Cinema

“Soares é Fixe”, mas é também carrancudo, inexpressivo e claustrofóbico

Interpretado por Tonán Quito, o político surge sem nuances que nos façam querer apoiá-lo. Leia a crítica da NiT.
A obra já estreou. Fotografia: Filipe Feio.

As eleições de 1986 marcaram a história da democracia em Portugal. Colocaram frente a frente Diogo Freitas do Amaral, apoiado pelo CDS e PSD, e Mário Soares, candidato e membro fundador do Partido Socialista. A história deste confronto deu origem a “Soares é Fixe“, que estreou em Portugal esta quinta-feira, 22 de fevereiro.

A longa-metragem procura mostrar diferentes facetas de Sores, acompanhando também a sua vida privada, sobretudo a relação com a mulher, Maria Barroso. O slogan da campanha era “Soares é Fixe”, mas na obra realizada por Sérgio Graciano — com argumento de João Matos — o político interpretado por Tonán Quito (com o qual tem uma boa semelhança física) é tudo menos isso.

Ao longo da produção, percebemos que o político é um homem cheio de dúvidas, que não acredita nas suas capacidades nem naquilo que pode alcançar nas eleições. Esconde-se constantemente daqueles à sua volta em busca de uns momentos de introspeção.

Nas frequentes cenas em que se encontra isolado podemos vislumbrar quem era Soares longe das câmaras e dos discursos. Porém, a abundância com que se repetem ao longo do filme é frustrante, sobretudo porque nos mostram pouco do homem que as protagoniza.

Soares parece ser apenas um interveniente carrancudo e inexpressivo, sem as nuances necessárias para que nos sintamos motivados a apoiá-lo — independentemente daquele que seja o nosso partido político. As parecenças físicas estão lá, mas as que dizem respeito à sua personalidade quase não se manifestam.

Os diálogos entre as personagens, por vezes, também seguem este modelo bastante unilateral: nada fica implícito, tudo é dito de forma taxativa para que os espectadores consigam (mesmo) acompanhar o desenrolar da trama. Afinal, há toda uma história política, da fundação do PS às eleições, que tem de ser contada em cerca de uma hora e meia.

Um dos pontos positivos de “Soares é Fixe” é o facto de deixar a audiência em estado de alerta do princípio ao fim. Apesar do resultado do confronto entre ambos não ser um enigma, sentimo-nos nervosos e cativados enquanto vemos o desfecho ser anunciado na televisão —, momento em que, mais uma vez, Mário deambula nervoso (e com um espírito derrotista) pela casa ou pela sede da campanha, no Saldanha (Lisboa).

É precisamente na sede de campanha que se desenrola grande parte da narrativa, e esse é outro dos problemas do filme. As eleições de 1986 foram marcadas pela agitação na rua e pelas rixas entre apoiantes de Soares e Freitas do Amaral. Porém, ambos estes detalhes estão praticamente ausentes da narrativa, e o espectador acabar por se sentir claustrofóbico — 90 por cento da história é contada em espaços fechados.

E estamos sempre a ver as mesmas caras, o que não ajuda. Mário, Maria Barroso (a sua mulher), João (o filho) e outros elementos estão sempre muito presentes. Ainda assim, surgem algumas personagens secundárias com histórias adjacentes à do protagonista, embora acabem por ter sempre um ponto de ligação. Infelizmente, nunca são bem aprofundadas (podemos olhar para o caso de Catarina, uma jovem de 18 anos que ia votar pela primeira vez) e deixam-nos com vontade de sabermos mais, o que não chega a acontecer.

Apesar das suas fragilidades, “Soares é Fixe” é sempre uma boa opção para quem pretende recordar um dos momentos mais marcantes da história recente do nosso País, sobretudo no contexto da proximidade às eleições legislativas, que se realizam a 10 de março.

A equipa da Sky Dreams, a produtora responsável pelo filme, prepara-se para realizar outra biografia de um líder político — “Camarada Álvaro” irá retratar Álvaro Cunhal. Ainda não existem muitos detalhes sobre este projeto, mas já se sabe que a cadeira de realização vai ser novamente ocupada por Sérgio Graciano e o personagem titular será interpretado por Romeu Vala. 

Carregue na galeria para conhecer as séries (e regressos) que chegaram em fevereiro às plataformas de streaming e à televisão. 

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