“Sentimental Value” foi o grande vencedor da 38.ª edição dos Prémios do Cinema Europeu, que decorreu este sábado, 17 de janeiro de 2026, em Berlim, na Alemanha. O drama intimista do realizador norueguês Joachim Trier transformou-se no protagonista da noite, com seis distinções, entre elas a de Melhor Filme Europeu.
Entre os outros destaques, “Sirāt“, de Oliver Laxe, confirmou-se como o outro grande favorito, somando cinco troféus. A realizadora Laura Carreira, a única portuguesa nomeada, também foi distinguida, uma estreia para Portugal.
A consagração de Trier continuou quando arrecadou o galardão de Melhor Realizador, pela sua abordagem delicada das relações familiares disfuncionais. A vitória estendeu-se também ao argumento, escrito em parceria com o colaborador habitual, Eskil Vogt.
A atriz Renate Reinsve, que já tinha demonstrado o seu magnetismo em “A Pior Pessoa do Mundo“, voltou a brilhar sob a direção do norueguês, recebendo o prémio de Melhor Atriz Europeia. Por sua vez, o título de Melhor Ator Europeu foi atribuído a Stellan Skarsgård, que dá vida ao seu pai distante. O ator reagiu à vitória com um discurso lacónico: “É como voltar a casa. Agradeço-vos de todo o coração”. Contudo, apesar da brevidade, foi um momento emotivo, que acumula o troféu à sua recente vitória nos Globos de Ouro, aumentando o seu potencial de favorito aos Óscares de março.
Hania Rani recebeu o prémio de Melhor Banda Sonora, ampliando o domínio absoluto de “Sentimental Value“ nesta edição. A atribuição de múltiplas vitórias ao mesmo filme tem sido um padrão recorrente nos EFA, fenómeno que também aconteceu com “Emilia Pérez“ ou “Anatomia de uma Queda“ nos anos anteriores.
Já “Sirāt“, de Oliver Laxe, que chegou à cerimónia como outro dos principais favoritos, levou para casa cinco troféus: Melhor Design de Produção (Leila Ateca), Melhor Designer de Som (Laia Casanovas), Melhor Montagem (Cristóbal Fernández), Melhor Fotografia (Maura Herce) e Melhor Direção de Elenco (Nadia Acimi, Luis Bértolo e Maria Rodrio).
Entre as conquistas da noite, destacou-se também “On Falling“, uma coprodução britânico-portuguesa realizada por Laura Carreira, que recebeu o FIPRESCI Discovery Award. Natural do Porto e radicada em Edimburgo, na Escócia, Carreira é apontada como uma das vozes mais promissoras do novo cinema europeu.
O seu filme, ambientado num quotidiano laboral precário, o filme explora as preocupações humanas com trabalho e a identidade e combina “realismo social e sensibilidade poética”,
“Sound of Falling“, de Mascha Schilinski, saiu apenas com o prémio de Melhor Figurino (Sabrina Kramer), enquanto “Bugonia“, de Yorgos Lanthimos, conquistou apenas o galardão de Maquilhagem e Cabelo (Torsten Witte).
A grande surpresa da noite foi a ausência total de prémios para “Foi Apenas um Acidente“, de Jafar Panahi. Como habitualmente acontece nos EFA, a cerimónia foi marcada por forte dimensão política. Embora não tenha conquistado qualquer prémio, o realizador iraniano dissidente, foi recebido com aplausos assim que subiu ao palco, apresentado como “um dos maiores cineastas do mundo”. No seu discurso, denunciou as atrocidades do regime de Teerão: “A violência, quando deixada sem resposta, torna-se normalizada. Espalha-se. Torna-se contagiosa. Quando a verdade é esmagada num lugar, a liberdade sofre em todo o lado. Ninguém está seguro, em lado nenhum do mundo, seja no Irão, na Europa ou na América”.
Um dos momentos mais comoventes foi protagonizado pela lendária Liv Ullmann, homenageada com o Lifetime Achievement Award. A atriz norueguesa, de carreira brilhante e presença incontornável em clássicos de Bergman, emocionou-se ao agradecer: “Estou muito, muito grata”, declarou perante uma ovação prolongada concedida pela audiência e pela presidente da Academia, Juliette Binoche.
A gala decorreu na Casa das Culturas Mundiais, numa data escolhida para se integrar na temporada internacional de prémios e consolidar os EFA e a produção cinematográfia europeia face à indústria americana. As atenções agora viram-se para as nomeações dos Óscares, a anunciar em 22 de janeiro, onde “Sentimental Value“ deverá estar bem representado.
Confira abaixo a lista integral de vencedores dos Prémios do Cinema Europeu.
Melhor Filme Europeu
“Sentimental Value” (Noruega, França, Dinamarca, Alemanha, Suécia), de Joachim Trier — vencedor
“Afternoons of Solitude” (Espanha, França), de Albert Serra
“Arco” (França), de Ugo Bienvenu
“Dog of God” (Letónia, EUA), de Raitis Ābele & Lauris Ābele
“Fiume o Morte!” (Croácia, Eslovénia, Itália), de Igor Bezinović
“Foi Só um Acidente” (França, Irão, Luxemburgo), de Jafar Panahi
“Little Amelie” (França), de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han
“Olivia and the Invisible Earthquake” (Espanha, França, Bélgica, Suíça, Chile), de Irene Iborra R Rizo
“Riefenstahl” (Alemanha), de Andres Veiel
“Sirāt” (Espanha, França), de Oliver Laxe
“Songs of Slow Burning Earth” (Ucrânia, França, Dinamarca, Suécia), de Olha Zhurba
“Sound of Falling” (Alemanha), de Mascha Schilinski
“Tales from the Magic Garden” (República Checa, Eslováquia, Eslovénia, França), de David Súkup, Patrik Pašš, Leon Vidmar e Jean-Claude Rozec
“A Voz de Hind Rajab” (França, Tunísia), de Kaouther Ben Hania
“With Hasan in Gaza” (Alemanha), de Kamal Aljafari
Melhor Realizador Europeu
Joachim Trier por “Sentimental Value” — vencedor
Yorgos Lanthimos por “Bugonia”
Oliver Laxe por “Sirāt”
Jafar Panahi por “It Was Just an Accident (Foi Apenas um Acidente)”
Mascha Schilinski por “O Som da Queda”
Melhor Atriz Europeia
Renate Reinsve em “Sentimental Value” — vencedora
Leonie Benesch em “Late Shift”
Valeria Bruni Tedeschi em “Duse”
Léa Drucker em “Caso 137”
Vicky Kri Krieps em “Love Me Tender”
Melhor Ator Europeu
Stellan Skarsgård em “Sentimental Value” — vencedor
Sergi López em “Sirāt”
Mads Mikkelsen em “The Last Viking”
Toni Servillo em “La Grazia”
Idan Weiss em “Franz”
Melhor Argumentista Europeu
Eskil Vogt & Joachim Trier por “Sentimental Value” — vencedores
Santiago Fillol e Oliver Laxe por “Sirāt”
Jafar Panahi por “It Was Just an Accident (Foi Apenas um Acidente)”
Mascha Schilinski & Louise Peter por “Sound of Falling”
Paolo Sorrentino por “La Grazia”
Melhor Documentário Europeu
“Fiume o Morte!” — vencedor
“Tardes de Solidão”
“Riefenstahl”
“Canções da Terra que Arde Lentamente”
“Com Hasan em Gaza”
Melhor Longa-Metragem Europeia de Animação
“Arco” — vencedor
“Cão de Deus”
“Amelie”
“Olivia e o Terramoto Invisível”
“Contos do Jardim Mágico”
Descoberta Europeia – Prémio FIPRESCI
“On Falling“](Reino Unido, Portugal), de Laura Carreira — vencedor
“Little Trouble Girls (Kaj Ti Je Deklica)” (Eslovénia, Itália, Croácia, Sérvia), de Urška Djukić
“A Sombra do Meu Pai” (Reino Unido, Nigéria), de Akinola Davies Jr.
“Um Desses Dias em que Hemme Dies Dies” (Turquia, Alemanha), de Murat Fıratoğlu
“Sauna” (Dinamarca), de Mathias Broe
“Sob o Céu Cinza” (Polónia), de Mara Tamkovich
Prémio do Público Jovem Europeu
“Siblings” (Itália), de Greta Scarano — vencedor
“Arco” (França), de Ugo Bienvenu
“I Accidentally Wrote a Book” (Hungria, Países Baixos), de Nóra Lakos

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