho à violência doméstica.

Acho que não há nada de particularmente errado em bater em mulheres — embora não recomende que seja feito da mesma forma que se bate num homem. Uma chapada de mão aberta é justificada, caso todas as outras alternativas falhem e tenham sido dados os respetivos avisos. Se uma mulher for uma cabra, estiver histérica ou for teimosa, batia-lhe”, explicou

Estávamos nos anos 60 e as carreiras profissionais não descarrilavam por qualquer escândalo, mesmo quando uma estrela de Hollywood promovia “chapadas de mão aberta” em “mulheres histéricas”. Vinte anos depois, Connery teve a oportunidade perfeita para se redimir. Numa entrevista a Barbara Walters, gravada em 1987, a apresentadora recordou a polémica frase do ator.

Ele sorriu, revirou os olhos e carregou o semblante. “Não mudei de opinião”, respondeu. Perante a insistência da apresentadora, o homem que carrega o título de Sir desenvolveu a teoria — que pouco ou nada mudou em duas décadas.

Além de afirmar que “não é assim tão mau” e que tudo “depende das circunstâncias” e do facto de a mulher merecer ou não essa bofetada.

“Se experimentaste todas as alternativas e elas não conseguem esquecer o assunto… As mulheres são muito boas nisso. Elas querem ter sempre a última palavra — e tu até lhe dás essa última palavra, mas elas não ficam satisfeitas. Querem voltar a repetir as coisas e criar uma situação de provocação. Então aí acho que é perfeitamente justificado [bater-lhes]”.

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